A infrutífera busca pela Estrela de Belém

Apocalipse Now
20 dez 2019
Autor
Bíblia e Discos Voadores

 

A série de TV Twilight Zone (“Além da Imaginação”, no Brasil) tem uma narração de abertura que se tornou clássica: “existe uma região intermediária entre a luz e a escuridão, entre ciência e superstição, e está localizada entre o abismo dos medos do homem e o cume de seus conhecimentos...”. Esta talvez seja a mesma zona crepuscular em que se encontram as pessoas que já não aceitam mais as explicações mágicas contidas em mitos e lendas, mas continuam querendo que os mitos e lendas sejam verdade em algum sentido literal – e não só simbólico ou “mítico”.

A forma mais comum dessa enfermidade é o evemerismo, doutrina atribuída ao filósofo grego Evêmero (século 4 AEC), que propunha que as histórias sobre deuses e heróis do passado referiam-se, na verdade, a reis e guerreiros de carne e osso, cujos feitos e poderes teriam sido exagerados com o passar do tempo (“quem conta um conto...”). Com isso, a afirmação comum de que todo mito contém “um grão de verdade” deixa de se referir a verdades morais, psicológicas, emocionais, metafóricas, etc., e passa a tratar de verdade histórica.

Quando procura envolver a ciência, o evemerismo percorre um espectro que vai do curiosamente tolo (como um estudo que propõe que a abertura do Mar Vermelho para Moisés pode ter sido causada por uma ventania) ao grotesco, melhor exemplificado pelas teorias do psicanalista russo Immanuel Velikovsky sobre como um cometa gigante teria interrompido a rotação da Terra, criando assim aquelas horas em que, segundo o Livro de Josué (10:13), “... o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingasse dos seus inimigos”. Depois de dar uma mãozinha às hostes hebreias, esse cometa teria se transformado no planeta Vênus.

Nesta época do ano, tradicionalmente, uma modalidade peculiar de evemerismo coletivo se apossa de amplos setores da população, sob a forma da busca pela “verdadeira” Estrela de Belém. Para os não-cristãos mais desligados: essa estrela teria sido um fenômeno astronômico, ainda hoje não adequadamente identificado, que mostrou aos Reis Magos o caminho de sua pátria oriental até a casa de José, em Belém, onde se encontrava o Jesus recém-nascido (esta é a versão do Evangelho de Mateus; a de Lucas, com manjedoura e pastores, em vez de casa, não tem Reis Magos, nem estrela-guia).

Com a aproximação do Natal e o início da chamada “silly season” – o período em que as pessoas saem de férias, os políticos voltam pra casa, ninguém mais tem paciência pra ouvir histórias de crise, crime e corrupção, e os jornalistas começam a entrar em pânico para arranjar assunto – especulações sobre a “real natureza” da estrela da natividade passam a ser tão previsíveis e inevitáveis, no jornalismo de ciência e em outras atividades de divulgação científica  (como planetários), quanto receitas de peru e dicas sobre frutas secas, nos cadernos de gastronomia. 

É preciso dizer que a maioria dessas especulações é bem mais comedida do que a oferecida pelo pastor presbiteriano Barry Downing na obra The Bible and Flying Saucers: “a ideia de seres de outro mundo operando óvnis, com a intenção específica de chamar atenção para o nascimento de Cristo, certamente explica o relato bíblico”. Certamente. O que fica faltando é explicar os seres de outro mundo e seus óvnis.

Em seu livro The Nativity, o historiador britânico Geza Vermes (1924-2013) menciona os três fenômenos mais frequentemente citados como candidatos a “identidade secreta” da Estrela de Belém: uma supernova (hipótese explorada magistralmente por Arthur C. Clarke em um de seus mais potentes contos), o cometa de Halley ou uma conjunção planetária especial.

Vermes, no entanto, despacha rapidamente esses contendores, pois da supernova não há confirmação, e tanto o cometa quanto a conjunção vieram no tempo errado, cedo demais – em 12 e 7 AEC – para bater com a timeline do nascimento de Jesus, que de acordo com o que se depreende dos Evangelhos teria de ter ocorrido em 5 AEC.

A verdade é que a busca pela Estrela de Belém é evermerismo em estado puro. Nas palavras de Vermes: "Toda a evidência disponível mostra que o miraculoso corpo celeste (...) pode ser melhor explicado por meio de considerações literárias, e não astronômicas".

A cultura romana da época estava acostumada a associar momentos grandiosos da vida (incluindo, claro, o nascimento) de homens importantes a fenômenos extraordinários no céu. Tanto Plínio, o Velho (23-79) quanto Suetônio (69-122) narram prodígios celestes ligados ao nascimento e à vida do imperador César Augusto (27 AEC-14), e Suetônio menciona um cometa que teria aparecido para confirmar a recepção da alma de Júlio César (100 AEC-44 AEC) entre os deuses. Tácito (56-120) fala de um cometa que pressagiou a escolha do sucessor de Nero (37-68). 

Esse tipo de clichê literário provavelmente já era bem popular quando o Evangelho de Mateus foi escrito, provavelmente entre os anos 70 e 110.

Além do lugar-comum da literatura romana, havia a tradição judaica. Vermes cita uma profecia atribuída a Balaão, personagem bíblico famoso por ter uma mula falante (Números, 22:28). O Velho Testamento registra que Balaão, para desespero de Balac, rei de Moab, em vez de amaldiçoar o povo de Israel, proferiu uma série de bênçãos, incluindo: "Uma estrela surge de Jacó e um cetro se levanta de Israel" (Números, 24:17). 

Segundo o pesquisador, muito da literatura judaica corrente nos séculos que compreendem a composição do texto de Mateus interpretava essa referência a "estrela" e "cetro" como metáfora para um messias-rei.

"Nesse contexto", escreve Vermes, "não é irracional supor que a ideia da estrela e a narrativa dos magos" tenham surgido do clima cultural do "período de gestação" dos Evangelhos. Ele conclui seu comentário lembrando que uma estrela-guia desempenha um papel importante no épico romano “Eneida”, escrito por volta de 20 AEC.

Então, resumindo, a Estrela de Belém pode ser um milagre, para quem vê nisso um artigo de fé, ou um dispositivo literário, poético, para todos os demais. Postular algo no meio do caminho, na “zona do crepúsculo”, sejam discos-voadores, cometas, alinhamentos planetários ou supernovas, é supérfluo e ocioso. 

Mais ainda: quem tenta apoiar o relato mítico num castelo de cartas “científico” corre, mesmo sem perceber, o risco de esvaziar o mito de tudo que o torna belo e significativo – exatamente o que o evemerismo faz. A abertura do Mar Vermelho tem muito mais impacto como poderosa criação literária do que como fenômeno meteorológico. E, no caso de esforços estapafúrdios como o livro de Barry Downing, se a ideia é postular causas extraordinárias, onipotência divina certamente bate discos-voadores. 

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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