Coronavírus e as conspirações virais

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30 jan 2020
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capa de HQ antiga de espionagem

A natureza humana odeia todo tipo de vácuo, incluindo o vácuo informativo, e o ciclo de notícias (e de redes sociais) de 24 horas não ajuda em nada a lidar com isso. Diante da falta de novas informações relevantes sobre o coronavírus que emergiu na cidade chinesa de Wuhan, no fim do ano passado, os fatos disponíveis são inflados ou fragmentados para preencher o vazio – por exemplo, com intermináveis entrevistas de especialistas que repetem todos mais ou menos a mesma coisa –, vazio que também excita teorias de conspiração.

Assim, cria-se um ciclo perverso: a cobertura incessante, pelo jornalismo profissional, gera um senso de urgência e alimenta uma curiosidade do público que, na ausência de fatos novos, não encontram alívio ou satisfação, mas apenas redundância e tédio. Esse estado de coisas insufla rumores que, por sua vez, justificam a reiteração redundante do que já se sabe – para “combater os boatos”. E o círculo se fecha.

Os americanos têm uma expressão, “comfort food” (já vi “comida afetiva” ser usada com o mesmo sentido, em português) para se referir a alimentos consumidos em busca não de nutrição, mas de conforto emocional, principalmente alívio de ansiedade. Teorias da conspiração muitas vezes funcionam como uma espécie de “comfort food” da mente: produzem uma ilusão de entendimento e, por meio dela, uma ilusão de controle. 

A imaginação conspiratória alimenta-se de pareidolia, a percepção de padrões onde na verdade só há ruído ou coincidências. A palavra “pareidolia” costuma ser reservada a fenômenos visuais ou auditivos – ver o rosto de Jesus numa mancha de umidade na parede, ouvir mensagens numa música tocada ao contrário – mas podemos expandir seu significado para outros modos de percepção. 

Por exemplo: a pareidolia geográfico-narrativa que liga o fato de o novo vírus chinês ter surgido na cidade de Wuhan ao de haver um Laboratório Nacional de Biossegurança, parte de um Instituto de Virologia, no município. Tabloides britânicos e alguns jornais da Ásia não perderam tempo em “ligar os pontos”. O “Hindustan Times”, da Índia, escreveu, com a sutileza de um rinoceronte bailarino, que o laboratório é “coisa de filmes de epidemia de Hollywood”.

A despeito das insinuações na imprensa, no entanto, não há evidência nenhuma de que o vírus tenha sido “fabricado”, ou que tenha “fugido”.  Grandes aglomerações humanas e convivência próxima entre pessoas e bichos são condições propícias para o surgimento de vírus mutantes por vias naturais, e a China tem muito das duas coisas. Frankenstein, a história do monstro criado por cientistas que escapa ao controle e se volta contra seus criadores, é um clichê atraente não porque aconteça muito no mundo real, mas porque nos acostumamos a ele na ficção.

Outro aspecto “comfort food” das teorias de conspiração é que elas permitem apontar culpados. Ameaças sem causa ou direção precisa são desconcertantes; melhores, aquelas que têm fonte certa que, uma vez identificada, pode ser eliminada ou, pelo menos, punida. Essa busca por vilões é perigosa na medida em que dá causa a linchamentos – reais ou virtuais – e, também, distorce a natureza do problema: por exemplo, a crença em teorias da conspiração sobre a origem do vírus HIV, disseminadas na África do Sul, tem forte correlação positiva com a resistência ao uso de preservativos.

A nomeação de vilões serve, ainda, para “confirmar” preconceitos e tentar avançar programas ideológicos. É muito fácil acreditar em conspirações que apontam o dedo para nossos malvados favoritos. Em 2016, para ficar num exemplo brasileiro, parte da mídia e até setores da academia engoliram, acriticamente, a história de que a epidemia de zika estava sendo causada por um pesticida.

Às vezes é difícil dizer se a construção de vilões conspiratórios se dá de modo espontâneo, a partir de elementos difusos da cultura, ou se ocorre deliberadamente, como parte de uma agenda política, ou por mera malícia. 

Situações em que essa dúvida se apresenta e que vêm à mente incluem as tentativas espúrias de ligar a microcefalia (causada pelo zika) à vacina contra rubéola e, em se tratando do coronavírus, a insinuação de que ele estaria ligado a uma vacina supostamente desenvolvida pela Fundação Bill & Melinda Gates. Nesse caso, a vacina, cuja patente foi requerida em 2015, refere-se a um vírus que atinge aves – não seres humanos – e não tem nada a ver com os Gates

Essa última conspiração, em especial, foi abraçada – ou inventada? – pelo movimento anti-vacinas, e também vem causando sensação entre o pessoal que segue QAnon, uma “teoria” segundo a qual os erros e vexames de Donald Trump são, na verdade, mensagens cifradas dando conta de uma guerra secreta travada pelo presidente americano contra o “deep state”, isto é, as “forças ocultas” que, segundo os paranoicos, realmente controlam o governo dos Estados Unidos.

Falando em forças ocultas nos Estados Unidos, ano passado a Câmara de Deputados americana requisitou que o Pentágono revele se já realizou pesquisas sobre o uso de insetos na disseminação de armas biológicas, e se algum desses insetos “armados” teria escapado do laboratório. O contexto disso é uma teoria da conspiração que alega que a que a Doença de Lyme (uma infecção bacteriana transmitida por carrapatos) seria, na verdade, uma arma biológica que (claro) fugiu dos cientistas. 

Diversas razões – entre elas, a lenta progressão e baixa letalidade da doença, a diversidade genética do agente causador (inconsistente com a ideia de um microrganismo construído segundo especificações e desígnios precisos) e a dispersão geográfica dos primeiros casos identificados – apontam na direção oposta. Sem falar, claro, na absolta ausência de qualquer tipo de evidência concreta sugerindo que a hipotética conspiração possa ser verdade.

De qualquer modo, esta é mais uma teoria que gera ilusão de entendimento, que por sua vez gera a ilusão de controle que reduz a ansiedade do arbitrário e do desconhecido, às custas de pôr a culpa em alguém que o público-alvo já estava predisposto a culpar mesmo, por experiência ou preconceito. É a receita completa.

Mas o “comfort food” não vem de graça, e tende a fazer muito mal à saúde: como o exemplo sul-africano mostra, pode propiciar comportamentos autodestrutivos, e é facilmente manipulável por interesses escusos ou apenas perversos. O melhor, quando o ciclo de notícias se torna redundante e o vazio ameaça se apossar das redes sociais, é reconhecer o fato e reagir de acordo – com responsabilidade. 

Hipóteses fundadas em premissas vagas e uma escolha de “culpados” guiada somente por preconceito e antipatia podem ajudar a conter a ansiedade num primeiro momento, mas no fim só servem para disfarçar nossa ignorância. Contudo, a ignorância vista às claras tende a ser menos prejudicial do que a escondemos de nós mesmos.

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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