Desinformação e politicagem sempre acompanham epidemias

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14 abr 2020
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Pintura do século 19 mostra morte por cólera
Pintura do século 19 mostra morte por cólera

 

Enquanto o novo coronavírus, o SARS-CoV-2, continua e se espalhar pelo mundo, as mídias sociais são invadidas por falsas recomendações médicas para combater a infecção. No dia 27 de fevereiro, um post no Facebook que recomendava uma “técnica de autodiagnóstico respiratória de Taiwan” teve 24 mil acessos. Outra postagem recomendava beber água, para que os vírus fossem levados para o estômago. As informações falsas foram compartilhadas por fontes supostamente confiáveis – como a CVS Health, empresa de seguros de saúde, proprietária da rede CVS de farmácias norte-americanas. O diretor médico da empresa enviou a falsa informação por e-mail para 300 mil funcionários do grupo. “Beber água morna é um meio eficiente para mandar o vírus para o estômago, onde é destruído”, dizia o e-mail.

Desde o registro do primeiro caso de COVID-19 na China, em novembro, o vírus se disseminou rapidamente pelo planeta, infectando cerca de 1,4 milhão de pessoas e matando mais de 78 mil. Com o vírus, espalhou-se também a desinformação pela internet. No início de março, o presidente americano Donald Trump ganhou as manchetes ao contestar – sem nenhuma evidência – a taxa de mortalidade da doença divulgada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), durante entrevista a Sean Hannity, da Fox News, dizendo que tinha um “palpite” de que o número seria bem menor, o que logo se espalhou pelo Twitter. Livros suspeitos sobre o vírus se alastraram pela Amazon e pela rede de livrarias Bernes and Noble, enquanto o aparecimento de falsos produtos que anunciavam matar o novo coronavírus fez com que as agências regulatórias americanas disparassem vários alertas.

A tática não é novidade. Faz tempo que políticos distorcem os fatos para que se encaixem em sua visão de mundo, diz Hal Roberts, do Berkman Klein Center for Internet & Society, da Universidade de Harvard. E vigaristas se aproveitam para faturar alto com falsos remédios e procedimentos, que têm trânsito livre na mídia e na publicidade. Segundo Roberts, a falta de confiança nos especialistas em saúde pode levar pessoas, que se sentem prejudicadas pela medicina e pelos sistemas públicos de saúde, a confiar em recomendações falsas, que para elas parecem estar mais alinhadas a seus valores.

Esse tipo de desinformação não vai parar. “Não há como tirar as mídias sociais da vida das pessoas”, afirma Lee Ahern, especialista em ciência da comunicação da Universidade Penn State. Para a saúde pública, essa mistura de recomendações online, sérias e falsas, pode ser péssima notícia. Quando as pessoas veem posts com falsas informações de saúde, “elas esquecem a fonte no dia seguinte, mas vão se lembrar da essência da informação”, explica Ahern.

Para historiadores e pesquisadores de saúde, a disseminação de falsas notícias sobre a COVID-19 não é uma surpresa. Em outras epidemias, boatos e pânico proliferaram, de mentiras e revoltas durante o surto de cólera na Europa no século 19 à censura durante a pandemia da gripe espanhola durante a Primeira Guerra Mundial. “Há sempre um período de incerteza, por isso é importante que toda informação dada ao público seja baseada em evidências”, afirma Graham Mooney, professor associado de História da Medicina da Universidade Johns Hopkins.

Por volta de 1830, uma pandemia de cólera se espalhou pela Europa, do Báltico à Grã-Bretanha e, em 1832 alcançou os Estados Unidos, a despeito da rigorosa quarentena imposta nos portos americanos. Na época, avanços como novas estradas e canais fizeram o comércio crescer em países como Grã-Bretanha e Estados Unidos. Da mesma forma que coronavírus hoje, à medida que o desenvolvimento permitia que as pessoas fossem de uma cidade a outra, de um país para o outro e cruzassem oceanos numa rapidez sem precedentes, a cólera foi mais rápida que os sistemas de saúde pública em todo o planeta.

A cólera foi uma ameaça nova e assustadora, escreve o historiador  Charles Rosenberg em The Cholera Years. Pouco se sabia sobre a doença, que parecia indiferente ao clima e que atacava repetidas vezes, em surtos aparentemente aleatórios. Na cidade de Nova York, conta Rosenberg, o comércio ficou vazio, as igrejas fecharam e os cadáveres se acumulavam nas ruas. “Podia matar uma família inteira em questão de horas,” conta Alfredo Morabia, professor de epidemiologia clínica da Faculdade de Saúde Pública Mailman, da Universidade de Colúmbia. “As pessoas saíam de casa pela manhã e, quando voltavam à noite, a família toda estava morta.”

Na Europa, enquanto boatos e medo se alastravam entre os mais pobres, autoridades locais e médicos se tornaram alvos da ira do púbico, escreve o professor de História da Universidade de Glasgow, Samuel Cohn, na revista Social History. Embora surtos anteriores tivessem, habitualmente, transformado minorias em bodes expiatórios – no século XIV mil judeus foram queimados vivos depois de serem falsamente acusados de envenenar poços durante a Peste Negra –, a cólera era diferente. A doença, dizia-se, era uma ferramenta das elites para matar os pobres. Essa inquietação se transformou em revolta, segundo Cohn. Os manifestantes atearam fogo a carroças e lixo e chegaram a afogar um assistente de médico.

“Como historiador, pouco importa se esses rumores eram verdadeiros ou não, o que importa é papel que desempenham e qual função lhes confere poder,” explica Mooney.

Os rumores permaneceram. Para os britânicos pobres, a percepção de ameaça vinda de figuras de autoridades, como pessoal médico, não estavam distantes da realidade. Segundo Mooney, as autoridades sanitárias da época podiam multar e prender pais, se não obedecessem às ordens de mandar um filho doente para o hospital. Em epidemias como as de cólera, a disposição de se submeter às restrições – ou a inclinação para a revolta – dependia na confiança ao governo e na medicina, além da comunicação clara, de acordo com a historiadora Marieke Hendriksen. E, embora, alguns pobres confiassem nas autoridades, outros viam o pessoal da saúde como “metidos de classe média”. “Existe um equilíbrio muito delicado entre conquistar a confiança e abusar da autoridade”, afirma Mooney.

Os pobres também tinham sido alvo dos ladrões de cadáveres para as mesas de dissecação das escolas de medicina, segundo Cohn. Quatro anos antes do surto de cólera de 1832, William Burke e William Hare mataram 16 pessoas em Edimburgo, e venderam os corpos para um anatomista de uma escola de medicina, num escândalo que abalou a cidade escocesa. Naquele mesmo ano, políticos britânicos publicaram um relatório recomendando que as escolas de medicina usassem cadáveres não reclamados de gente pobre. À medida que os corpos das vítimas de cólera empilhavam-se na Grã-Bretanha, os jornais publicavam que  “as marés do Tâmisa funcionavam como uma esteira de transporte, levando os corpos dos cemitérios para o centro de Londres”, conta Cohn.

Durante o século 19, houve cinco pandemias de cólera, de acordo com Mooney. Da mesma forma que hoje dados ajudam a acompanhar a disseminação da COVID-19 e mostram ao público sua gravidade, as autoridades locais do século 19 passaram a relatar as mortes por cólera para o governo. Os trabalhadores da área de saúde não apenas sabiam quem tinha morrido e onde, como funcionários públicos podiam coletar esses dados para acompanhar a disseminação da doença. Segundo Mooney, os jornais britânicos da época publicavam o número de mortes causadas por determinadas doenças a cada semana. “Podemos usar essa informação para conter boatos, medo e desconfiança”, disse. “Temos estatísticas de todas as grandes cidades europeias sobre o avanço da cólera e da varíola pelo continente.”

No início do século 19, essa coleta de dados tinha melhorado bastante, mas quando uma pandemia de influenza irrompeu em 1918, em meio à Primeira Guerra Mundial, outra ameaça apareceu: a politicagem em tempos de guerra. Os países envolvidos no conflito controlaram a imprensa, alegando que notícias sobre uma doença infecciosa ameaçariam a segurança nacional. A chamada gripe espanhola ganhou esse nome porque a mídia da Espanha – que tinha um governo neutro – noticiava a epidemia, embora historiadores não acreditem que a pandemia tenha se originado naquele país.

Em tempos de paz, as notícias sobre os surtos de gripe teriam circulado livremente, mas durante a guerra, elas pararam. A gripe espanhola infectou 500 milhões de pessoas em todo planeta. A filosofia do epidemiologista e legislador britânico Arthur Newsholme era manter o público calmo “para que nação não fizesse nada”, diz Jim Harris, professor de história na Ohio State UniversityOs Estados Unidos aprovaram uma lei de censura, impedido que funcionários da saúde pública informassem as taxas de mortalidade de influenza para os militares, para não minar o esforço de guerra, segundo William Summers, professor emérito de História da Medicina na Universidade de Yale.

Táticas semelhantes de silenciamento e minimização de situações graves ainda estão sendo usadas hoje por políticos durante a pandemia da COVID-19, com o presidente Trump questionando desde o número de mortes até a resposta inicial da China, que não deu números precisos logo que a doença surgiu. “Esse tipo de atitude governamental não é exclusividade da China, nem de país nenhum,” afirma Summers. “Isso parece ser um procedimento operacional padrão.”

As versões dos profissionais de saúde e do público, durante surtos de doenças infecciosas, frequentemente diferem, segundo Jon Lee, instrutor de Inglês na Universidade de Suffolk que documentou os boatos que correram durante a pandemia da SARS de 2003. E a demanda do público por respostas supera, em muito, a capacidade do processo científico. “Geralmente, temos dois conjuntos de narrativas, situação agravada pelo fato de a ciência precisar de muito tempo para apresentar respostas definitivas para esses surtos,” diz.  

Enquanto sites como Pinterest redirecionam as buscas por “coronavirus” para canais de “organizações de saúde internacionalmente reconhecidas”, fake news e desinformação proliferavam pela internet. Um post do Facebook, com milhares de compartilhamentos – agora retirado, por ser informação falsa – afirmava que que a COVID-19 não passava de “uma gripe comum”. O post também associava o pânico em torno da COVID-19 a conspirações políticas para promover o medo e controle de protestos na China. Outros afirmavam que altas doses de vitamina C e ingestão de alvejante preveniam a infecção.

“Quando a desinformação se instala, especialmente quando parece lógica, quando parece fazer sentido de forma anticientífica, combatê-la é uma batalha inglória”, diz Ahern, o pesquisador de ciência da comunicação da Penn State. “É extremamente difícil arrancar essas ideias populares e anticientíficas da cabeça das pessoas.”

Na esfera política, Trump e outros líderes norte-americanos têm inflamado a situação da COVID-19 com posts incendiários nas mídias sociais, numa época em que diminui a confiança nos políticos. Em fevereiro, o Pew Research Center mostrou que apenas 4% dos americanos tinham “grande confiança” de que políticos eleitos agiriam em favor do interesse público. A mesma pesquisa mostrou que a confiança nos cientistas aumentou. Mas mesmo cientistas que atuavam como assessores da administração Trump para mudanças climáticas, desastres naturais e agora COVID-19 têm dificuldade em ser levados em consideração pelo chefe. Segundo Roberts, de Harvard, esses líderes fazem parte de um ecossistema midiático que os pressiona a construir narrativas alinhadas a seus interesses políticos, “de forma que recomendações de cientistas que contrariam interesses políticos são ignoradas”.

Para Tara Smith, epidemiologista e professora da Faculdade de Saúde Pública da Kent State University, a resposta federal à pandemia vinha sendo frustrante, embora acreditasse que, à medida que os departamentos de saúde municipais e estaduais passassem a agir, a situação melhoraria, como realmente aconteceu nos EUA. De acordo com ela, Trump jogou dos dois lados, encontrando-se com cientistas e representantes da indústria farmacêutica e, ao mesmo tempo, chamando a COVID-19 de “a nova farsa dos democratas”. O vice-presidente prometeu a distribuição de 1,5 milhões de testes na mesma época, mas até 23 de março apenas 246.330 tinham sido entregues. Smith, com razão, afirmava que os testes permitiriam que os EUA administrassem melhor a epidemia.

Enquanto o mundo continua a enfrentar a COVID-19 e as incertezas quanto a extensão e duração da pandemia, Harris, o professor da  Ohio State, destaca a importância do papel dos cientistas na disseminação de informações corretas, baseadas em evidências: “Ouça os verdadeiros especialistas, o CDC, a Organização Mundial da Saúde. Leve suas recomendações a sério, faça o que eles dizem. Isso não é o fim do mundo, é?”

 

Marisa Peryer escreve sobre ciência e seus trabalhos já apareceram na Columbia Journalism Review, no Milwaukee Journal Sentinel e no Yale Daily News.

 

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