Discutindo cloroquina na caixa de comentários do Facebook

Artigo
14 abr 2020
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Olhando o mundo pelas lentes da rede social

 

 

Thomas Govier, leitor frequente desta revista e debatedor incansável das redes sociais, enviou-nos esta reflexão sobre a vida nas trincheiras da polêmica “científica” online. Publicamos o texto por seu valor intrínseco, analítico, e também como retrato do momento histórico. [Nota do Editor]

 

Antes de morrer na praia após tanto debate, eis uma última tentativa de explicar o problema da discussão da cloroquina/hidroxicloroquina, por meio de um monte de sub-problemas. 

 Primeiro, não há problema em um médico usar essa ou outra substância se, num dado momento de um tratamento, ele achar por bem usar e tenha razoáveis argumentos para tal.  O problema é assumir que isso significa que a substância deva ser oficialmente adotada como parte do protocolo público de atendimento à doença.  O problema é assumir que, a partir de alguns casos, deva se aplicar a todos os casos, sem ter isolado as variáveis (“variáveis de confusão”).

 O problema é pessoas entrarem na discussão e não saberem o que significa “isolar as variáveis”. Por exemplo, será que a substância foi usada em conjunto com outras? É possível atribuir a melhora do paciente só um deles? Qual dose usou e quantas vezes?  Quantos dos pacientes tinham diabetes? Nenhum? Essas questões “confundem” os resultados. 

O problema está em pessoas não entenderem o que significa amostragem. O problema está em não saberem o que é um grupo de controle, ou um ensaio randomizado. 

 A hidroxicloroquina não começou a ser usada no tratamento da artrite reumatoide meramente porque também funcionava no tratamento do lúpus e da malária.  Já que é usada na malária, será que vale concluir que pode ser usado em outras doenças transmitidas por mosquitos? Claro que não: inclusive, os testes para casos de chicungunha tiveram péssimos resultados

 O problema está no potencial de gerar falsas expectativas e corridas às farmácias. Não importa que, agora, no Brasil, as farmácias tenham que reter a receita – antes não tinham, e o fato da Anvisa ter imposto a retenção só sustenta meu argumento. 

 (E, de qualquer modo, nossa comunidade médica no Brasil pode muito bem ficar receitando para familiares e amigos, e amigos de amigos.)

 O problema também está em outros países embarcarem na onda sem ter estoques para tratar de quem realmente precisa.  Um outro problema está também na potencial falta do produto para quem precisa do medicamento para tratar de artrite reumatoide, lúpus e malária. 

 O problema está em nem saber se, ou quando, o tratamento pode piorar o quadro. 

 O problema está em só focar a discussão neste medicamento, quando há outros a serem considerados.  E que os outros a serem considerados estão recebendo menos atenção dos pesquisadores, porque os cientistas precisam atender à demanda pública e política e concentrar todos os esforços em um.  Na França, já estão vendo dificuldades em fazer estudos comparativos, porque quase todo mundo exige só essa substância.  

 Meu problema é ser questionado se eu sou médico, quando não sou eu quem está propondo que se adote a substância cegamente como política pública, “para que todos tenham a chance, não só médicos”, como dizem uns, ou que “quem estiver em estado grave tem que poder receber a substância”, quando algumas evidências apresentadas dizem que, talvez, seja melhor tomar quando a condição ainda não é grave – ou nunca. 

 O problema é extrapolar a ideia do “vale a pena tentar” para uma política pública de uso protocolar da substância.  

 Meu problema é que as pessoas assumem que meus argumentos equivalem a dizer que sou contra o uso do remédio. Sou, até mesmo, a favor de que se amplie a produção, pois torço para que pesquisadores cheguem a uma conclusão rápida e que esta substância funcione como tratamento. Espero que outras substâncias também tenham sua produção aumentada, inclusive pelo laboratório do exército, pelos mesmos motivos. 

 O problema está no povo já achar que esta é a cura, e não entender a diferença entre cura e tratamento porque o nosso presidente, entre outras pessoas, não se dá ao trabalho de explicar. 

 O problema está em, quando/se o remédio for comprovado eficaz, pessoas vão dizer “viu, eu estava certo; viu, o Bolsonaro estava certo”. Não, nunca estavam certos: só é a realidade que terá coincidido com suas apostas. 

 O problema está em acharem que quem apresenta argumentos como os meus está, por alguma razão estranha, contra o governo atual e fazendo política.  

Um problema final é que o debate já vai ficar velho porque as coisas estão andando numa velocidade de ultrapassagem, e a ciência novamente terá sido colocada para escanteio.

 


Thomas Govier é seguidor assíduo do IQC - Instituto Questão de Ciência (dentre dezenas de outros sites de ciência).  É leigo, talvez semi-leigo. Estudou, no ensino médio, na Inglaterra (o que talvez corresponda ao nível técnico no Brasil), matemática, química e física, e chegou a cursar dois anos de física na USP.  O interesse pelas ciências retornou com o advento das Fake News pseudocientíficas, quando ainda não existiam na mídia equipes de “fact checking”.

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