Conspirações e coronavírus, novo balanço

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24 abr 2020
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Asteroide colide com a Terra

 

A revista britânica Fortean Times (FT) é o periódico do estranhamento: suas reportagens, colunas e notas cobrem assuntos que vão de avistamentos de discos voadores a casas mal-assombradas, passando por curiosidades divertidas (por exemplo, a descoberta de um lemingue congelado há 40 mil anos na Sibéria), fenômenos perturbadores nuvens de gafanhotos, chuvas de sapos e, claro, teorias da conspiração. A edição mais recente, recebida no tablet em meio ao isolamento social, faz uma espécie de grande apanhado da ideação conspiratória em torno da COVID-19.

Esta edição da FT já estava fechada quando o chanceler Ernesto Araújo soltou seus pensamentos sobre o comunavírus, então o Brasil não está contemplado. O principal foco da coluna regular The Conspirasphere já não é mais nem a hipótese descartada da arma biológica,  nem a bizarra suposta conexão entre a pandemia e a tecnologia 5G. O mais quente é a reação dos fãs de QAnon aos desenvolvimentos em torno da doença.

QAnon, abreviação de Q Anônimo, é o nome dado a uma suposta fonte secreta, que assina suas postagens online apenas como Q,  infiltrada no governo federal dos Estados Unidos. Q age espalhando migalhas de pão sobre o que seriam os verdadeiros bastidores da administração Trump.

De acordo com Q, os erros e vexames de Donald Trump são, na verdade, mensagens cifradas dando conta de uma guerra secreta travada pelo presidente americano contra o deep state, isto é, as forças ocultas que, segundo os paranoicos, realmente controlam o governo dos Estados Unidos.

O clímax dessa guerra secreta viria com a Tempestade, o momento em que o oculto far-se-á  explícito, os traidores serão expurgados e os pedófilos do Partido Democrata (incluindo, claro, a besta-fera do trumpismo, Hillary Clinton) acabarão presos e humilhados. 

O colunista de Conspirasphere, Noel Rooney, diz que o pessoal Q segue firme ao lado de Trump, com alguns especulando que o lockdown trazido pelo vírus é parte da preparação para a Tempestade: os esquerdistas não poderão ir às ruas defender Hillary se estiverem todos trancados em casa! A pessoa (ou pessoas) responsável pela persona de Q tem se mantido em relativo silêncio nos últimos tempos, mas usou em uma postagem a expressão vírus chinês, que Trump tem tentado, sem sucesso, fazer colar na mídia.

 

Indesejadas e imprevistas

O filósofo austríaco Karl Popper (1902-1994) é mais conhecido por sua tentativa valente, mas no fim, fracassada, de estabelecer um critério claro e certo para distinguir ciência de pseudociência, o da falseabilidade: uma teoria é científica se fizer previsões que, em tese, poderão um dia ser refutadas por observações ou experimentos.

Como bem resume outro filósofo, o americano Lee McIntyre, dependendo da interpretação que se dá, o critério é ou frouxo demais (astrologia e homeopatia fazem previsões refutáveis, logo seriam ciências) ou rígido em excesso (como há instâncias experimentais que contradizem as Leis de Newton, os cientistas seriam irracionais ao continuar a usá-las).

Em meio a suas reflexões sobre a natureza da ciência, Popper debruçou-se sobre o problema das teorias da conspiração, que ele via como uma espécie de ciência social incompetente.

A teoria conspiratória da sociedade, escreve ele no livro de ensaios Conjecturas e Refutações, “é apenas uma versão do teísmo, uma crença em deuses cujos caprichos governam tudo. Ela vem de abandonar Deus e então perguntar: Quem ficou em seu lugar? Seu lugar foi preenchido por diversos grupos e homens poderosos sinistros grupos de pressão, que merecem a culpa () por todos os males de que sofremos.

Já em outro livro, A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, Popper define a teoria conspiratória da sociedade como a ideia de que a explicação de um fenômeno social consiste em encontrar os homens ou grupos que estão interessados na ocorrência do fenômeno.

Isso é absurdo, argumenta ele, porque pressupõe que tudo o que acontece, acontece pela ação e intenção consciente de alguém: resultados imprevistos e consequências indesejadas são excluídos do quadro explicativo, por questão de princípio. Mas as vidas dos indivíduos, a sociedade como um todo, são permeadas por efeitos imprevistos e consequências indesejadas. Popper dá um exemplo da lei de oferta e procura: a pessoa que manifesta o interesse de comprar uma casa provoca um aumento no preço da casa o comprador causa algo que obviamente não deseja.

 

Astounding SF

Cometas e bruxas

Como todo e qualquer fato do mundo da cor do asfalto à duração do dia pode ser visto como tendo consequências que beneficiam alguém, o escopo para teorias da conspiração e ideação conspiratória é, em essência, infinito. Na esfera política, isso é especialmente notável. Todo comentarista, à direita e à esquerda, ganha pontos de reputação e sagacidade ao apontar para um efeito colateral indesejado ou resultado imprevisto de uma política pública e dizer, com voz grave, era exatamente o que queriam, desde o começo. Conspiracionistas vivem num mundo livre de acaso e incompetência.

Mas, claro, há gradações. Temos o conspiracionismo light das conversas de Twitter, temos Ernesto o globalismo é o novo caminho do comunismo Araújo e temos alguém que assina como Scott W, agente aposentado da CIA, que segundo a Fortean Times denunciou que a pandemia foi implementada para distrair a humanidade da colisão iminente da Terra com um cometa.

Afinal, por que restringir as consequências e benefícios que entram na máquina geradora de conspirações aos que existem de fato no mundo real?

Outras teorias exóticas relativas à COVID-19 e coletadas pela revista incluem: um plano da elite globalizada para aumentar impostos; um plano neoliberal para obrigar as universidades a migrar para o ensino à distância; e a melhor de todas, que o vírus foi criado por um culto de bruxas feministas para eliminar os homens mais velhos, talvez por estarem refestelados, há várias décadas, nos privilégios do patriarcado.

Em 1941, a revista de ficção científica americana Astounding Science Fiction publicou o conto Logic of Empire, de Robert Heinlein (1907-1988), onde um personagem acusa outro de cometer o erro de atribuir à vilania condições que simplesmente resultam de idiotice. Levemente reformulado, o princípio acabou ficando conhecido como Navalha de Heinlein (ou de Hanlon, em homenagem a Robert J. Hanlon, que enunciou o mesmo pensamento anos mais tarde, de forma independente): Nunca atribua à malícia o que pode ser adequadamente explicado por incompetência.

O que é, mais ou menos, o mesmo argumento de Popper.

 

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência e coautor do livro "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto)

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