Pandemia evidencia falta de alfabetização em saúde no mundo

Artigo
24 mai 2020
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Donald Trump

Era para ser mais um dos intermináveis pronunciamentos do presidente Donald Trump sobre a COVID-19, que se transformaram numa espécie de palanque, onde o candidato à reeleição se dedica a fazer elogios a si mesmo e críticas ferozes aos adversários, Mas, em 23 de março, após um dos cientistas da equipe que o assessora confirmar que água sanitária, desinfetantes e álcool eliminam o SARS-CoV-2 de superfícies, o presidente americano se sai com esta: “Desinfetantes eliminam o vírus num instante. Será que podemos fazer alguma coisa assim, uma injeção que faça uma limpeza interna? Seria interessante testar”.

Nos dias que se seguiram, os departamentos estaduais de saúde dos Estados Unidos receberam uma enxurrada de telefonemas de cidadãos perguntando se era mesmo seguro beber ou injetar desinfetantes, água sanitária e álcool para combater o coronavírus, enquanto assessores da Casa Branca tentavam convencer a imprensa que o presidente tinha sido “apenas irônico”. O fato é que Trump provavelmente nunca pegou numa embalagem de desinfetante e leu o rótulo “produto tóxico”, “mantenha fora do alcance das crianças” e as recomendações para procurar serviço de toxicologia em caso de ingestão.

Ele, e um bom número de americanos, padece de “analfabetismo em saúde”, outra pandemia mundial que faz estragos consideráveis em tempos de COVID-19. O alerta é de Leena Paakari, especialista em educação em saúde da Faculdade de Esportes e Ciências da Saúde da Universidade de Jyväskyla, na Finlândia, e Orkan Okan, da mesma área, do Centro Interdisciplinar de Pesquisa em Alfabetização em Saúde, da Universidade de Bielefeld, na Alemanha. Ambos publicaram comentário a respeito em The Lancet, destacando que o problema é subestimado na pandemia da COVID-19.

Alfabetização em saúde é a capacidade de uma pessoa ou população obter, compreender e usar informação em saúde para tomar as decisões adequadas e seguir instruções para prevenção ou tratamento de doenças. Obviamente, essa informação precisa ser clara e acessível, para que a pessoa entenda as instruções do médico, por exemplo, para conseguir ler uma bula, para entender que precisa tomar vacinas ou ficar em casa em tempos de distanciamento social.

No Brasil, boa parte dos hipertensos compõe um quadro clássico de analfabetismo em saúde, já que não são poucos os que não entendem que é necessário usar a medicação todos os dias: muitos só tomam o anti-hipertensivo quando sentem fortes dores de cabeça. Somem-se a eles os que não se vacinam contra a gripe, porque acham que a vacina causa a doença, sem contar a legião de homens que não fazem exames preventivos para câncer de próstata porque consideram o exame de toque uma ofensa à masculinidade. O brasileiro também é um caso excepcional nos quesitos automedicação e prescrição para familiares e vizinhos.

A pandemia também mostrou que os brasileiros embarcam alegremente em qualquer promessa de prevenção ou falsa cura da COVID-19. Recentemente, uma pesquisa do Conselho Federal de Farmácia comparou as vendas de medicamentos e suplementos alimentares, de janeiro a março do ano passado, com as deste ano, mostrando um aumento de 67,93% nas vendas de hidroxicloroquina nesse período.

Vale notar que esses dados são bem anteriores à ação das redes sociais de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, que começaram a pressionar pela liberação do produto, o que acabou levando à demissão do ex-ministro da Saúde Nelson Teich. Também dispararam as vendas de vitamina C (180,01%) e de vitamina D (35,56%), possivelmente alimentadas por rumores de que pessoas com carência dessas vitaminas seriam mais suscetíveis à COVID-19.

Segundo os autores do artigo da Lancet, as informações mais valiosas sobre transmissão e prevenção da COVID-19 são fáceis de entender, incluindo-se aí lavar as mãos com frequência e manter isolamento social, além de onde encontrar orientação confiável e atualizações. O problema é que, ao mesmo tempo, existe a divulgação de informações complexas, contraditórias e, claro, falsas.

“A infodemia da COVID-19, porém, evidencia que o analfabetismo em saúde numa dada população é um problema subestimado em todo o mundo. Na Europa, por exemplo, quase metade dos adultos admite ter problemas com conhecimento em saúde e não ter competência relevante para cuidar da própria saúde e da de outros”, escrevem.

Especialistas consideram a alfabetização em saúde fundamental para prevenção de doenças não transmissíveis, como diabetes e problemas cardíacos, mas a COVID-19 mostrou rapidamente que ela também é essencial para sua prevenção e que, além do preparo dos sistemas de saúde, é fundamental para que cada indivíduo seja capaz de solucionar os problemas complexos da vida real que a pandemia impõe. De acordo com os autores, é difícil, mas ainda possível, aproveitar esse período para aumentar o conhecimento em saúde da população, porque tanto governos como cidadãos precisam agir imediatamente.

 

Liberdades

Em epidemias como a da COVID-19, conceitos como liberdade individual, direitos humanos e responsabilidade social são postos à prova. No artigo “Personal and Social Responsibility for Health”, Daniel Wikler, educador em saúde e professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Harvard, afirma que “se a pessoa corre riscos, mas os aceita como preço a ser pago pelo que considera prioridade, a saúde pública não deve intervir. É o caso do hipertenso que, mesmo sabendo de sua condição, decide não controlar o uso de sal, ou do diabético que não resiste a um bolo de chocolate”.

Mas, para Paakari e Okan, esse princípio não se aplica a casos como a pandemia da COVID-19, em que comportamentos irracionais que ignoram as recomendações da saúde pública podem ser motivados por falta de compreensão dos riscos ou outras prioridades, comprometendo toda a comunidade, como ocorre com as vacinas.

Pessoas que ignoram as determinações da saúde pública, que se reúnem em aglomerações e não usam máscaras, por exemplo, beneficiam-se dos que se comportam com responsabilidade e criam um ambiente em que o vírus circula menos, tendo assim uma falsa sensação de invulnerabilidade. Mas o risco, relativamente baixo, de infectarem-se depende de outras pessoas que sigam as recomendações sanitárias coletivamente. É essa recusa de contribuir para o bem comum que torna seu comportamento injusto e perigoso, especialmente para os grupos de alto risco e profissionais da saúde.

De acordo com os autores, a alfabetização em saúde permite que as pessoas entendam as razões que estão por trás das recomendações da saúde e avaliem as consequências de seus atos. O problema é que responsabilidade social e pensar no coletivo, e não apenas no individual, também deveriam ser uma ferramenta da alfabetização em saúde.

Esses são conceitos em que o Brasil também falha. “Não sou grupo de risco”, “só vou fazer uma caminhada”, “é só um almoço de família” são alguns dos “argumentos” bastante comuns entre os que rompem o distanciamento social. Isso sem contar os negacionistas que insistem em dizer que a COVID-19 não é doença grave, que a pandemia é uma invenção da mídia, que o número de mortos é superdimensionado.  Solidariedade e responsabilidade também deveriam estar na agenda daqueles que produzem e disseminam fake news, ainda que involuntariamente.

Nos últimos dias, algumas redes sociais foram invadidas por muita gente “denunciando” a existência de um novo “golpe”, com pessoas que se identificam como sendo do Ibope, mas que na verdade queriam uma amostra de sangue. A “denúncia” ganhou as redes e começaram a aparecer as especulações, que também se disseminaram rapidamente. A de que seria um golpe para promover assaltos, a de que, na verdade, tratam-se de pessoas que estavam transmitindo HIV através do furo no dedo para obter uma gota de sangue e, mais mirabolante ainda, que no falso teste era injetada uma substância para que, depois, a pessoa se tornasse vítima de traficantes de órgãos para transplante. Em várias cidades, as pessoas abordadas chamaram a polícia, que chegou a prender os pesquisadores.

Tratava-se, na verdade, de pesquisa coordenada pela Universidade Federal de Pelotas e patrocinada pelo Ministério da Saúde, que vai testar 33.250 pessoas em 133 cidades brasileiras, para projetar qual a porcentagem de brasileiros já foi exposta ao SARS-CoV-2, já que não há exames em quantidade suficiente para testar a maior parte da população. Com a confusão, pesquisadores foram detidos, alguns ficaram aterrorizados com a possibilidade de serem agredidos pela população, e mais de 300 testes foram perdidos por terem sido mal acondicionados. O Ministério da Saúde afirma que comunicou todas as secretarias de saúde sobre a pesquisa e que estas alegam que informaram as prefeituras que, por sua vez, afirmam não saber de nada. A pesquisa, que começou em Pelotas, tem sido amplamente divulgada pela mídia, jornais, TV, rádio e sites de notícias há semanas.

Do outro lado, o público apavorado teria se beneficiado de uma pequena dose de alfabetização de saúde. O teste usa uma lanceta descartável, como a que é usada diariamente por diabéticos que monitoram suas taxas de açúcar no sangue. Elas não servem para injetar nada, só para perfurar a pele e obter uma gotinha de sangue.

Ruth Helena Bellinghini é jornalista, especializada em ciências e saúde e editora-assistente da Revista Questão de Ciência. Foi bolsista do Marine Biological Lab (Mass., EUA) na área de Embriologia e Knight Fellow (2002-2003) do Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde seguiu programas nas áreas de Genética,  Bioquímica e Câncer, entre outros

 

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