O SARS-CoV-2 sofre mutações. E daí?

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1 jun 2020
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No início de março, a revista "National Science Review", da Academia Chinesa de Ciências, publicou um estudo com peer review chamado “On the Origin and Continuing Evolution of SARS-CoV-2” (Sobre a Origem e a Evolução Contínua do SARS-CoV-2). Os autores argumentavam que as várias linhagens do novo coronavírus podiam ser agrupadas em dois clusters, um tipo L, que predominou durante as primeiras semanas da epidemia em Wuhan, e um tipo S, que se diferenciava do tipo L por apenas duas alterações genéticas. Os pesquisadores especulavam que o tipo L era mais agressivo e contagioso que as linhagens tipo S, que tinham se tornado mais comuns fora da China. A implicação era que a COVID-19 não se disseminaria tão depressa pelo resto do mundo como em Wuhan.

Embora essa análise se baseasse apenas em mudanças na frequência de mutações de cerca de 100 genomas sequenciados, a ideia caiu no gosto da mídia. Enquanto parte da imprensa contextualizou o estudo, registrando as críticas, outra parte extrapolou as conclusões, afirmando que o SARS-CoV-2 estava evoluindo para se tornar mais “benigno”, uma supersimplificação perigosa da ideia de que muitos patógenos perdem força depois do surto inicial.

Essas narrativas – um ramo da pseudociência da COVID-19 – cresceram nos últimos meses. No início de maio, a mídia deu enorme destaque para um estudo, sem peer review, que detectou uma mutação que foi considerada uma indicação de que o SARS-CoV-2 estava se tornando mais transmissível, e diversificado demais para que uma vacina pudesse ser eficiente contra ele.

A maioria dos biólogos evolucionistas sérios decidiu não se envolver nessas controvérsias, optando por ficar fora dos debates. É algo surpreendente, em se tratando de evolucionistas, acostumados a debater com criacionistas e afeitos à arte de falar em público sobre ideias controversas. Seu silêncio relativo produziu um vazio que foi preenchido por comentaristas menos contidos: aparentemente, cada mutação identificada no novo coronavírus foi anunciada ou como sinal de que o vírus está mais bem adaptado para se reproduzir e disseminar, ou que está se tornando menos agressivo.

As diferenças genômicas entre diferentes linhagens do novo coronavírus são um fato concreto, mas o significado dessas diferenças é fonte de muita controvérsia. E, neste momento, a cobertura da mídia sobre o SARS-CoV-2 sugere que o público americano fundamentalmente não entende como funciona a evolução — e como distinguir entre duas de suas principais fontes, adaptação e deriva genética. Esta última representa a acumulação gradual de eventos fortuitos que não têm consequências reais para como o vírus se comporta. E quando uma linhagem genética parece fazer grandes saltos em sua capacidade de se desenvolver e proliferar, geralmente é a deriva genética, e não a adaptação, que está em ação.

Pesquisadores da Universidade de Glasgow levantaram justamente esse ponto em carta e crítica formal encaminhadas à "National Science Review" sobre o estudo das linhagens L e S do novo coronavírus. Os cientistas de Glasgow afirmaram que, dentre as várias falhas técnicas do estudo chinês, havia uma fundamental. O estudo não testava se a abundância do tipo L teria ocorrido sem alterações na capacidade infecciosa do SARS-CoV-2. Em outras palavras, os autores não tinham considerado um modelo nulo, um modelo que testaria se os padrões que viram nos dados poderiam ser resultado de mero acaso.

Em cassinos, modelos nulos acabaram com a ideia de “dias de sorte”, mostrando que cada jogada é independente das outras: uma máquina de caça-níqueis é só uma máquina, e contém tanta mágica quanto um cara ou coroa. Em ciência, modelos nulos controlam saltos inferenciais e nos alertam que, na maioria dos casos, explicações que viram manchetes têm menos chances de se sustentar, no longo prazo, do que as entediantes.

Modelos nulos são fundamentais para dar sentido à enorme quantidade de informações genéticas reunidas sobre a evolução do SARS-CoV-2. Biólogos evolucionistas usam a expressão “deriva genética” para definir o papel do acaso e da sorte na sobrevivência de um organismo, e um bom modelo nulo deve dar conta dos efeitos do acaso.

Apesar de aleatória, a acumulação de deriva genética ao longo de gerações pode ter consequências surpreendentes: um lance de sorte evolucionário pode tornar uma mutação insignificante ou neutra predominante em uma população. A ideia de que a maioria das diferenças genéticas entre espécies é neutra foi controvertida durante décadas, mas agora é consenso entre cientistas. A lição para o momento atual é que a maioria das mutações mais comuns detectadas no novo coronavírus não tem nenhuma influência em sua capacidade de infectar e prejudicar seres humanos.

Esse “detalhe” se perdeu completamente em um estudo recente publicado na "Proceedings of the National Academy of Sciences" (PNAS). Os autores tentaram construir uma rede detalhada mostrando as linhagens genéticas de 160 genomas diferentes de SARS-CoV-2, e como essas linhagens se disseminaram pelo mundo. As críticas científicas que se seguiram focaram nas questões técnicas. Mas o que atraiu a atenção da mídia foi a sugestão dos autores de que um tipo de linhagem, batizada de “vírus de Wuhan tipo B” poderia ser "imunologicamente ou ambientalmente adaptado para uma grande parcela da população asiática e, portanto, precisaria sofrer mutação para superar a resistência de populações não-asiáticas”.

Os pesquisadores apenas mencionam modelos nulos, concentrando-se em hipóteses exóticas para explicar as diferenças na disseminação do vírus. Quando a interpretação especulativa chegou ao tabloide britânico Daily Mail, ela já tinha se transformado numa história ainda maior: “Cientistas acreditam que o vírus... está em constante mutação para superar a resistência do sistema imunológico em diferentes populações”.

Quando mutações voam longe – como num voo intercontinental –, então alterações genéticas neutras podem ser balcanizadas em grupos geográficos distintos que parecem ter um padrão significativo, levando os mais descuidados a tirar conclusões provocativas, mas injustificadas, sobre a disseminação viral. Cientistas podem qualificar essas interpretações de especulativas, mas o que eles fazem é desinformação, sugerindo que uma vacina jamais irá funcionar, que o SARS-CoV-2 pode ter pulado para outras espécies a partir dos cachorros, ou que um vírus mutante vai produzir uma segunda onda muito mais grave que a primeira. Diante do medo do público em torno da gravidade do surto, a compreensão flexível sobre a como a teoria de Darwin atua em diferentes contextos não é páreo para o patife com PhD, que dissemina ideias distorcidas sobre a evolução às custas da sociedade.

O fato é que genomas virais, apesar de diferentes dos genomas humanos e outros animais em muitos sentidos, parecem obedecer aos mesmos princípios evolutivos. Um desses princípios é que a maioria das alterações genéticas que se tornam prevalentes numa população o fazem a despeito de ter pouco ou nenhum efeito sobre o comportamento individual.  

De qualquer forma, é muito importante estudar essas mutações: quando interpretadas corretamente, elas podem indicar como um vírus se movimenta pela população e ajudar pesquisadores a caracterizar surtos locais. Além disso, algumas mutações podem se traduzir em mudanças significativas em nossa relação com o novo coronavírus.

Mas a ideia de que o SARS-CoV-2 vai evoluir para um Enigma de Andrômeda ou se tornar benigno como um resfriado se alimenta de nossa ignorância e de nosso medo. Cientistas, que passam anos em busca de certezas, poderiam fazer muito mais se explicassem o que ainda não sabemosE neste momento, enquanto ainda estamos tentando saber o número de pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 e coletar outros dados para um modelo nulo consistente, ainda não estamos capacitados a distinguir os sinais da seleção natural daqueles do ruído de uma deriva genética.

Jeremy Draghi estuda Teoria da Evolução e é professor assistente no Departamento de Ciências Biológicas da Virginia Tech.

C. Brandon Ogbunu estuda evolução e ecologia das doenças infecciosas e é professor assistente do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Brown University

Artigo publicado originalmente em Undark.

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