Ivermectina é o novo bezerro de ouro da pandemia

Artigo
15 jun 2020
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ídolo pagão

Não existe medicamento específico para a COVID-19. A incapacidade de grande parte da população, e de muitos médicos, de aceitar esse fato gera a tentação de adotar qualquer coisa para alimentar a ilusão de que se está “pelo menos tentando”.

Em uma situação que deve fazer brilhar os olhos de qualquer psicólogo social, tão logo derruba-se um falso ídolo, surge outro em seu lugar, que consegue depender ainda mais de pensamento mágico do que o anterior. Semana passada, dia 11 de junho, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que temos agora um novo remédio que parece ser melhor ainda do que a cloroquina: a ivermectina. “Melhor”, no caso, só se for como mito.

O novo bezerro de ouro do presidente é um antiparasitário, muito usado para controle de piolho, pulgas e carrapatos em animais, incluindo seres humanos, e algumas verminoses. Atua no sistema nervoso central de vermes e parasitas, provocando paralisia muscular. A dose recomendada, em geral, não ultrapassa 200 μg/kg, isto é, 200 microgramas por quilograma de peso corporal do paciente, e o medicamento costuma ser usado em dose única.

Nas doses recomendadas, o fármaco não chega no sistema nervoso central de mamíferos, e por isso é muito bem tolerado. Para algumas raças de cães, no entanto, por causa de uma mutação genética, a droga é extremamente neurotóxica.

A fama do remédio de piolho nesta pandemia teve início com um estudo feito por pesquisadores da Monash Univeristy, na Austrália, que mostrou atividade viral in vitro, ou seja, em cultura de células. As más notícias já começaram ali mesmo: a quantidade de medicamento necessária para inativar metade ou mais dos vírus presentes, mesmo num tubo de ensaio, era enorme, correspondendo a uma verdadeira overdose.

Foi exatamente essa crítica que um outro grupo de pesquisadores fez, em um artigo que ainda está em fase de preprint. Estes pesquisadores calcularam qual seria a dose necessária para atingir uma concentração, no sangue de uma pessoa, suficiente para haver ação antiviral como a vista na bancada do laboratório australiano. Para chegar ao nível necessário, teríamos que usar 17 vezes a dose máxima permitida para humanos. E essa dose máxima já é 10 vezes a dose usual, recomendada na bula.

Como se trata de um medicamento neurotóxico – isto é, um veneno para os nervos e o cérebro –, não parece uma boa ideia.

Os autores da crítica também chamam a atenção da mídia pela falta de cuidado ao divulgar estudos in vitro durante uma pandemia. Assim como a cloroquina, a ivermectina já foi testada para outras viroses, e falhou. Chegou a ser testada em fase 3 – a fase final dos testes clínicos em humanos – para dengue, e não mostrou nenhum efeito.

Se pensarmos em plausibilidade prévia (isto é, que razões teríamos para achar que o remédio seria uma boa ideia contra COVID-19, antes de fazer qualquer teste), a ivermectina é pior ainda do que a cloroquina. A cloroquina, ao menos, apresenta um mecanismo antiviral possível, ainda que inútil no caso de células do trato respiratório, como já explicamos aqui.

Já a ivermectina age no sistema nervoso de vermes e artrópodes. Em um estudo, ela parece ter funcionado contra um vírus que ataca porcos, mas que é totalmente diferente dos coronavírus. A única vantagem, no contexto da pandemia atual, parece ser a ausência de efeitos colaterais graves, nas doses indicadas na bula. Na melhor das hipóteses, então, o único efeito direto da onda da ivermectina será uma população livre de vermes e piolhos.

Efeitos indiretos, no entanto, não devem ser subestimados. Esses vão do impacto do gasto inútil do Erário, passando pela falsa sensação de segurança que pode acometer os usuários do remédio, levando ao relaxamento de medidas de contenção da disseminação do vírus, como o isolamento e distanciamento social, e do uso de máscaras.

Como no caso da cloroquina, há a possibilidade de o remédio acabar faltando para quem precisa de verdade. Corremos ainda o risco de, com o uso amplo e indiscriminado, selecionar piolhos resistentes ao medicamento. Se isso ocorrer, os messias da ivermectina serão lembrados, e não com muito carinho, por todos os pais e mães do Brasil no próximo verão.

Além dos dois estudos já comentados, o em tubo de ensaio e a crítica, foi publicado, também como preprint, um artigo que sugeria forte eficácia da ivermectina como antiviral, em teste clínico – isto é, em seres humanos. Curiosamente, o artigo, que usava dados da empresa Surgisphere, atualmente sob investigação após o escândalo de suspeita de fraude no caso da Lancet, foi também retratado (isto é, declarado inválido).  

O estrago, porém, já estava feito. Segundo reportagem de The Guardian, o preprint foi lido mais de 15 mil vezes, e os governos do Peru e da Bolívia anunciaram que iriam adotar o remédio como tratamento. Parecia ser a nova cloroquina da América Latina.

A FDA, agência regulatória dos EUA, já colocou um aviso em seu site, contraindicando o uso da ivermectina para COVID-19. Aqui no Brasil, segundo a revista Piauí, vários estados do Nordeste estão distribuindo o medicamento como parte do “Kit COVID”. A composição do kit varia, podendo ou não conter hidroxicloroquina, antitérmicos, vitamina D e zinco.

Tirando o antitérmico, o restante não tem comprovação científica de eficácia para COVID-19, e mesmo o antitérmico só serve para controlar sintomas. A produção do fármaco, em abril deste ano, foi da ordem de 2 milhões de caixas, três vezes mais do que na mesma época do ano passado.

Por que se distribuem tais kits? Este ano tem eleição para prefeito e vereadores - ao menos, o pleito ainda não foi desmarcado. Então, na velha fórmula pão e circo, alguns candidatos – talvez porque os circos estão fechados na quarentena – resolveram acrescentar “demagogia médica”.

Seguimos, portanto, o modo do pensamento mágico que nos levou a usar a cloroquina, mesmo depois de diversos trabalhos bem conduzidos terem demonstrado claramente a ineficácia da droga para o tratamento de COVID-19.

Para ivermectina, a história se repete. Enquanto esperamos o resultado dos 23 testes clínicos registrados no site Clinical Trials para testar um medicamento sem plausibilidade prévia, que nunca funcionou como antiviral para outras doenças, e que tem apenas resultados in vitro em concentrações altíssimas, onde até leite condensado teria efeito antiviral, vamos usando, porque, afinal, “mal não faz”. No máximo, expulsa alguns parasitas. Não, infelizmente, os de terno e gravata.

Natalia Pasternak é pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, presidente do Instituto Questão de Ciência e coautora do livro "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto)

 

Correção (3/7/2020): A versão original deste artigo afirmava que a dose máxima permitida de ivermectina em seres humanos é "100 vezes a dose usual". A proporção correta é 10 vezes, como consta agora do texto.

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