Fugindo da pandemia de carona com os ETs

Artigo
23 jun 2020
Autor
discovoador

 

“Oh! Oh! Seu moço!
Do Disco Voador
Me leve com você
Pra onde você for
Oh! Oh! Seu moço!
Mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que tem
Tanta estrela por aí”
S.O.S. - Raul Seixas

 

Recentemente, um artigo científico sobre a possibilidade da existência de dezenas de outras civilizações espalhadas pela Via Láctea chamou a atenção da mídia generalista (veja exemplos no Brasil e no exterior aqui, aqui e aqui). Publicado no prestigioso periódico “The Astrophysical Journal”, o estudo de Tom Westby e Christopher J. Conselice, da Universidade de Nottingham, Reino Unido, faz uma releitura da notória Equação de Drake, tentativa pioneira do astrônomo americano Frank Drake (1930-) de estimular o debate em torno da emergência de vida extraterrestre inteligente e capaz de se comunicar, via sinais de rádio detectáveis por radiotelescópios, em nossa galáxia.

Pelos novos cálculos da dupla de pesquisadores britânicos, a Via Láctea deve abrigar, hoje, ao menos 36 civilizações extraterrestres, mas elas estariam tão distantes – uma média de cerca de 17 mil anos-luz uma da outra – que sua detecção é praticamente impossível com a tecnologia atual. Já na hipótese mais otimista este número poderia passar de 900, com a mais próxima ainda a inalcançáveis 3,32 mil anos-luz de distância, com estas civilizações devendo existir e emitir sinais detectáveis em média por pouco mais de mil anos.

A natureza eminentemente especulativa do novo estudo, no entanto, não impediu que a notícia de seus resultados ganhasse as manchetes com ares de certeza, logo seguidas de comentários de leitores do tipo: “me tira daqui!”, “socorro!”. Natural. Em meio à pandemia de COVID-19, que continua a avançar e fazer vítimas pelo planeta, a imaginária fuga de carona num “disco voador” - tal qual a cantada por Raul Seixas (1945-1989) em faixa de seu disco “Gitá”, de 1974, trecho da qual abre este texto - representa um alívio diante de um noticiário trágico de milhares de novos doentes e mortes todos os dias.

Assim, não é de hoje que os ETs servem de veículo para o escapismo de uma realidade desagradável. Na época do lançamento de “S.O.S.”, o Brasil enfrentava um dos momentos mais duros e brutais da ditadura militar que governava o país desde 1964, com o próprio Raul Seixas e seu então parceiro Paulo Coelho tendo sido presos, torturados e enviados para o exílio nos EUA. Mesmo o fenômeno moderno dos discos voadores que serviu de base ao “apelo” de Raul era então relativamente recente, reação ao temor de um holocausto nuclear advindo da Guerra Fria que contrapôs EUA e União Soviética a partir do fim da Segunda Guerra Mundial.

Portanto, também não é coincidência que os relatos de avistamentos de óvnis tenham explodido neste período, especialmente nos EUA, alimentados ainda pelo desenvolvimento e testes secretos de novas aeronaves e máquinas de guerra por ambos lados do conflito. Enquanto isso, a indústria cultural, ainda em especial a americana, não tardou em explorar o fenômeno, com filmes ora apresentando os ETs como invasores malignos - numa alusão à suposta e insidiosa subversão comunista da sociedade, como no clássico “Vampiros de Almas” (1956), depois refilmado em 1978 e 1993 e lançados no Brasil sob o título “Invasores de Corpos” -, ora como benevolentes conselheiros e guias da Humanidade – como no outro clássico “O Dia Em Que a Terra Parou” (1951), também refilmado em 2008 e lançado com o mesmo título naquele ano, no Brasil.

Premissas generosas

Mas se o escapismo estimulado pela notícia da possível existência de dezenas de civilizações extraterrestres na Via Láctea é natural, o mesmo não pode ser dito dos cálculos de Westby e Conselice. Na sua reinterpretação da Equação de Drake, a dupla adotou premissas e pressupostos tão generosos que era quase impossível chegar ao um resultado nulo, isto é, que indicasse que somos a única civilização da galáxia capaz de enviar sinais de comunicação ao espaço. Mas aí, também, o artigo talvez nem tivesse sido publicado, e muito menos atraído a atenção da mídia em geral.

Adotando o que chamaram de “Princípio Copernicano Astrobiológico”, extrapolação do Princípio Copernicano – segundo o qual a Terra não é o centro do Universo, nem ocupa um lugar especial nele –, os pesquisadores aplicam na sua versão da Equação de Drake termos do derivado Princípio da Mediocridade, que estipulam que também não há nada de incomum na formação do Sistema Solar e de nosso planeta, no surgimento da vida nele e, tampouco, sua crescente complexidade e evolução de inteligência.

Assim, segundo o “Princípio Copernicano Astrobiológico” usado por Westby e Conselice, não só todo planeta que tiver as mínimas condições para o desenvolvimento de vida como conhecemos irá vê-la surgir; esta vida também, inevitavelmente, vai evoluir para formas complexas e inteligentes, dado um devido tempo.

No caso do artigo da dupla britânica, este tempo foi a base para separarem seu “Princípio Copernicano Astrobiológico” em duas categorias: fraco e forte. No “fraco”, todo planeta na zona habitável de sua estrela veria a vida surgir e evoluir para formas inteligentes e capazes de se comunicar num prazo de 5 bilhões de anos, enquanto no “forte”, tal desenvolvimento se daria num período restrito de 4,5 bilhões a 5,5 bilhões de anos.

O problema é que a adoção do Princípio da Mediocridade de modo tão amplo para a confecção do “Princípio Copernicano Astrobiológico” tem base apenas filosófica, sem qualquer evidência científica. Do ponto de vista estatístico, temos um único exemplo de planeta onde a vida se desenvolveu, a própria Terra, amostragem muito pequena para qualquer tipo de conclusão válida neste sentido.

De certo que alguns cientistas, como o físico americano Jeremy England e seu grupo no MIT, estejam buscando demonstrar que sob certas condições o surgimento da vida é uma inevitável consequência dos princípios da termodinâmica, em que a entropia de um sistema tende sempre a aumentar até que o equilíbrio completo seja alcançado, o mesmo não pode ser presumido com relação à complexidade, muito menos a inteligência.


Ainda tomando como exemplo o único caso disponível, a Terra, observamos que o surgimento dos primeiros organismos vivos, há cerca de 4 bilhões de anos, não foi seguido por uma clara evolução rumo a crescente complexidade. Muito pelo contrário. Durante cerca de 2 bilhões de anos eles permaneceram confortavelmente em sua forma mais simples, como procariotos – organismos unicelulares sem núcleo organizado ou estruturas internas limitadas por membranas.

E assim poderiam continuar indefinidamente, não fosse o que estudiosos, como o bioquímico britânico Nick Lane em seu livro “Questão Vital: Por Que a Vida é Assim?”, denominam como um “bizarro acidente”. Em meio às relações ecológicas bilhões de anos atrás, um procarioto provavelmente absorveu de forma predatória ou simbiótica outro, semente do que viriam a ser as primeiras células eucariotas (em que núcleo e demais organelas são bem definidos no interior do citoplasma). Ocorrência tão única que não foram encontradas evidências de que se repetiu em nenhum outro momento dos cerca de 2,5 bilhões de anos seguintes de existência da vida na Terra, mas que abriu caminho para a evolução de complexos organismos multicelulares.

Mas mesmo esta complexidade não deve levar necessariamente ao desenvolvimento de vida inteligente. Não há qualquer sinal de que haja uma pressão evolutiva natural em favor da inteligência, e novamente o único exemplo disponível, a Terra, pode servir para mostrar isso. Desde a explosão da diversidade da vida complexa em nosso planeta a partir do período Cambriano, cerca de 500 milhões de anos atrás, isto aconteceu apenas uma vez, e só nos últimos 300 mil a 200 mil anos, com a emergência de nossa espécie, o Homo sapiens. Mesmo supondo que outras linhagens dos gênero Homo tivessem inteligência e o potencial para criar civilizações, o fato é que acabaram extintas. 

Durante todo o resto deste tempo, e após cinco extinções em massa, a vida não demonstrou qualquer preferência pela inteligência. Os trilobitas e náutilos cambrianos não construíram uma Atlântida nos mais de 50 milhões de anos que dominaram os oceanos, nem os dinossauros ergueram cidades ou arranha-céus nos quase 200 milhões de anos que povoaram terra, céu e mar, encerrando seu “reinado” tão broncos quanto começaram.

Fora isso, a única outra grande restrição aplicada por Westby e Conselice na sua equação para estimar o número de civilizações na galáxia é referente à metalicidade das estrelas, isto é, a proporção elementos mais “pesados” que hidrogênio, hélio e lítio - coletivamente denominados como “metais” na astronomia – na sua composição.

 

Metal pesado


Tendo em vista que alguns estes elementos - carbono, oxigênio, nitrogênio, fósforo e enxofre – formam a estrutura básica de toda vida como conhecemos e outros – ferro, níquel e silício – a matéria-prima dos planetas rochosos onde ela pode surgir, é preciso que haja um mínimo deles nos respectivos sistemas estelares para que isso aconteça. Desta forma, Westby e Conselice admitem que apenas estrelas com metalicidade de ao menos um décimo (0,1) de nosso Sol tenham planetas potencialmente habitáveis.

Mais uma vez, a dupla escolhe relevar outros parâmetros que poderiam em muito influenciar o resultado final que apresentaram. Assim, embora admitam que se fossem limitar sua conta às estrelas mais similares ao Sol em tamanho e tipo espectral – anãs amarelas tipo G – provavelmente ficaríamos como a única civilização na Via Láctea atualmente, as 36 que estimam existir hoje habitariam as órbitas de anãs vermelhas do tipo M.

Estrelas mais comuns em nossa galáxia, algo como 80% do total na Via Láctea, elas são pequenas, com até cerca de 60% da massa do Sol e, por isso, particularmente longevas, devendo brilhar por trilhões de anos, contra uma “expectativa de vida” de aproximadamente 12 bilhões de anos de nossa estrela. Mas se todo esse tempo favorece mesmo a eventualmente muito lenta evolução de vida inteligente, a habitabilidade de seu entorno ainda é objeto de acirrados debates.

Isto porque, por serem muito pequenas, elas também são relativamente “frias”. Isso faz com que sua zona habitável seja muito próxima à sua superfície, com os planetas nela percorrendo órbitas muito mais “apertadas” que Mercúrio. Além disso, muitas das anãs vermelhas conhecidas apresentam comportamento bastante instável, sujeitas a erupções e flashes de radiação que frequentemente “esterilizariam” planetas com órbitas tão próximas.

Por tudo isso, é difícil acreditar que a conclusão de Westby e Conselice que a Via Láctea tem hoje ao menos 36 civilizações esteja próxima de alguma realidade. Tanto quanto acreditar que o lendário ladrão Robin Hood que supostamente roubava os ricos para dar aos pobres nas florestas da região de sua Universidade de Nottingham tenha sido uma pessoa real.

 

Cesar Baima é jornalista e editor-assistente da Revista Questão de Ciência

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