Estudos indicam baixo potencial de transmissão da COVID-19 em crianças

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4 jul 2020
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Dois estudos divulgados nos últimos dias, ambos pequenos, abordam o risco de infecção e transmissão da COVID-19 em crianças, inclusive no ambiente escolar. A discussão da volta às aulas ganhou destaque nos países que já controlaram a pandemia e inclusive naqueles, como Brasil e Estados Unidos, onde a doença continua crescendo de forma alarmante, especialmente por causa da reabertura precoce de atividades econômicas.

Um desses estudos foi publicado na Lancet Child & Adolescent Health e envolveu 585 casos de COVID-19, comprovados por RT-PCR, em crianças e adolescentes com idades entre 3 dias e 18 anos (média de 5 anos de idade), atendidas em 77 hospitais de 21 países europeus: Áustria, Bélgica, Bulgária, Croácia, Dinamarca, Estônia, Alemanha, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Lituânia, Noruega, Portugal, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Suécia, Suíça, Turquia e Reino Unido.  

Desse total, 437 (75%) crianças e adolescentes não tinham doença pré-existente, enquanto 145 (25%) tinham, sendo as mais comuns: doença pulmonar crônica (29 indivíduos), neoplasias (27), problemas neurológicos (26), doenças cardíacas congênitas (25), anomalias cromossômicas (10, 8 das quais com síndrome de Down) e doença renal crônica (9). Além disso, 17 eram portadoras de mais de uma condição pré-existente. Do total de crianças e jovens, 363 (62%) foram hospitalizadas e 48 (8%) precisaram de UTI.

O estudo aponta também que a principal fonte de infecção das crianças foram os pais em 324 (56%) dos casos, irmãos em 24 (4%), enquanto nos 234 restantes (40%), a fonte da infecção foi de pessoas fora do círculo familiar imediato, ou desconhecidos.

De acordo com o principal autor da pesquisa, Marc Tebruegge, do UCL Great Ormond Street Institute of Child Health, de Londres, este é o estudo mais abrangente já realizado sobre a COVID-19 entre crianças e adolescentes. “A taxa de mortalidade em nossa amostra foi bem baixa e deve ser substancialmente menor, porque muitas crianças com sintomas leves sequer foram levadas a centros médicos e, portanto, não foram incluídas nesta pesquisa”. Ele destaca, porém, que um número significativo de crianças desenvolve quadros graves, e que as autoridades de saúde devem estar atentas para isso.

 

Na França

A outra pesquisa vem do Institut Pasteur e avalia o potencial de crianças disseminarem o SARS-CoV-2 no ambiente escolar. A base do estudo foi a cidade de Crépy-en-Valois, de 15 mil habitantes, ao norte de Paris, onde os dois primeiros casos de COVID-19 foram identificados em dois professores em 20 de fevereiro, quando o vírus ainda não era testado e, aparentemente, não circulava na cidade. Nos dias 5 e 6 de março, porém, testes de RT-PCR, realizados em professores e alunos do ensino médio, mostraram que 11 de 66 (16,7%) dos adultos e 2 de 24 alunos (8,3%) positivaram para a COVID-19.

Os pesquisadores do Pasteur, liderados por Arnaud Fontanet, resolveram estudar a transmissão do SARS-CoV-2 entre professores, funcionários, familiares e alunos do ensino básico, de 6 aos 11 anos, já que não se conhece a extensão da transmissão nessa faixa etária. O período escolhido foi de fevereiro a março, antes do fechamento das escolas na França, quando nas seis escolas de Crépy-en-Valois apenas três crianças haviam contraído a COVID-19, em três escolas diferentes, sem que nenhum outro caso tivesse sido registrado nos 14 dias seguintes.

O universo da pesquisa envolveu 510 alunos, 42 professores, 641 pais e mães, 119 outros parentes que viviam na mesma casa que as crianças e 28 funcionários. O método utilizado foi o teste de anticorpos. A equipe de pesquisadores verificou a taxa de ataque (porcentagem da população de risco que contrai a doença, dada pelo número de novos casos sobre a população total de risco) nesse universo, que foi de 45/510 (8,8%) entre os alunos; 3/42 (7,1%) entre os professores; 1/28 (3,6%) entre funcionários das escolas; 76/641 (11,9%) entre os pais e 14/119 (11,8%) de outros parentes. A pesquisa detectou anticorpos para o SARS-CoV-2 em 61% (36/59) dos pais de crianças infectadas e em 44,4% (4/9) de parentes que viviam na mesma casa.

Na escola de ensino médio da mesma cidade, porém, 38% dos alunos, 43% dos professores e 54% dos funcionários apresentaram anticorpos para o novo coronavírus e transmitiam COVID-19.

 

Cuidado na reabertura

Os autores reconhecem que o estudo tem limitações, principalmente o fato de a coleta de dados ter sido feita retrospectivamente e o curto período sob estudo, mas recorrem a trabalhos semelhantes para afirmar que a transmissão da COVID-19 nas escolas de ensino básico é bastante limitada e que, mesmo assim, a reabertura desses centros de ensino precisa ser cuidadosamente avaliada, com monitoramento contínuo e medidas preventivas, recomendação ainda mais rigorosa quando se trata de crianças mais velhas e adolescentes.

De acordo com os pesquisadores, porém, não há transmissão de COVID-19 entre crianças e nem dessas para seus professores e familiares. Ou seja, a COVID-19 não vai da escola para casa, mas as crianças contraem a doença em casa e a levam para as escolas. A questão da volta às aulas preocupa autoridades e pais em todos os países que passaram ou estão passando pela pandemia e, para alguns, esse debate deveria ser a prioridade e não a retomada das atividades econômicas, a reabertura dos salões de beleza e a volta do futebol.  

Na semana passada, a American Academy of Pediatrics (AAP) divulgou uma série de recomendações e critérios para a volta às aulas, destacando a necessidade da presença física dos alunos nas escolas. “A importância da presença no processo de aprendizado é bem documentada, e já há evidências dos impactos da suspensão das aulas este ano. A longa ausência da escola e a interrupção dos serviços associados geralmente resultam em isolamento social, dificultando que a escola identifique problemas de aprendizagem, bem como abusos físicos e sexuais de crianças e adolescentes, uso de drogas, depressão e ideação suicida. Isso coloca crianças e adolescentes em risco considerável de morbidade, em alguns casos, de mortalidade”, afirma o documento.

Além do impacto educacional e social, a AAP lembra da questão da segurança alimentar – nos Estados Unidos, como no Brasil, muitas crianças dependem das refeições oferecidas nas escolas – e da atividade física.

O documento também destaca as evidências de que o papel das crianças e adolescentes na transmissão do SARS-CoV-2 é diferente do observado em outras infecções respiratórias, como a gripe, onde constituem grupo de risco e são importantes agentes transmissores. “Embora existam ainda muitas questões a serem respondidas, as evidências disponíveis mostram que crianças e adolescentes têm menos probabilidade de apresentar sintomas e quadros graves da COVID-19. Além disso, crianças podem ter menos chances de ser infectadas e de disseminar a infecção. Políticas para mitigar a transmissão dentro das escolas precisam ser equilibradas com os prejuízos de se mantê-las em casa para as crianças, adolescentes, famílias e comunidade”, lembra a AAP.


 

Brasil

Essa situação das crianças, que costumam ser alvos preferenciais dos vírus respiratórios, mas não do SARS-CoV-2, ficou patente já nos primeiros tempos da pandemia, na China, na Europa e nos Estados Unidos, por causa da clara desproporcionalidade dos casos, de acordo com o pediatra especialista em infecções pediátricas Renato Kfouri. Desde então, circulam várias hipóteses sobre as crianças e a COVID-19, entre elas a de uma imunidade inata, de que como elas são expostas aos “coroninhas” (HCoV-OC43, HCoV-HKU1, HCoV-229E e HCoV-NL63, causadores de resfriados) teriam desenvolvido uma certa resistência e, a mais provável, a de que crianças têm poucos receptores ACE2 (enzima conversora da angiotensina 2), que é onde o vírus se encaixa para infectar a célula, nos pulmões.

“Isso explicaria porque as crianças têm apresentação mais variada da COVID-19, com problemas intestinais, renais e miocardite, por exemplo. Mas, por enquanto, são apenas hipóteses”, explica o especialista.

A questão da volta às aulas, segundo Kfouri é fundamental. “Não há como manter um isolamento permanente, as pessoas se cansam, ficam deprimidas, as crianças precisam do convívio com amigos e colegas e retomar o aprendizado”, diz o especialista. “O problema é que fizemos um isolamento meia boca e a flexibilização está sendo adota sabendo-se que o número de casos vai aumentar e que há leitos disponíveis para o atendimento”.

São Paulo pretende retomar as aulas dia 8 de setembro, mas não se sabe ainda como o processo vai se dar, se as crianças terão aulas dia sim, dia não, se haverá aulas para metade da turma semana sim, semana não, se as escolas estarão preparadas para acolher crianças que podem ter perdido os pais ou parentes próximos e nem se os professores estão preparados para lidar com esse tipo de situação.

“Os alunos podem adotar todas as medidas de precaução, usar máscara, lavar as mãos, manter distância dos colegas, mas vai faltar o principal, testagem e rastreamento das pessoas com quem tiveram contato, para que esses infectados fiquem em quarentena”, alerta. E testagem em massa e rastreamento, por aqui, só em sonhos.

 

Ruth Helena Bellinghini é jornalista, especializada em ciências e saúde e editora-assistente da Revista Questão de Ciência. Foi bolsista do Marine Biological Lab (Mass., EUA) na área de Embriologia e Knight Fellow (2002-2003) do Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde seguiu programas nas áreas de Genética,  Bioquímica e Câncer, entre outros

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