Quando o alvo da vacina é a Bolsa de Valores

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10 jul 2020
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Seu Zé das Couves, comerciante popular na progressista e imaginária Veneza da Serra, está pensando seriamente em se candidatar a prefeito da cidade de 1,5 milhão de habitantes. Passa a mão no telefone, liga aleatoriamente para 45 pessoas e pergunta se votariam nele. Cerca de 60% respondem que poderiam, sim, votar nele. Sua equipe de marketing despacha um comunicado para imprensa e, no dia seguinte, jornais e sites anunciam: “Candidatura de Zé das Couves é promissora e tem 60% de aprovação”. Os partidos locais logo se movimentam para conversar com o empresário.

Absurdo? Indústrias farmacêuticas, de pequeno, médio, grande e gigantesco porte, fazem isso com frequência impressionante, especialmente nestes tempos de pandemia: resultados “promissores” em uma dúzia de pessoas viram manchete e se traduzem em valorização das ações dessas empresas nas Bolsas de Valores mundo afora.

Dia 2 de julho foi a vez da Pfizer, também na corrida por uma vacina contra a COVID-19. “Teste de vacina de COVID-19 funciona e Pfizer pode produzir 1 bilhão de doses”, anunciaram os sites, e muita gente feliz e animada levou a notícia para suas redes sociais. Vamos aos fatos. A Pfizer, em parceria com a BioNTech, testou a vacina em 45 pessoas, em diferentes doses, e elas produziram anticorpos.

É um resultado inicial, e envolve uma tecnologia inovadora de manipulação de RNA que encanta especialistas. A empresa teve o mérito de publicar o trabalho no medRxiv (https://www.medrxiv.org/), que é um servidor que reúne preprints, isto é, estudos que não passaram por peer review (revisão dos pares) e ainda não foram aprovados para publicação em revistas científicas especializadas. Ali, a nova tecnologia pode ser estudada por quem entende do assunto. Outros "prometedores" de vacinas nem isso fazem.

Menos louvável foi o circo de imprensa armado em torno de um resultado extremamente preliminar. Logo na página de abertura, o medRxiv alerta em vermelho: “Atenção: preprints são relatórios preliminares que ainda não foram certificados por peer review. Eles não servem como recomendação para a prática clínica ou comportamento na área de saúde e não devem ser reportados pelo noticiário como informação comprovada” (grifo meu).

Verdade seja dita, as notícias publicadas sobre vacina da Pfizer informam, no corpo texto, “que ainda são necessários novos testes”, mas quem lê o texto inteiro nas redes sociais? A maioria dos leitores para no título e na primeira linha logo abaixo. O importante, porém, está na última linha: as ações da Pfizer subiram 4% na Bolsa de Valores de Nova York. É para isso que essas notícias servem.

 

Pode piorar

O caso da americana Moderna, uma das primeiras empresas a anunciar testes “com vacina promissora contra a COVID-19”, é ainda pior. A empresa tem um histórico memorável de não entregar o que promete. Fundada em 2010, ela atraiu investidores de peso por dispor de tecnologia capaz de modificar RNA mensageiro (RNAm) e usá-lo para "desdiferenciar" células: transformar células comuns em células-tronco e, depois, convertê-las em qualquer tipo de célula que se deseje. Três anos depois, a Moderna se associou à gigante AstraZeneca para desenvolver tratamentos à base de RNAm para doenças cardiovasculares e renais, e selecionar alvos para tratamentos de câncer, pela bagatela de US$ 240 milhões. De lá para cá, apenas um tratamento passou com sucesso pela primeira fase de testes clínicos, e nada ainda foi aprovado para uso.

No ano seguinte, 2014, outro acordo milionário, desta vez com a Alexion Pharmaceuticals, no valor de US$ 125 milhões, para desenvolvimento de terapias para "doenças órfãs" – doenças extremamente raras, com mercado muito reduzido e que não atraem investimentos para pesquisa e novos medicamentos. Dois anos depois, a empresa anunciou que ia iniciar testes clínicos, mas, em 2016, testes em animais mostraram que a estratégia terapêutica não era segura para uso em seres humanos.

Depois disso, a Moderna mudou seu foco para a pesquisa de vacinas com RNAm, a mesma técnica usada na promissora vacina contra a COVID-19, e que sempre estimula a produção de algum nível de anticorpos. Sempre.

Em fevereiro de 2016, foi a vez de a Nature Biotechnology criticar a empresa que, ao contrário de outras, nunca publicava pesquisas em revistas especializadas. Em setembro do mesmo ano, a Thrillist foi na mesma linha, comparando a empresa à Theranos, sob investigação do FBI por ter anunciado uma nova tecnologia para exames de sangue que era uma farsa. A publicação questionava o sigilo que cercava as pesquisas da Moderna e a falta de peer review e validação científica de suas pesquisas, embora, na época, valesse US$ 5 bilhões. Um cientista que trabalhou para a empresa declarou ao site Stat que a Moderna é, na verdade, um grupo de investimentos que torce para um dia desenvolver uma droga de sucesso.

No início de março, o presidente Donald Trump – que como seu paralelo brasileiro é negacionista da ciência, já disse que a pandemia sumiria como num milagre, já foi defensor da clorocoisa e sugeriu que se testasse injeção de desinfetante para ver se elimina o vírus no organismo – reuniu representantes da indústria farmacêutica para saber quando haveria uma vacina para os americanos. Uns seis meses para iniciar os testes, um ano disse outro, mas o que chamou a atenção de Trump foi a Moderna, que anunciou já ter enviado sua vacina para o grupo do infectologista Anthony Fauci avaliar e garantiu que teria a vacina pronta para distribuição até o final do ano. Fauci retrucou, afirmando que a vacina estaria pronta apenas para testes, mas Trump ignorou, como costuma fazer com o que lhe desagrada. No dia seguinte, 3 de março, o FDA deu sinal verde para testes em 45 voluntários. No dia 16 de abril, a agência federal Biomedical Advanced Research and Development Authority (Barda) destinou a bagatela de US$ 483 milhões para a Moderna acelerar o desenvolvimento da vacina.

Agora em 2020, no dia 17 de maio, a Moderna anunciou que tinha resultados “promissores e expressivos” de sua vacina, em míseros oito voluntários, e suas ações na Bolsa de Valores registraram uma valorização de 25% num único dia. Executivos da empresa fizeram a festa do caqui no mercado financeiro. De lá para cá, executivos da empresa movimentaram cerca de US$ 200 milhões no mercado de ações, de acordo com The Washington Post. É provável que, mais recentemente, tenham vendido na alta, antes que a notícia de que os testes clínicos em 30 mil voluntários, que deveriam ter tido início em 9 de julho, foram adiados sem apresentar novas datas, explicar que mudanças a empresa estaria fazendo nos protocolos ou se houve algum problema de segurança.

A mídia convencional e os sites de notícias brasileiros embarcaram alegremente no anúncio da Moderna. Os fiascos anteriores da companhia são fatos de domínio público, bem como seu histórico de jamais ter criado nenhum produto, além de expectativas e especulação financeira. Mas nada disso apareceu no noticiário brasileiro: nenhuma ressalva, nenhum pé atrás. 

 

Algo típico

Essas histórias podem ser mais comuns em tempos de pandemia, mas aparecem com frequência no noticiário dos antigos tempos de normalidade. Construção de expectativas irreais a respeito de medicamentos “promissores”, principalmente para câncer e Alzheimer, é algo comum na indústria. Pequenas empresas de biotech israelenses são pródigas em anúncios bombásticos de tecnologias inovadoras para “cura do câncer” muito mal explicadas, sem publicação em revistas especializadas e que, sistematicamente, prometem remissão sem efeitos colaterais para todas as centenas de tipos de câncer. Não se trata de manipular ações na Bolsa, que elas não têm, mas caçar investidores.

Tenho diversos casos desses arquivados, que uso em palestras para jovens jornalistas interessados na cobertura de saúde. As drogas “promissoras” para Alzheimer geralmente foram testadas em camundongos, o que pode ser realmente um início promissor, mas que na esmagadora maioria das pesquisas fica nisso mesmo, na promessa e na esperança passageira em uma cura.

Há hoje, mundo afora, cerca de 140 vacinas contra COVID-19 em diferentes estágios de desenvolvimento, num esforço nunca visto nessa área. Mas é preciso ter em mente – e isso vale para qualquer área da saúde – que resultados obtidos em poucas dezenas de pessoas representam quase nada. Ainda que uma vacina como a da Pfizer alcance a fase 3 dos testes clínicos, tenha se mostrado capaz de produzir anticorpos e ser segura, só a testagem em milhares de pessoas e seu acompanhamento por um longo período podem mostrar se é realmente eficiente, se é eficaz para todas as pessoas (crianças, idosos, portadores de diabetes, cardíacos) ou não, por quanto tempo garante imunidade, qual o grau dessa proteção. Até lá, vacine-se contra promessas boas demais – ou rápidas demais – para ser verdade.

Ruth Helena Bellinghini é jornalista, especializada em ciências e saúde e editora-assistente da Revista Questão de Ciência. Foi bolsista do Marine Biological Lab (Mass., EUA) na área de Embriologia e Knight Fellow (2002-2003) do Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde seguiu programas nas áreas de Genética,  Bioquímica e Câncer, entre outros

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