"Ativismo tecnológico" é risco constante na medicina

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27 jul 2020
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A evolução tecnológica aplicada à medicina e às demais ciências biológicas levou a humanidade a um patamar inédito de longevidade e de qualidade de vida, com ganhos para a população que não eram nem sonhados décadas atrás.

No entanto, não cabe a aplicação da “tecnologia pela tecnologia”, pois a segurança da população deve ser a regra de ouro para a incorporação de uma nova tecnologia em saúde.

A história da medicina demonstra que algumas tecnologias, depois de incorporadas, mostraram riscos à saúde, que levaram à desincorporação – retirada do mercado.

Como exemplo, a talidomida foi utilizada desde 1957 e somente no final da década de 60 seu uso foi suspenso, quando, segundo números oficiais, cerca de 10 mil pessoas em todo o mundo já haviam nascido com más-formações causadas pelo fármaco. Acredita-se, ainda, que muitas gestações foram interrompidas pela substância.

Um caso mais atual foi a suspensão da comercialização dos anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) inibidores seletivos da enzima COX-2 (conhecidos como coxibes), que no início dos anos 2000 eram de prescrição generalizada mas que, pelo risco de ocorrência de efeitos tromboembólicos e de toxicidade hepática, foram retirados do mercado mundial a partir de 2004.

É importante ressaltar que Agências Regulatórias, em diversas partes do mundo, tinham aprovado a utilização destes medicamentos, ou seja, mesmo a análise criteriosa de agências renomadas não impede que, durante o acompanhamento de uso, verifiquem-se riscos para a saúde da população que levem à suspensão de produtos do mercado.

Os critérios básicos das Agências Regulatórias para a incorporação de novos medicamentos são a eficácia e a segurança, de modo que para um medicamento ser aprovado para uma determinada indicação clínica, tem que haver evidências científicas robustas que comprovem estes dois critérios.

O que dizer então de medicamentos que mostram evidências de não eficácia e/ou da existência de riscos graves para os pacientes? Estes medicamentos simplesmente não devem ser prescritos.

Nesta categoria se enquadram, atualmente, todas as medicações testadas para o tratamento específico da infecção pelo COVID-19: cloroquina, hidroxicloroquina, o antibiótico azitromicina e os antiparasitários nitazoxanida e ivermectina, suplementos vitamínicos e outros.

Os profissionais de saúde que defendem a prescrição destes medicamentos, como não podem argumentar pelas evidências científicas, rebaixam os seus argumentos recorrendo à gravidade e urgência da situação pandêmica, que justificaria estas prescrições anticientíficas, pois “é melhor fazer alguma coisa, do que não fazer nada”.

Isto não passa de uma grande falácia, e por uma série de motivos.

Primeiro motivo: os protocolos de atendimento definem os tratamentos ambulatoriais, hospitalares em enfermaria e em UTI, inclusive medicamentosos, de modo que se faz tudo que a ciência médica tem a oferecer para os pacientes.

A medicina intensiva vem se desenvolvendo continuamente, sendo notório que os pacientes de COVID-19 que entram em quadros graves de insuficiência respiratória, podendo ser acompanhado de outros quadros clínicos de gravidade, quando atendidos em UTI se recuperam na maior parte dos casos. Portanto não é correto se afirmar que “não se faz nada”, pois na realidade “se faz muito”.

Segundo motivo: porque um dos princípios básicos da medicina, conforme a bioética, é o primum non nocere, ou seja, "primeiro, não prejudicar", também conhecido como princípio da não-maleficência, que na prática pode ser expresso assim: “é melhor não fazer nada que não tenha evidências clínicas robustas, pois isto coloca a saúde e a vida dos pacientes em risco”.

Este argumento é facilmente demonstrável, pois há uma infinidade de outros “tratamentos empíricos” (eufemismo para anticientíficos) e defender qualquer um deles é o mesmo que defender estes medicamentos.

Circula nas redes sociais, evidentemente em tom humorístico, um simulacro de trabalho científico sobre a efetividade do alho no tratamento do COVID-19. À luz da Medicina Baseada em Evidências, pode se considerar que o alho, apesar de não ter efetividade alguma, pelo menos não causa risco de arritmias cardíacas e, pelo hálito que causa, colabora com o isolamento social!

Brincadeiras à parte, os riscos para a saúde da população são muito sérios.

Por que será que médicos se afastam tanto do conhecimento científico e aderem acriticamente a “tratamentos” sem comprovação científica?

Existe hoje, na sociedade, um desejo pelo “novo”, a ponto de haver uma crença que, na medicina, a aplicação da nova tecnologia, do tratamento novo, do exame novo, da vacina nova, do novo procedimento, sempre fará bem ao paciente. Simples assim, porém falso.

Para caracterizar esta postura médica eu propus denominá-la de “ativismo médico tecnológico”, um tipo de crença que aproxima a medicina da Idade das Trevas e desconsidera toda a história secular da evolução do conhecimento científico.

É atribuída ao jornalista americano H.L. Mencken (1880-1956) a frase que diz que “para todo problema complexo, há sempre uma solução clara, simples e errada”. No caso do ativismo médico tecnológico, esta frase resume brilhantemente as “soluções” anticientíficas propostas por alguns. Estão simplesmente erradas e expõem a população a riscos de saúde e de vida inaceitáveis.

É algo incrível e profundamente lamentável que, entrando na terceira década do século 21, ainda temos que combater crenças e crendices que deixaram de ser aceitas na era do Iluminismo, iniciada no século 17.

Eduardo Blay Leiderman é médico e gestor de saúde

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