IgNobel premia a fina flor do negacionismo pandêmico

Artigo
19 set 2020
domo

Na noite a última quinta-feira, 17, o IgNobel, que há 30 anos premia pesquisas improváveis, absurdas e/ou ridículas, criou a categoria Educação Médica para laurear uma lista de ilustres governantes negacionistas, “por ensinar ao mundo que políticos podem ter um efeito mais imediato sobre a vida e a morte do que cientistas e médicos”. Não é a primeira vez que políticos ganham o IgNobel, conta Marc Abrahams, editor da revista Annals of Improbable Research e criador e mestre de cerimônias do prêmio. Em 1998, os primeiros-ministros da Índia, Shri Atal Bihari Vajpayee, e Nawaz Sharif, do Paquistão, receberam o IgNobel da Paz “por suas agressivamente pacíficas explosões de bombas atômicas”. “Mas com certeza o grupo deste ano é o maior reunido sobre o mesmo tema”, diz. “E eu não me surpreenderia se alguns membros desse grupo ficassem honrados com a alta distinção”, ironiza.

Jair Messias Bolsonaro encabeça a lista, seguido pelo primeiro-ministro britânico Boris Johnson, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi, o presidente mexicano André Manuel López Obrador, o ditador bielorusso Alexander Lukashenko, o presidente americano Donald Trump, o autocrata turco Recep Tayyip Erdogan, o presidente Vladimir Putin da Rússia e Gurbanguly Berdimuhamedow, ditador do Turcomenistão  desde dezembro de 2006.

Em comum, esses governantes de diferentes cantos do mundo e várias graus de legitimidade democrática têm o fato de que ignoraram a ciência e adotaram políticas desastrosas para suas populações no enfrentamento da pandemia de COVID-19. Estados Unidos, Índia, Brasil e Rússia lideram todas as estatísticas. Somados, esses quatro países reúnem 17.654.000 dos 30 milhões de casos da doença oficialmente reportados no mundo e mais de 440 mil dos 951 mil mortos registrados até agora.

Jair “E daí?” Bolsonaro fez e falou praticamente tudo que um presidente não deveria falar e fazer numa pandemia: referiu-se a ela como “gripezinha”, deu mau exemplo passeando sem máscara e tomando parte em aglomerações, combateu as medidas de isolamento físico adotadas por governadores, desorganizou o Ministério da Saúde e abraçou uma quimera, a hidroxicloroquina, como solução para a crise. Do amigo indiano Narenda Modi comprou toneladas de matéria-prima para produzir o remédio, e do grande amor Donald Trump recebeu de presente milhões de comprimidos. O resultado é que o Brasil tem hoje cloroquina suficiente para atender casos de malária por 38 anos, não fosse, é claro, a questão do prazo de validade.

Seu grande amigo do Norte, Donald Trump, mentiroso contumaz – segundo o jornal The Washington Post, o presidente americano já pronunciou mais de 20 mil delas em seu mandato – e negacionista de carteirinha, posou de vítima dos maldosos chineses, com quem trava uma guerra comercial e a quem acusou de não revelar a gravidade da situação. Mas os serviços de inteligência e espionagem dos Estados Unidos já haviam alertado Trump, em janeiro, para a ameaça.  

Assim que assumiu, Trump dedicou-se a apagar qualquer marca da administração anterior, de Barack Obama, entre elas toda a estrutura para detecção e enfrentamento de novas pandemias. Os 800 especialistas foram demitidos e os EUA, como se viu, estavam completamente despreparados. Trump limitou-se a fechar os EUA para entrada de chineses, mas gente de toda parte continuou viajando e levando vírus na bagagem. Os médicos foram os primeiros a perceber problemas, doentes com uma pneumonia estranha e exigiam testes, desconfiando de COVID. Foi quando um dos orgulhos da nação falhou grotescamente: os testes de detecção produzidos pelo CDC não funcionaram, pura e simplesmente porque haviam sido contaminados. Quando Nova York impôs lockdown, Trump não poupou críticas ao governador e ao prefeito, ambos democratas: a cidade que nunca dorme teve de enterrar seus mortos em valas comuns.

Como Bolsonaro, Trump embarcou por algum tempo na onda da cloroquina, depois na do plasma, chegando a sugerir ainda a ingestão de desinfetante. Durante meses, minimizou deliberadamente a pandemia. Ultimamente, insiste em que terá uma vacina até o mês que vem e que vai vacinar todo país em pouco tempo, algo que os especialistas consideram inviável. Em plena campanha eleitoral, Trump dispara para todos os lados, vê inimigos e ameaças em toda parte e promete de tudo.

 

Rebanho e yoga

O britânico Boris Johnson embarcou na onda da imunidade de rebanho. Resolveu que a melhor estratégia para lidar com a COVID-19 era manter os idosos em casa e vida normal para o resto da população, com bares abertos, trabalho normal, escolas funcionando. Assim todo mundo pegava o vírus, teria sintomas leves – exceção feita a algumas mortes – e depois de algum tempo a população estaria naturalmente imunizada. Então, um estudo do Imperial College calculou quantos britânicos morreriam nessa experiência: algumas centenas de milhares. Johnson voltou atrás. Impôs um lockdown e, no meio da crise, foi parar numa UTI com COVID-19. Surpreendentemente, depois da alta, esse nacionalista e xenófobo gravou um depoimento emocionado, agradecendo os enfermeiros, ambos imigrantes, que o atenderam na doença. O país reabriu, talvez cedo demais, e está às voltas com novo aumento de casos. Bares e restaurantes devem fechar de novo.

O indiano Narendra Modi pareceu começar bem, impondo um lockdown no país de mais de 1,4 bilhão de habitantes. O problema é que, sem trabalho, a população aglomerou-se em trens e ônibus para voltar às cidades e vilas de origem, carregando o vírus consigo e, pouco tempo depois, com a reabertura, retornou às grandes cidades.

Entre as pérolas de Modi, está a recomendação de que a prática de yoga constrói “um escudo protetor de imunidade”. O país registrou na última semana, em 24 horas, mais de 96 mil casos novos. Quem está de olho na Índia é Vladimir Putin, que se manteve recolhido durante a maior parte da pandemia. Fechou fronteiras, fechou escolas, mas há vários relatos de que profissionais de saúde não receberam equipamentos de proteção adequados, e foram vigiados para que não se queixassem.

Há três meses, farmacêuticas e centros de pesquisa da Europa e EUA registraram um ataque de hackers russos. Putin, como sempre, negou qualquer envolvimento no episódio, mas poucas semanas depois foi à TV anunciar que o Instituto Gamaleya tinha uma vacina contra a COVID, com tecnologia muito semelhante à de Oxford. Putin chegou a afirmar que até sua filha tinha sido vacinada para atestar segurança e eficácia. Mas faltavam estudos, e o que foi recentemente publicado vem sendo criticado. O czar, porém, segue em frente, diz que vai vacinar os militares, já ofereceu a vacina para os indianos, para o Paraná e Bahia, que vão testá-la.

 

México e Turquia

Outro que está louco para testar a vacina russa é o presidente mexicano André Manuel López Obrador, que disse querer ser o primeirão. Obrador, porém, faz parte do time dos que deixaram o vírus correr solto por um bom tempo, dizendo aos mexicanos que a melhor prevenção é “emagrecer, evitar junk food e buscar a espiritualidade”. O populista mexicano também detesta máscara e diz que só vai recomendar seu uso quando a corrupção acabar em seu país.

De cara, o autocrata turco Recep Tayyip Erdogan culpou os chineses pela COVID-19, mas em seguida apontou o dedo acusador para a comunidade LGBT. A Turquia, que tem no turismo uma de suas principais fontes de receita, enfrenta uma grave crise econômica, além do coronavírus, e Erdogan não faz por menos: centenas de pessoas foram presas por criticar a forma como seu governo está atuando na crise de saúde. Como outros governantes da lista, Erdogan está mais preocupado em boicotar e perseguir governadores e prefeitos que estão tentando atender às populações locais do que em fazer alguma coisa. Ele conseguiu impedir a distribuição de alimentos e máscaras promovidos pela oposição. Sua popularidade vem despencado, enquanto aumenta o medo dos turcos em relação ao futuro.

Fechando a lista de laureados, Alexander Lukashenko, líder de Belarus, acusado de fraudes eleitorais e acuado por protestos diários. Sua recomendação para prevenção da COVID-19 é simples: muita sauna e muita vodca. Gurbanguly Berdimuhamedow, do Turcomenistão, encontrou uma forma prática de se livrar do coronavírus e da COVID-19: trocou as palavras por pneumonia e infecção respiratória em documentos e informativos oficiais. Além disso, recomendou a queima de uma erva medicinal chamada harmala. E faz de conta que o problema foi resolvido.

Trinta anos atrás, quando IgNobel foi criado, era um constrangimento ser premiado. Mas isso foi mudando com o tempo. “Acredite, as universidades e institutos de pesquisa vivem indicando trabalhos de seus alunos e pesquisadores para o prêmio. E algumas chegam a fazer lobby para eles”, conta Abrahams. Se a moda pega, vai ter diplomata indicando presidente e primeiro-ministro para as futuras edições do IgNobel.

Ruth Helena Bellinghini é jornalista, especializada em ciências e saúde e editora-assistente da Revista Questão de Ciência. Foi bolsista do Marine Biological Lab (Mass., EUA) na área de Embriologia e Knight Fellow (2002-2003) do Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde seguiu programas nas áreas de Genética, Bioquímica e Câncer, entre outros

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