Chimpanzés, humanos e a semelhança no DNA

Artigo
14 jul 2025
chimpanzé

 

Nas últimas semanas, o Discovery Institute, uma organização conhecida por promover o design inteligente e por atacar a Teoria da Evolução, tem divulgado intensamente a ideia de que humanos e chimpanzés seriam geneticamente muito mais diferentes do que a ciência tradicional afirma. Essa campanha, que não é nova, intensificou-se após a publicação de um artigo científico em abril de 2025 na revista Nature, que mediu a divergência genômica entre essas espécies com base em um critério chamado gap divergence. Esse critério, diferente das comparações tradicionais de similaridade base por base, mostrou uma diferença de aproximadamente 14,9%. A partir disso, figuras como o criacionista Casey Luskin passaram a alardear que a famosa semelhança de 99% entre humanos e chimpanzés teria "caído por terra"; foram dezenas de posts nas últimas semanas. No entanto, essa alegação se baseia em uma deturpação grosseira dos dados e em má-fé intelectual evidente.

A métrica tradicional de similaridade entre genomas — aquela que leva à cifra de 95%–99% — é baseada em comparações diretas de sequências alinháveis, ou seja, regiões do genoma que podem ser comparadas posição por posição. Quando essa comparação inclui apenas genes codificadores de proteínas, a semelhança é ainda maior. Por outro lado, o gap divergence mede não apenas essas regiões alinháveis, mas também inclui as regiões que não podem ser alinhadas facilmente, geralmente devido a inserções, deleções ou repetições genômicas grandes. Como explica o biólogo evolutivo Richard Buggs, nesse novo artigo os autores utilizaram duas métricas principais para avaliar a divergência entre os genomas:

1. Divergência por nucleotídeo único (single nucleotide variant divergence): corresponde a diferenças ponto a ponto entre as bases (A, T, C, G) quando o genoma do chimpanzé é alinhado ao genoma humano. Por exemplo, se em uma determinada posição o humano tem um "A" e o chimpanzé tem um "T", isso conta como uma divergência. Essa métrica revelou uma diferença de apenas 1,6%.

2. Gap divergence (divergência por lacuna): esta métrica mede o porcentual de bases no genoma humano que NÃO TEM NENHUMA BASE CORRESPONDENTE no genoma do chimpanzé no alinhamento. Ou seja, são trechos inteiros que não podem ser alinhados por causa de grandes inserções, deleções ou regiões repetitivas. O valor encontrado foi de 13,3%.

Esses dois tipos de divergência foram calculados em blocos de 1 milhão de bases ao longo do genoma humano e, em seguida, foi calculada uma média para se obter uma estimativa de abrangência genômica total.

Ao somar essas duas métricas, temos um total de 14,9% de divergência entre os genomas humano e chimpanzé. Isso significa que aproximadamente 85,1% do genoma humano tem correspondência direta com o genoma do chimpanzé, ou seja, bases que alinham perfeitamente (um para um) entre as duas espécies.

É importante destacar que esses números não contradizem os dados anteriores que indicavam similaridade próxima a 99%, porque medem coisas diferentes. As estimativas mais altas de similaridade consideram apenas as regiões alinháveis do genoma, comparando ponto a ponto os trechos que podem ser colocados lado a lado. Já a gap divergence leva em conta as regiões que nem sequer podem ser alinhadas, e por isso produz uma estimativa mais baixa de similaridade global.

Portanto, os dados do artigo confirmam que, mesmo com montagens genômicas mais completas, a semelhança entre humanos e chimpanzés continua muito alta — mais de 85% do genoma humano tem equivalentes diretos no genoma do chimpanzé. A divergência observada é compatível com o tempo de separação evolutiva entre as espécies (cerca de 6 milhões a 7 milhões de anos) e não representa nenhuma surpresa ou desafio à Teoria da Evolução. Não que você duvide, mas me deixe explicar por quê com um exemplo que vem bastante a calhar.

Como esse artigo de 2004 demonstra, cerca de 35%-40% do genoma de ratos e camundongos pode ser alinhado ao genoma humano. Cerca de 48% do genoma dos ratos é alinhável ao genoma dos camundongos apenas. Ao incluir a porção do genoma que é compartilhada pelas três espécies, chega-se à conclusão de que mais de 80% do genoma dos ratos é alinhável ao genoma dos camundongos. Como fica explícito na figura 3 do artigo, 15% do genoma dos ratos não pode ser alinhado ao genoma dos camundongos. Veja, esse é um número extremamente similar à porção não alinhável entre humanos e chimpanzés. Se podemos concordar que ratos e camundongos têm um ancestral comum, qual a motivação para negar a ancestralidade comum entre humanos e chimpanzés?

 

Como contar uma mentira

O que o Discovery Institute tem feito, liderado por Casey Luskin, é confundir (intencionalmente) as diferentes formas que existem de contar similaridades. Eles apresentam os dados de gap divergence como se fossem uma nova medição do mesmo parâmetro anterior, o que é falso. A tática serve a dois propósitos: primeiro, criar a falsa impressão de que a biologia evolutiva está em crise, pois “errou feio” na estimativa da similaridade entre humanos e chimpanzés; segundo, sugerir que os cientistas estariam escondendo a “nova” descoberta, reforçando a narrativa conspiratória de que a ciência opera com desonestidade quando trata da evolução humana.

Existe um flagrante importante, trazido em vídeo pelo canal Creation Myths. Como é mostrado no vídeo, Luskin manipulou figuras do artigo original. Em sua publicação no blog Evolution News and Views (mantido pelo Discovery Institute), Luskin apresentou apenas uma parte da tabela de dados do artigo, omitindo as comparações dentro das próprias espécies de primatas (UPDATE: ele agora disponibilizou a figura completa e anexou um mea-culpa). E o que esses dados omitidos mostram? Que a divergência por gap divergence dentro de uma mesma espécie pode ser surpreendentemente alta: 3,5% entre humanos, mais de 8% entre chimpanzés, e aproximadamente 13,8% entre gorilas. Ou seja, se usamos a mesma métrica entre indivíduos da mesma espécie, já vemos variações de magnitude semelhante àquela observada entre humanos e chimpanzés. Isso desmonta o argumento de que 14% de divergência implica ausência de ancestral comum. Afinal, ninguém sugeriria que gorilas de populações diferentes não compartilham um ancestral comum.

Algo importante de se dizer é que esse alinhamento na casa dos 80% não é necessariamente novo. O já mencionado biólogo Richard Buggs havia deixado claro que, se usarmos um método de contagem que inclui inserções, deleções, etc., então evidentemente a similaridade não vai ser de 99%. Citando o próprio Buggs:

“Em 2008, em alguns artigos de jornal, fiz alguns cálculos simples com base no artigo de 2005 sobre o genoma do chimpanzé. Com base neles, cheguei à surpreendente conclusão de que esses dados sugeriam que os genomas humano e do chimpanzé, em sua totalidade, poderiam ser apenas 70% idênticos”.

Em 2018 Buggs revisou esses números e conclui que “a porcentagem de nucleotídeos no genoma humano que tiveram correspondências exatas de um para um no genoma do chimpanzé foi de 82,34%”. Sobre sua estimativa de 70%, ele esclareceu:

“Esta previsão não é corroborada pelos dados mais recentes acima. Cometi um erro nos meus cálculos de 2008 na forma como lidei com as CNVs [Variação no Número de Cópias], o que me colocou 2,7% à frente, mas este foi apenas um pequeno componente do motivo pelo qual minha estimativa foi tão baixa. A principal razão para minha estimativa ter sido tão baixa foi porque pensava que a montagem do genoma do chimpanzé de 2005 era muito mais completa do que realmente era”.

Portanto, o alarde criacionista recente é um exemplo claro de distorção deliberada da parte do Discovery Institute. A conclusão é simples: os dados apresentados em 2025 não representam uma ameaça à Teoria da Evolução. Confirmam o que já sabíamos: humanos e chimpanzés compartilham a imensa maioria do seu material genético e têm ancestral comum. A métrica usada pode variar, mas a conclusão permanece a mesma — aliás, recomendo que os criacionistas busquem artigos que estimam as relações de parentesco entre primatas nos últimos 20 anos com base em dados genômicos; haverá surpresa quando descobrirem que, consistentemente, chimpanzés aparecem nas análises como os parentes viventes mais próximos dos humanos. E, se há algo que merece destaque aqui, não é a suposta novidade científica, mas sim a forma sistemática com que certos grupos tentam enganar o público para promover uma agenda anticientífica.

 

Uma reclamação final

Já ouvi diversas vezes a afirmação de que nosso DNA é 99% igual ao dos chimpanzés. E geralmente isso não vinha acompanhado de uma explicação sobre o método de contagem. Então, nós cientistas temos alguma parcela de culpa nisso. Criamos esse “mito” dos 99%, e agora temos de lidar com ele. Se você gostaria de saber mais, recomendo muitíssimo o vídeo no canal Gutsick Gibbon, no qual a Erika explica direitinho as diferentes formas de contar a similaridade e, assim, desmonta a narrativa criacionista.

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente Doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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