
O Departamento de Energia (DOE) do governo dos Estados Unidos lançou, no fim de julho, um relatório sobre mudanças climáticas que reafirma diversos mitos negacionistas – como o de que flutuações na radiação solar podem explicar parte significativa do aquecimento global, ou de que não há elevação do nível dos oceanos para além das médias históricas.
O trabalho, assinado por cinco pesquisadores escolhidos a dedo pelo atual secretário de Energia americano, Chris Wright (e descritos, em nota publicada pela revista Science, como “desconectados da corrente principal” da ciência climática), tenta desacreditar diversos pontos do mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas.
A Science descreve a publicação do DOE como parte de uma campanha para reverter a decisão da Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos, tomada em 2009, de que o CO2 emitido pela queima de combustíveis fósseis representa risco para a saúde humana e deve ser regulado por normas ambientais.
Na rede social Bluesky, o cientista climático Michael Mann, autor do famoso gráfico do “taco de hóquei” que mostra a evolução da temperatura global no último milênio, registrando um aumento súbito e pronunciado a partir do século 20, ironizou que “até o ChatGPT” foi capaz de produzir uma refutação satisfatória do relatório do DOE. A IA conclui que o trabalho é “tendenciosamente otimista” e “faz pouco caso” dos riscos reais da mudança climática.
Outro pesquisador da área, Brian Sanderson, do Centro Internacional de Pesquisa Climática, baseado na Noruega, avaliou assim o relatório: “Todos os capítulos seguem o mesmo padrão. Estabelece-se uma posição contrária [ao consenso científico], escolhem-se evidências a dedo para apoiar essa posição e, em seguida, afirma-se que essa posição está sub-representada na literatura climática, e no IPCC em particular. Inclui-se um monte de referências, a maioria das quais não apoia o argumento central”.
Uma das referências citadas é um artigo publicado em 2019 no periódico Geophysical Research Letters, e que tem como primeiro autor Zeke Hausfather, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Ouvido pelo diário britânico The Guardian, Hausfather disse que seus resultados foram distorcidos na publicação do DOE.
O relatório do governo americano diz que o artigo na Geophysical Research Letters demonstra que os modelos climáticos "superestimaram consistentemente as observações" da concentração de CO2 na atmosfera. Mas a pesquisa de Hausfather, na verdade, mostra que os modelos climáticos têm funcionado bem.
"Eles parecem ter descartado todo o artigo por não se encaixar em sua narrativa e, em vez disso, escolheram uma única figura que estava nos materiais suplementares para lançar dúvidas sobre os modelos, quando todo o artigo realmente confirma como eles são bons", disse ele ao Guardian. O cientista acrescentou: "Este é um tema geral do relatório; eles escolhem dados que se adequam à sua narrativa e excluem a maior parte da literatura científica que não se presta a isso".
Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto)
