
O médico britânico Ebenezer Sibly (1751-1799) é um tipo de fóssil de transição na história das ideias. Sua obra-prima, A Key to Physic and the Occult Sciences, publicada em 1792, estava bastante atualizada não apenas com os fatos científicos da época (ele descreve a circulação sanguínea e até menciona o gás oxigênio, então recém-descoberto), mas também com a especulação científica de ponta, explicando, por exemplo, as forças magnéticas em termos de átomos e a troca de partículas microscópicas entre ferro e ímã.
Falando em coisas microscópicas, o livro é ricamente ilustrado com páginas coloridas que incluem imagens cuidadosamente desenhadas e detalhadas de micróbios e espermatozoides (você pode ver parte das ilustrações na imagem acima). Outras páginas, no entanto, mostram um mapa cabalístico do Reino dos Céus e horóscopos. Para ele, a gravidade e o magnetismo são manifestações da anima mundi, uma alma universal, emanando de Deus, que está por trás dos fenômenos da astrologia e da magia, entre várias outras coisas.
Para Sibly, a existência do sistema circulatório prova que, como os mágicos herméticos da Antiguidade ensinaram, o corpo humano é um microcosmo, um Universo em miniatura: o coração é o Sol em miniatura, e a bexiga, o oceano, onde os rios do microcosmo vão desaguar. O Dr. Sibly estava em dia com a ciência, mas para ele a ciência mais avançada de seu tempo apenas confirmava, reafirmava — e, até certo ponto, iluminava e explicava — o que astrólogos, alquimistas e magos vinham dizendo.
No final do século 18, o misticismo de Sibly já era anacrônico. O obituário de Isaac Newton, apresentado à Real Academia Francesa de Ciências em 1727 — quase três décadas antes do nascimento de Sibly — omitiu piedosamente seu interesse juvenil em astrologia, que àquela altura já havia se tornado um tema embaraçoso para “homens de ciência”. Mais tarde, a primeira edição da Enciclopédia Britânica, de 1771, deu menos de uma página para “astrologia”, mas 67 páginas para “astronomia”.
Mas, do outro lado do abismo cada vez maior que se abria entre ciência e superstição, a estratégia de Sibly prosperou. Ao mesmo tempo em que a ciência lavava as mãos das especulações sobre ocultismo, ocultistas, magos, esotéricos, astrólogos e irracionalistas declarados começaram a reivindicar apoio científico para suas excentricidades. Até mesmo Joseph de Maistre (1753-1821), o grande irracionalista místico e reacionário, para quem o ceticismo e o racionalismo eram ácidos universais que dissolveriam a civilização e reduziriam os homens ao canibalismo e à selvageria, tinha certeza de que um dia toda a ciência seria transformada e chegaria à conclusão de que “as antigas tradições são todas verdadeiras”.
A partir de então, o tropo “a ciência me apoia/concorda comigo/está começando a concordar comigo/um dia provará que sempre estive certo” foi calorosamente abraçado por todos os grandes defensores do ocultismo ou esoterismo. Às vezes, num tom passivo-agressivo: Helena Blavatsky (1831-1891), criadora da doutrina esotérica mais bem-sucedida e influente da Era Moderna, a Teosofia, dizia que a ciência estava apenas dando seus primeiros passos em áreas que seus Mestres Secretos já haviam percorrido e mapeado. No entanto, ela não hesitava em apropriar-se de ideias e conceitos científicos, como fez com a hipótese (já descartada) de um continente afundado no Oceano Índico, a Lemúria, que Blavatsky adotou como o berço da evolução humana.
Um pouco depois da apropriação indébita da geologia e da Teoria da Evolução por Blavatsky, Aleister Crowley (1875-1947), “A Grande Besta 666”, escolheu o lema “O Método da Ciência, O Objetivo da Religião” para um de seus projetos. Corrida rápida para a segunda metade do século 20, e encontramos gente como Gary Zukav, Amit Goswami, Deepak Chopra e Fritjof Capra jurando que a física quântica redescobriu verdades já estabelecidas há muito tempo por iogues ascéticos e monges tibetanos — verdades que supostamente incluem o poder do pensamento positivo e podem até apoiar a validade da astrologia.
Zukav escreveu que os programas de pós-graduação em Física algum dia teriam que incluir aulas de meditação. Chopra afirma que, através dos efeitos quânticos, o pensamento positivo pode alterar o DNA. Goswami inventou, entre outras coisas, a “astrologia quântica”.
O historiador Olav Hammer se refere a esse processo como "desembarque", que significa a remoção de fatos, conceitos, hipóteses e jargão das ciências de seus contextos adequados e, o que é pior, do ethos científico apropriado de avaliação crítica, ceticismo organizado e testagem empírica. As analogias elaboradas em trabalhos de popularização da ciência também são “desembarcadas” e tratadas não como metáforas ou aproximações, mas como declarações de fato.
Os produtos montados a partir desses desembarques são chamados, por estudiosos que pesquisam os movimentos esotéricos e da Nova Era, de cientificismo. Claro, a mesma palavra também tem o significado, em outros contextos, de confiança excessiva/indevida/exagerada no poder das ciências naturais para descrever e explicar tudo o que há no mundo de forma completa e suficiente. A alta prevalência do cientificismo (no sentido adotado pelos estudos sobre a Nova Era) torna difícil distinguir adequadamente entre as formas modernas de misticismo e mera pseudociência.
A razão para tudo isso, como não deve ser difícil imaginar, é o grande capital cultural da ciência, acumulado a partir de Galileu. Porque a ciência funciona, seu nome comanda respeito. Como o dramaturgo e ganhador do Prêmio Nobel George Bernard Shaw (1856-1950) uma vez brincou, se você quisesse que as pessoas, no século 20, acreditassem em coisas que agridem profundamente o senso comum, a maneira mais fácil seria chamá-las de “científicas”. O mesmo vale agora no século 21, mesmo que “tradicional” e “originário” estejam ganhando espaço.
Em um mundo melhor, as pessoas seriam céticas o suficiente, e teriam acesso a educação adequada, para ver a vacuidade (ou a fraude) por trás dos abusos do rótulo de “ciência”. Infelizmente, ainda não chegamos lá.
Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto). Uma versão anterior deste artigo foi publicada em https://carlosorsi.substack.com
