
Desde sempre nos perguntamos o que em nós nasce pronto e o que é moldado pela vida em sociedade. Essa tensão entre natureza e cultura parece filosófica demais, mas às vezes se revela em algo tão banal quanto duas linhas desenhadas no papel.
Essa velha pergunta pode ganhar corpo de forma inesperada numa simples figura. Veja as duas linhas diante de você.

Uma parece claramente maior do que a outra. Mas ambas têm exatamente o mesmo comprimento. É a famosa ilusão de Müller-Lyer. Ilusões de ótica são interessantes por si mesmas porque parecem mágica, mas essa é interessante por um motivo a mais: faz um século que a ilusão de Müller-Lyer é puxada de um lado para outro num cabo de guerra entre os defensores da tábula rasa, que enxergam a mente como inteiramente moldada pela cultura, e os defensores do inatismo, que sustentam a existência de estruturas cognitivas inscritas pela evolução.
A primeira vez que ouvi esse debate foi no curso de psicologia da UFRJ. Meu professor era um psicanalista que lecionava a disciplina de Behaviorismo. Essa é uma mistura exótica como ir a um restaurante self-service e combinar yakisoba e strogonoff no mesmo prato. Algo errado não estava certo, mas até que se tratava de um bom professor. E estava duplamente interessado em defender uma exagerada maleabilidade da mente humana.
Citava, frequentemente, em tom de vitória, quase como um xeque-mate retórico, as pesquisas com sociedades chamadas de "não-WEIRD" (um acrônimo para Western, Educated, Industrialized, Rich and Democratic - basicamente os países "ocidentais, educados, industrializados, ricos e democráticos"). São, em resumo, povos cujo modo de vida difere radicalmente do nosso. Segundo ele, essas populações eram tão psicologicamente diferentes de nós, ocidentais industrializados e globalizados, que nem suas ilusões de ótica eram as mesmas. A conclusão era desconcertante: se até algo tão básico quanto a percepção sensorial podia ser moldado pela cultura, então praticamente tudo em nós seria culturalmente maleável.
Como psicólogo evolucionista em formação, eu desconfiava dessa leitura. Desde cedo me parecia pouco plausível, à luz da Teoria da Evolução, que os seres humanos estivessem totalmente à mercê da cultura. Cultura é importante, claro, mas sobreposta a algum tipo de arcabouço moldado pela seleção natural. Não fazia sentido imaginar uma mente totalmente plástica, sem raízes biológicas.
Ao longo dos anos fui dando o braço a torcer. A obra do antropólogo Joseph Henrich foi decisiva nisso. Em "The WEIRDest People in the World" ele mostra uma radiografia da mente humana equilibrada, sóbria, pontuando onde a cultura pesa mais e onde a biologia mantém suas raízes firmes. Seus argumentos me convenceram de que a cultura pode sim, em certos casos, até suplantar tendências biológicas inatas. E faz sentido que a evolução tenha moldado os seres humanos para serem flexíveis em alguns aspectos e mais rígidos em outros. Surpreendentemente, a ilusão de Müller-Lyer era um exemplo clássico de suscetibilidade à cultura.
Por mais de um século, pesquisas interculturais sugeriam que povos diferentes, vivendo em ambientes distintos, podiam literalmente ver o mundo de outra maneira — como nos estudos clássicos do psicólogo americano Marshall H. Segall e colegas nos anos 1960, em que populações da África e da Ásia pareciam menos suscetíveis à ilusão do que universitários norte-americanos. Ou como observara já no início do século 20 o antropólogo W. H. R. Rivers, ao comparar ilhéus de Murray e grupos da Índia com ingleses urbanos. Nessas narrativas, a ilusão surgia como peça de evidência, quase um emblema, de que a cultura tinha o poder de redesenhar até a percepção mais elementar.
Para explicar como algumas culturas não viam diferença entre as linhas e outras sim, surgiram teorias marcantes. A mais influente foi a chamada teoria do mundo carpinteiro. Formulada nos anos 1960 por Segall e colegas, ela sustentava que a experiência de viver em ambientes cheios de ângulos retos, quinas e construções retangulares — como casas, portas, janelas e móveis — treinava o sistema visual a interpretar certas formas como sinais de profundidade. Nesse raciocínio, os prolongamentos do desenho de Müller-Lyer seriam confundidos com quinas: para dentro, como os cantos internos de um cômodo; para fora, como as arestas de uma casa. É como se nossa percepção fosse acostumada a enxergar em perspectiva essas duas combinações de linhas e setas, não como linhas chapadas desenhadas no papel. Assim, populações acostumadas a viver em aldeias circulares ou em cabanas de palha veriam menos ou até não veriam a ilusão, ao contrário dos habitantes de cidades ocidentais rodeados por prédios e ruas retilíneas.
Essa hipótese ganhou força porque parecia fazer sentido tanto em termos teóricos quanto empíricos. Se as ilusões derivassem de adaptações cognitivas a ambientes visuais específicos, a percepção não seria universal: dependeria do tipo de arquitetura e de cenário em que cada grupo humano cresceu. O argumento era sedutor, pois oferecia uma explicação cultural elegante. Além disso, dialogava com uma visão mais ampla de que a mente seria uma espécie de tábula rasa pronta para ser moldada pela experiência, o que estava bem na moda na época com a propagação do modelo padrão das ciências sociais.
Mas a história não acaba aí. Numa espécie de inversão do destino, novas pesquisas começam a mostrar que a narrativa correta não é bem essa.
Iludindo cegos
Pesquisas mostraram que pessoas que nasceram cegas e só mais tarde passaram por cirurgias para ganhar visão também experimentam a ilusão de Müller-Lyer. Em estudos na Índia, crianças que viveram cegas por catarata congênita até os oito, dez ou até 16 anos de idade foram operadas, receberam lentes artificiais e, poucas horas depois de enxergar pela primeira vez na vida, já viam as linhas de Müller-Lyer como uma maior do que a outra. É difícil conciliar esse fato com a ideia de que a cultura, ou a exposição a ângulos retos, seria a responsável pela distorção.
Outros trabalhos mostraram que o mesmo acontece no tato. Pessoas cegas de nascença que nunca ganharam visão também se confundem quando passam os dedos por versões táteis da figura de Müller-Lyer. Isso sugere que não é preciso uma educação visual para que a mente caia na armadilha. O fenômeno parece brotar de mecanismos muito mais antigos e universais.
A interpretação mais plausível é que a ilusão nasce de tendências perceptivas inscritas pela evolução, prontas para se manifestar assim que há input sensorial suficiente. É um argumento poderoso contra a visão culturalista.
Peixes iludidos
O segundo indício de que a reviravolta tinha fundamento veio da biologia comparada. Se ilusões como Müller-Lyer ou Ebbinghaus (em que um círculo cercado de outros, menores, parece maior do que o mesmo círculo, quando cercado de outros maiores) fossem realmente produtos de experiências visuais urbanas e ocidentais, esperaríamos que outros animais — sem contato algum com carpintaria ou técnicas de perspectiva renascentista — não as percebessem. Mas o que os pesquisadores encontraram foi o contrário.
Peixes guppy, criados em tanques, também parecem cair na ilusão de Ebbinghaus. Diante de buracos de diferentes tamanhos, eles preferem passar pelos maiores. Só que, quando pesquisadores manipularam a cena para criar uma falsa impressão de tamanho — exatamente como na ilusão de Ebbinghaus —, os guppies escolheram os buracos que pareciam maiores. Não temos acesso à experiência subjetiva desses peixes, mas o comportamento sugere que estão sendo afetados pela mesma ilusão que nós.
Outro exemplo vem das galinhas. Em experimentos simples, pesquisadores apresentaram linhas dispostas na forma da ilusão horizontal-vertical — aquela em que uma linha vertical parece maior do que uma horizontal de mesmo tamanho. Ao bicar grãos posicionados no fim das linhas, as aves mostraram uma preferência sistemática por aqueles que estavam na extremidade da linha vertical — provavelmente porque, ao perceberem essa linha como mais longa, interpretavam que havia mais comida ali, como se o maior comprimento indicasse maior recompensa. Essa escolha consistente indicava terem sido enganadas pelo mesmo truque perceptivo que engana humanos.
Esses casos não são isolados. Pombos, cavalos, macacos-prego e até lagartos já foram testados em diferentes ilusões visuais. Todos, em maior ou menor grau, demonstraram ser enganados pelos mesmos truques que enganam a nós, humanos. Difícil imaginar que galinhas ou guppies tenham padrões de percepção parecidos com os nossos por coincidência.
A natureza contém distorções
Outra frente de evidências veio do trabalho monumental de Dale Purves e colegas. Eles montaram um banco de dados com milhares de imagens de ambientes naturais — florestas, campos, encostas —, cuidadosamente livres de construções humanas. Com a ajuda de scanners a laser e algoritmos estatísticos, analisaram como esses cenários se projetam na retina humana. Eles queriam saber ao que equivale, no mundo real, o tipo de padrão que o sistema perceptivo dos humanos e de outros animais percebe como a ilusão de Müller-Lyer.
O resultado foi surpreendente. Ao cruzar imagem e profundidade real, eles perceberam que linhas com setas para dentro, como na ilusão, estavam associadas a objetos fisicamente maiores. Já setas para fora, a objetos menores. Ou seja, nosso cérebro não está “errando” por capricho: aplicando um atalho de interpretação que, em média, funciona no ambiente natural. As ilusões surgem como efeito colateral de um sistema visual calibrado para apostar no que é estatisticamente mais provável.
Esse raciocínio não ficou restrito à Müller-Lyer. A mesma lógica foi aplicada a uma lista inteira de ilusões, como Ponzo, Hering e Poggendorff. Todas podiam ser recriadas a partir de vieses do ambiente natural. É como se o nosso sistema visual tivesse evoluído ajustado para um mundo estatisticamente enviesado e os enganos fossem, na verdade, o preço desse ajuste. Pode soar paradoxal, mas a lógica final é a de que erramos porque, na maioria das vezes, acertamos. É essa economia de esforço, essa aposta em padrões recorrentes, que explica por que ilusões tão universais surgem sem necessidade de prédios, portas ou janelas.
A lição das ilusões
Juntando todas essas linhas de evidência — animais que veem ilusões, estatísticas do ambiente natural, versões sem ângulos retos e até ilusões táteis — o argumento culturalista perde força. Não porque a cultura não influencie a percepção (ela certamente influencia em muitos níveis), mas porque ilusões como Müller-Lyer ou Ebbinghaus parecem ter raízes mais antigas, compartilhadas e universais do que supunham as explicações “carpinteiras”.
A ironia das ironias é que fenômenos usados como ícones da maleabilidade cultural da mente podem, no fim, ser a prova de algo oposto: de que a mente carrega vieses perceptivos tão profundos que nem guppies ou galinhas escapam (ou de que nem humanos, animais biologicamente culturais, escapam).
É claro, a pesquisa continua. Ainda precisamos entender melhor como diferentes culturas lidam com estímulos visuais, traduzem instruções em experimentos ou direcionam a atenção em tarefas perceptivas. Mas se a aposta era que a ilusão de Müller-Lyer seria a prova definitiva da cultura moldando até a visão bruta, o jogo parece estar virando.
Talvez a lição mais duradoura seja outra: as ilusões não são apenas truques engraçados de manual de psicologia, mas janelas para como a evolução moldou um sistema visual que funciona incrivelmente bem na maior parte do tempo — mas que, diante de certos padrões, erra de maneira sistemática. E esses erros, longe de serem sinais de falhas culturais, são, paradoxalmente, a marca de uma mente afinada pelo próprio mundo natural.
Felipe Novaes é psicólogo e professor da PUC-Rio. Divulga o melhor da psicologia científica no Garagem Psi. Atua no cruzamento entre ciência, filosofia e cultura, onde dados e mitos se estranham com frequência. Interessa-se por psicologia evolucionista, história das ideias e pela tensão entre razão e pertencimento em tempos de algoritmo
