Rosalind Franklin e a estrutura do DNA

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14 nov 2025
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A famosa fotografia 51 da molécula de DNA

 

Gostamos de histórias. Gostamos mais ainda de histórias de superação, quando alguém nada contra a corrente e, mesmo assim, consegue ir longe. Talvez muito longe, de modo a incomodar os que nadavam a favor da correnteza. E se tem algo que incomoda é quando um personagem central numa história, que nadava em águas tempestuosas, é deixado de fora do núcleo central. Odiamos quando herói ou heroína sofrem injustiça. Muitos acreditam que esse foi o caso de Rosalind Franklin na corrida pela descoberta da estrutura do DNA, uma das mais importantes descobertas científicas de todos os tempos. Por ocasião do falecimento de James Watson no dia 4 de novembro, o tema voltou à tona.

Segundo a narrativa padrão, dois grupos trabalhavam no problema. De um lado, mas não exatamente unidos, estavam Maurice Wilkins e Rosalind Franklin. Do outro, James Watson e Francis Crick. Um belo dia, Watson visitou o laboratório onde trabalhavam Wilkins e Franklin. Lá, Wilkins lhe mostrou uma fotografia. Ou melhor, a fotografia; hoje conhecida como Fotografia 51. Tendo visto essa fotografia, Watson agora estava mais bem equipado para, junto com Crick, finalmente desvendar o enigma da estrutura molecular do DNA. Mas a Fotografia 51 era resultado do trabalho de Franklin, que Wilkins não deveria ter compartilhado com Watson, ou com ninguém. Foi graças a esse vazamento (alguns até mesmo chamam de roubo) que a corrida chegou ao fim. E Franklin acabou injustiçada.

Essa narrativa é passada adiante, geralmente com um nobre intuito: mostrar como Rosalind Franklin, apesar de tudo que havia contra ela (e as mulheres em geral), foi capaz de fazer uma gigantesca descoberta. Porém, foi traída e teve seus dados roubados. E jamais recebeu o crédito que merecia.

Sim, Rosalind Franklin merece muito crédito. Mas ela merece o devido crédito, não o crédito de uma narrativa que não corresponde aos eventos. Franklin não foi roubada, e a fotografia 51 sequer foi a peça mais importante para resolver a estrutura do DNA. Perpetuar essa narrativa, por melhores que sejam as intenções, é tratar Franklin como uma incompetente, incapaz de interpretar o próprio trabalho. Algo que, definitivamente, ela não era. Rosalind Franklin foi uma cientista brilhante e uma cientista em pé de igualdade com os demais envolvidos no estudo da estrutura do DNA no começo dos anos 1950.

 

O que se sabia sobre o DNA

Quando começaram os estudos focados em desvendar a estrutura do ácido desoxirribonucleico, ou DNA, algumas poucas coisas eram conhecidas sobre essa molécula. Já se sabia que era uma molécula presente em tudo quanto era tipo de célula, e que era relativamente grande, constituída de açúcar, fosfato e quatro compostos, hoje muito famosos, as bases nitrogenadas: adenina (A), citosina (C), timina (T) e guanina (G).

Em 1944, Oswald Avery e colaboradores demonstraram que, na bactéria Streptococcus pneumoniae, o DNA, não as proteínas, era provavelmente o material genético. O debate sobre o material responsável pela hereditariedade nos organismos em geral, contudo, continuou. 

Em 1950, Erwin Chargaff e colaboradores publicaram um artigo na Nature sobre a composição do DNA, no qual apontavam que o porcentual de adenina é igual ao de timina, e o porcentual de citosina é igual ao de guanina. Mais tarde, isso se provaria muito importante. Essa foi a primeira pista de algo que aprendemos hoje no ensino médio, conhecida como primeira regra de Chargaff: A faz par com T, C faz par com G.

 

A corrida pela estrutura

Nesse contexto, a equipe do King’s College London, financiada pelo Medical Research Council (MRC) e liderada por John Randall, investigava a estrutura do DNA por difração de raios X, uma técnica em que a molécula é “iluminada” com radiação de baixo comprimento de onda, produzindo uma imagem que, idealmente, permite identificar a posição relativa dos átomos que a compõem. Rosalind Franklin entrou para o grupo em 1951. Randall precisava de alguém com experiência em difração por raios X, e encontrou em Franklin a pessoa certa. Maurice e Rosalind não se davam muito bem e, essencialmente, estavam trabalhando cada um à sua maneira, mas não sem um saber o que o outro estava fazendo. Por sinal, Wilkins cedeu a Franklin uma amostra puríssima de DNA, que ele havia obtido com o químico suíço Rudolf Singer, enquanto ele próprio continuou seu trabalho com uma amostra de qualidade inferior, obtida com o já mencionado austríaco Chargaff.

Franklin compreendeu (como Wilkins, antes dela) que o DNA poderia existir em dois estados estruturais, A (forma cristalina) e B (forma paracristalina). Franklin focou seus estudos na forma A, enquanto Wilkins focou na forma B. Franklin priorizou a forma A por fornecer padrões mais nítidos e detalhados, acreditando que esta era a chave para a estrutura verdadeira. Inicialmente, considerou ambas as formas como helicoidais (formato de hélice, ou espiral), mas ao longo de 1952 passou a concluir que a forma A não devia ser assim. Só em fevereiro de 1953 temos evidência de que ela voltou a interpretar a forma A como uma hélice. No final daquele mês, Watson e Crick tinham chegado à estrutura em dupla hélice. 

A forma B, embora reconhecida como helicoidal, parecia a Franklin resultado de um defeito produzido pelas condições de geração da imagem, especificamente, alta umidade, e, portanto, pouco confiável. Sua insistência em análise rigorosa antes de qualquer modelagem e sua escolha metodológica pelo padrão cristalino mais complexo, embora tecnicamente justificadas, acabaram atrasando a interpretação correta, especialmente porque a forma B refletia melhor o estado fisiológico do DNA dentro das células. Afinal, a água é abundante nas células.

 

A Fotografia 51

Essa fotografia (que é a mesma que ilustra este artigo) tornou-se símbolo tanto da contribuição de Rosalind Franklin quanto da ideia de que Watson e Crick se apropriaram indevidamente de seus dados. A imagem ganhou fama principalmente devido à narrativa de Watson em The Double Helix (A Dupla Hélice), que dramatiza o momento em que, no começo de 1953, Wilkins lhe mostrou a fotografia. O leitor fica com a ideia de que a foto foi decisiva. 

No entanto, essa versão simplifica os fatos e subestima Franklin: a foto, isoladamente, não permitia determinar a estrutura do DNA. Diferentes formas geométricas, em teoria, poderiam produzir o mesmo padrão. Dizer que aquela foto contém a revelação da estrutura do DNA é dizer que Franklin era incapaz de compreender seus próprios dados. É uma ofensa disfarçada de elogio.      

Portanto, quando o Instituto de História da Ciência diz que “foi somente quando Wilkins mostrou a Watson uma imagem de difração particularmente nítida, obtida com uma molécula de DNA totalmente hidratada (a chamada ‘forma B’), que Watson e Crick reconheceram a solução para o problema”, está em falta a verdade e, na minha visão, insulta a memória de Franklin. Considere as palavras dela, em artigo em colaboração com Gosling, publicado na Nature em 1953, no mesmo volume que o artigo de Watson e Crick: “embora as evidências de raios X não possam, no momento, ser tomadas como prova direta de que a estrutura é helicoidal, outras considerações discutidas abaixo tornam a existência de uma estrutura helicoidal altamente provável”.

Além disso, era consenso entre os biofísicos no King’s College que pelo menos a forma B do DNA era uma hélice, sem contudo serem capazes de descrever a organização exata dessa hélice.

Cabe ressaltar, também, que a foto foi produzida por Raymond Gosling, estudante de pós-graduação sob tutela de Franklin. Ela deixou a Fotografia 51 de lado para focar no estudo da forma A do DNA. Além disso, Franklin se preparava para se mudar para outra instituição, e havia sido aconselhada a deixar os dados (o que não é surpresa alguma, tendo em vista que haviam sido colhidos sob financiamento do King’s College). A essa altura do campeonato, Gosling estava sob supervisão de Wilkins, para quem ele deu a Fotografia 51. Ponto importante: o próprio Gosling afirmava que fez isso com o conhecimento de Franklin.

Embora a fotografia tenha impressionado Watson, seu impacto foi mais circunstancial do que técnico, pois ocorreu num momento em que Watson e Crick haviam retomado a modelagem da estrutura do DNA, atiçados por um artigo (equivocado) de Linus Pauling, que alegava ter resolvido o problema. Dados mais relevantes vieram pouco depois, quando Max Perutz, supervisor de Crick, compartilhou com eles um relatório interno do MRC contendo medições cruciais feitas por Franklin, mas também Wilkins, que adicionavam novas camadas de informação sobre a estrutura da hélice, como uma simetria específica, implicando que um número par (mas não necessariamente duas) de cadeias de açúcar e fosfato correndo em direções opostas.

Essas informações, embora usadas sem autorização explícita, estavam dentro de um contexto de trocas informais comum na época, e Franklin provavelmente esperava que Perutz as discutisse com outros grupos. Uma evidência disso foi apresentada por Cobb e Comfort em artigo de 2023 na Nature, que forma o núcleo das informações apresentadas aqui. Em seus estudos, eles descobriram uma carta escrita pela pesquisadora do King’s, Pauline Cowan, para Crick em janeiro de 1953, na qual ela o convidava para uma apresentação de Franklin e Gosling. Na carta, Cowan acrescenta que eles “dizem que ela [a apresentação] é voltada principalmente para um público não especializado em cristalografia e que Perutz já sabe mais sobre o assunto do que eles provavelmente conseguirão explicar, então talvez você não ache que valha a pena comparecer”.

Tacitamente, Franklin parece ter presumido que Perutz, na posição de supervisor de Crick, compartilharia seu conhecimento.

Ainda assim, os dados não forneceram a solução pronta: Watson e Crick desenvolveram seu modelo por tentativa e erro e, só após formulá-lo, usaram os resultados de Franklin e Wilkins para validá-lo. Assim, a Fotografia 51 não foi o ponto de virada decisivo, mas o papel central coube à combinação de trabalho experimental rigoroso de Franklin (e Wilkins e Gosling), comunicações informais e modelagem teórica independente. O erro está na narrativa posterior, não no processo histórico real.

 

Reconhecimento

Sim, após terem acesso ao relatório do MRC, Watson e Crick deveriam ter solicitado permissão para usar o material e declarado isso claramente. Quando os três artigos sobre a estrutura do DNA foram publicados na Nature em 1953, Watson e Crick reconheceram apenas de forma vaga a influência dos resultados inéditos de Franklin e Wilkins, alegando não conhecer os detalhes. Por sinal, os três artigos eram: Watson & Crick, Wilkins et al., e Franklin & Gosling     .

Não muito tempo depois, em 1954, em uma publicação mais extensa sobre a estrutura do DNA, Watson e Crick admitiram mais explicitamente que seu modelo teria sido improvável sem os dados de Franklin, reconhecendo que ela e Wilkins já haviam sugerido aspectos essenciais da estrutura helicoidal. Essa admissão, embora tardia e pouco divulgada, mostra que Franklin era, de fato, uma colaboradora intelectual equivalente em um grupo de quatro pesquisadores (cinco, lembrando que Gosling existia; estudantes de pós-graduação tendem a ser apagados da história, substituídos por seus supervisores). Isso também explica por que Franklin e Wilkins nunca contestaram publicamente o processo. Eles sabiam, pela circulação informal de informações e pelo artigo posterior de Watson e Crick, exatamente como a descoberta havia sido construída.

Franklin conhecia bem os seus dados, e sua importância na elucidação da estrutura do DNA não pode ser subestimada. Contudo, não sei se criar uma mitologia em torno de uma fotografia (que nem foi ela que tirou; e que ela deixou de lado por muito tempo) é a melhor forma de homenageá-la e fazer jus ao seu trabalho. Talvez seja mais produtivo contar a história verdadeira: nela, Franklin é gigante intelectual, maestra experimental e tão ou mais brilhante que Watson, Crick e Wilkins. Sua vida foi curta, infelizmente, mas seu legado é eterno.

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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