"TradWife": um movimento misógino baseado em fantasia

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19 nov 2025
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imagem de anúncio publicitário da década de 1950

 

Por volta de 2018, um movimento problemático começou a se tornar visível online. Um movimento que, nos últimos anos — e especialmente durante a pandemia de COVID-19 — incorporou cada vez mais teorias da conspiração, transformando-se de algo que supostamente apoiava as mulheres dedicadas à vida doméstica em um movimento envolto em racismo e ódio contra as mulheres que escolhem um caminho diferente. Refiro-me, é claro, ao movimento TradWife (neologismo em inglês para a expressão "esposa tradicional").

O #TradWives começou nas redes sociais como uma estética de marca, amplamente baseada na década de 1950 nos Estados Unidos. Ou, pelo menos, uma versão romantizada desse período, porque convenientemente ignora que o poder e a autonomia das mulheres havia crescido durante a Segunda Guerra Mundial, antes de elas serem forçadas a sair da força de trabalho pelos soldados que retornavam do conflito, e voltarem a cuidar da casa. O efeito dessa perda repentina de poder levaria à prescrição excessiva de Valium e Librium para silenciar as mulheres que não queriam aceitar a perda de autonomia.

Gradualmente, essa imitação da estética se transformou em um movimento que se autodenominava, aberta e orgulhosamente, antifeminista e promovia uma divisão supostamente tradicional dos papéis de gênero como forma de autorrealização — mais uma vez, convenientemente ignorando que é somente graças ao feminismo que as mulheres têm a liberdade de decidir seus papéis.

O movimento TradWife incentiva as mulheres a se afastarem dessas liberdades conquistadas com muito esforço, como o direito ao trabalho, o direito ao aborto e, em casos extremos, até mesmo rejeitando o direito das mulheres ao voto. Em vez disso, o movimento se alinha estreitamente a uma visão fundamentalista do cristianismo, ensinando que a mulher deve seguir a vontade do marido de forma obediente e completa.

O objetivo do movimento TradWife é reverter muitas das conquistas do feminismo e, ao fazer isso, elas jamais temem se mostrar abertamente hipócritas. Por um lado, acreditam que as mulheres devem ser vistas, não ouvidas; por outro, procuram abertamente recrutar outras pessoas para suas fileiras, por meio de palestras públicas e mídias sociais, mesmo enquanto condenam as feministas por fazer o mesmo.

As influenciadoras TradWife se retratam como mulheres que estão apenas tentando ser aquelas esposas perfeitas e tradicionais dos “tempos mais simples” da década de 1950 nos Estados Unidos, mas, ao mesmo tempo, construíram plataformas enormes — Lana Lokteff, uma voz proeminente do TradWife online, tinha mais de 300.000 inscritos no YouTube antes de seu canal ser banido em 2019. Fazem declarações públicas com regularidade, administram negócios baseados em marcas e até mesmo integram esquemas de pirâmide e marketing multinível que encontraram um mercado ávido entre as donas de casa americanas de mentalidade republicana.

Ao incorporar essas contradições inerentes — essencialmente, ter seu bolo caseiro esteticamente agradável e comê-lo também — as TradWives continuam a tradição dos papéis das mulheres dentro dos movimentos da supremacia branca.

"TradWives" e supremacia branca

Não é apenas a estética doméstica que as TradWives tiram da década de 1950 – frequentemente, sua visão supremacista branca também sai diretamente desse passado.

Mais especificamente, quando se trata das TradWives, as visões sobre raça são discutidas como parte do renascimento da Teoria da Grande Substituição, uma noção cunhada pela primeira vez pelo autor francês Renaud Camus. De acordo com essa ideia desacreditada, a raça branca está em perigo mortal, com a ameaça vindo das pessoas de cor, que são deliberadamente trazidas para um país (na maioria das versões da teoria, por uma conspiração global secreta de judeus) a fim de se reproduzir mais e, no fim, substituir a população branca “nativa”. Uma das defesas contra esse ataque imaginário, de acordo com os supremacistas brancos, é que os brancos cumpram seu dever de ter o maior número possível de filhos para tornar a raça branca mais difícil de ser substituída. É claro que existem outras soluções propostas, muito menos pacíficas.

Além da expectativa de que se tornem máquinas de fazer bebês para garantir o futuro da raça branca, as TradWives são centrais para a retórica da Grande Substituição, na medida em que os úteros das mulheres brancas devem pertencer à comunidade masculina branca e, portanto, as mulheres devem temer os homens negros e os imigrantes, que podem tirar essa propriedade legítima dos homens brancos.

Apesar da visibilidade das TradWives e de seu apelo online, não há, como resultado, um lugar ativo para as mulheres nos movimentos que giram em torno da supremacia branca. Tomemos, por exemplo, Elizabeth Tyler, que trouxe 85.000 membros para a Ku Klux Klan. Sua recompensa? Seus colegas homens a expulsaram da KKK porque a consideravam muito ativa.

Nada disso é para criticar as mulheres que optam por ser donas de casa, mas apenas para destacar que as TradWives não têm o estilo de vida idílico que seus vídeos no YouTube e montagens no TikTok querem fazer crer, e que a vida das TradWives está longe de ser fácil, mesmo dentro de suas próprias comunidades. Elas são criticadas por homens que compartilham os mesmos valores, justamente porque esses homens se ressentem de suas palestras públicas e empreendedorismo.

Muitas vezes parece que, como mulher, não importa o que você faça, você não pode vencer. Isso deveria ser incentivo suficiente para trabalhar na criação de acesso a mais oportunidades e escolhas — seja tornar-se dona de casa, não ter filhos ou encontrar um equilíbrio entre a vida familiar e a carreira com o parceiro — em vez de limitar as mulheres a representar um ideal inexistente.

 

Claire Klingenberg é presidente do Conselho Europeu de Organizações Céticas e coorganizadora do Czech Paranormal Challenge. Desde 2013, ela tem palestrado em várias conferências sobre ciência e ceticismo e prestado consultoria em diversos projetos que abordam a relação entre crenças pseudocientíficas e ciência.

Este texto foi originalmente publicado na revista "The Skeptic". Veja aqui a versão original

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