
Passadas as festas de fim de ano, muitos nutricionistas se deparam com a mesma pergunta recorrente: “Exagerei na comida e quero perder peso rápido: o que faço?”. A resposta que costumo dar a amigos e familiares é direta: depois do arroz com passas e do salpicão, basta retomar a rotina, ajustar as refeições e voltar à atividade física. A menos que alguém tenha consumido um chester inteiro diariamente entre 24 de dezembro e 1º de janeiro (cerca de 4.464 kcal e mais de 21 g de sódio por dia), não há motivo para pânico.
Neste ano, porém, fui surpreendido por uma réplica curiosa: “Mas, Mauro, se eu fizer várias sessões de crioterapia, isso não acelera o emagrecimento?”.
Embora eu conheça a crioterapia — procedimento que utiliza frio extremo —, lembrava-me de que seu uso é mais comum em contextos pós-operatórios ou no tratamento de lesões, com o objetivo de aliviar dor e inflamação. Contudo, até então, não tinha visto sua aplicação defendida como estratégia para a perda de peso.
Ao pesquisar o tema, deparei-me com propagandas online que prometem a queima de até 800 kcal em apenas três minutos. Para fins comparativos, segundo a tabela de equivalentes metabólicos (METs), um indivíduo de 80 kg correndo por uma hora a 10,7 km/h (MET 11) gastaria cerca de 880 kcal — apenas 80 kcal a mais. Uma sessão vigorosa de musculação, por sua vez, dificilmente ultrapassaria 480 kcal, o que ironicamente sugeriria abandonar a academia e investir em sessões caríssimas de crioterapia.
Segundo os promotores da prática, esse efeito — dependente da taxa metabólica, composição corporal, frequência, temperatura e duração da exposição — ocorreria por meio do chamado efeito térmico. A exposição a temperaturas extremamente baixas obrigaria o organismo a trabalhar mais para manter a temperatura corporal central, elevando o gasto energético. Soma-se a isso a alegação de aumento da noradrenalina — hormônio ligado à resposta de “luta ou fuga” — e de um gasto calórico prolongado pós-exposição, semelhante ao observado após exercícios de alta intensidade.
Para respaldar tais alegações, fabricantes citam literatura científica como base teórica. De acordo com esses estudos, a crioterapia atuaria na chamada “termogênese não tremulante”, definida como o aumento da produção de calor induzido pelo frio sem envolvimento da atividade muscular do tremor. Teoricamente, o frio transformaria o tecido adiposo branco — que armazena energia — em tecido adiposo bege ou marrom, ambos associados à dissipação de energia em forma de calor durante a termogênese induzida pelo frio ou pela dieta.
Dentre esses estudos, os mais frequentemente citados são “Mechanism Underlying Tissue Cryotherapy to Combat Obesity/Overweight Triggering Thermogenesis” e “Cold acclimation recruits human brown fat and increases nonshivering thermogenesis”, geralmente sob a alegação de que o organismo, após exposição a frio intenso, aumentaria a oxidação de gordura e o gasto energético nas horas subsequentes.
Embora os próprios autores reconheçam que as evidências ainda são limitadas, o discurso apresentado sugere resultados iniciais promissores e defende a crioterapia como potencial adjuvante ao exercício e à alimentação saudável no emagrecimento. Uma análise mais atenta, porém, revela inconsistências importantes.
A base científica
Iniciando pelo primeiro estudo, trata-se de uma pesquisa retrospectiva que avaliou alterações em parâmetros relacionados à obesidade após aplicações de crioterapia tecidual — localmente, não como crioterapia de corpo inteiro.
Dois grupos atendidos em uma clínica médica foram analisados: um com 18 participantes submetidos a três aplicações e outro com sete participantes submetidos a seis aplicações; neste último, os participantes foram avaliados por escaneamento corporal total para estimativa de gordura e massa muscular. Cerca de 70% apresentavam IMC normal e 30% sobrepeso ou obesidade.
Observou-se uma redução média de 3% na circunferência da cintura três horas após o procedimento, sem alterações significativas na circunferência da coxa. Peso e IMC não apresentaram mudanças estatisticamente significativas após uma única aplicação. Uma semana depois, a redução da circunferência da cintura deixou de ser significativa. Entre os participantes submetidos a aplicações múltiplas, houve redução significativa da circunferência da cintura (2,8 cm; 3,3%), do peso corporal (0,53 kg) e do IMC (0,2 unidade).
Para confirmar a composição corporal, os indivíduos do segundo grupo realizaram avaliações independentes antes, após três e após seis aplicações. Depois de três sessões, houve redução significativa do IMC e da massa gorda; após seis sessões, a massa gorda média reduziu cerca de 3,8%, acompanhada de diminuição do IMC em 0,42 unidade.
Com base nesses achados, os autores concluem que o resfriamento abdominal tecidual diário e consecutivo promove perda progressiva de tecido adiposo.
Apesar da conclusão otimista, os autores deixaram de realizar uma etapa essencial da pesquisa científica: o reconhecimento de suas limitações. Não foi verificado, por exemplo, se os participantes estavam utilizando ou engajando-se em outras estratégias de perda de peso.
Além disso, o estudo contou com uma amostra pequena (18 participantes no maior grupo), não foi cego nem randomizado, o que sugere a possibilidade de viés dos pesquisadores tanto na seleção dos voluntários quanto na condução do experimento. Também seria necessário investigar se esses efeitos benéficos se manteriam ao longo do tempo ou se representam apenas efeitos que tendem a se dissipar.
Além disso, um dos autores atua como diretor médico de uma clínica que oferece crioterapia tecidual para obesidade e sobrepeso, configurando claro conflito de interesses.
O segundo estudo, embora mais interessante e melhor conduzido, tem resultado inconclusivo. Nele, os pesquisadores partiram do seguinte contexto: animais não aclimatados ao frio respondem inicialmente com termogênese tremulante (contrações musculares), elevando o gasto energético; com a exposição prolongada, o tremor diminui, mas o gasto energético se mantém elevado, indicando aumento da termogênese não tremulante. Como, em humanos, esse fenômeno está associado ao tecido adiposo marrom, o estudo investigou o efeito da aclimatação ao frio sobre a termogênese não tremulante e sobre a presença e a atividade desse tecido.
Foram recrutados 17 indivíduos saudáveis. Durante 10 dias consecutivos, os participantes foram expostos a temperaturas entre 15°C e 16°C por 6 horas diárias. A ativação do tecido adiposo marrom e o gasto energético foram avaliados por calorimetria indireta antes e após o período de aclimatação.
Como resultado, constatou-se que, antes da aclimatação, a taxa metabólica de repouso dos participantes era, em média, de 6,8 megajoules (equivalente a 1.625 kcal), sendo menor nas mulheres (1.418 kcal) e maior nos homens (1.816 kcal). Após a exposição ao frio, o gasto energético aumentou para 1.649 kcal nas mulheres (incremento de 231 kcal) e para 2.031 kcal nos homens (incremento de 215 kcal). A termogênese não tremulante elevou-se de forma significativa, passando de 10,8% para 17,8%, sem alterações relevantes na taxa metabólica de repouso.
Curiosamente, apesar do aumento do gasto energético, não houve mudanças no peso corporal nem na composição corporal dos participantes, levantando a hipótese — sugerida pelos próprios pesquisadores — de que esse aumento possa ter sido compensado por maior ingestão alimentar ou por redução da atividade física.
Em relação ao tecido adiposo marrom, 94% dos participantes apresentavam depósitos ativados pelo frio antes da aclimatação, percentual que atingiu 100% após o protocolo.
Apesar das limitações do estudo — como o pequeno tamanho amostral e a ausência de controle rigoroso da ingestão alimentar, da atividade física e de outras variáveis de confundimento —, a principal restrição interpretativa é de natureza conceitual. O protocolo empregado não caracteriza crioterapia nos moldes atualmente divulgados, mas sim um modelo de aclimatação ao frio, baseado em exposição prolongada e repetida a temperaturas moderadamente baixas.
Por fim, cabe observar que ambos os estudos são anteriores a 2019, o que abre a possibilidade de evidências mais recentes e metodologicamente mais robustas.
Novos estudos?
Considerando o estado do conhecimento até 2022, o trabalho que melhor sintetiza as evidências sobre crioterapia de corpo inteiro no contexto do emagrecimento — especificamente da obesidade — é a revisão de escopo “Whole-body cryostimulation in obesity: A Scoping Review”. O objetivo foi reunir e avaliar criticamente as evidências sobre os efeitos dessa prática em indivíduos com sobrepeso e obesidade.
A busca incluiu diferentes formas de crioterapia, desde que as temperaturas variassem entre -110°C e -170°C, em adultos de 20 a 57 anos. Dos 879 estudos inicialmente identificados, apenas oito preencheram os critérios de elegibilidade, totalizando 189 participantes, dos quais 160 apresentavam sobrepeso ou obesidade. Cinco estudos eram não controlados e três controlados, porém não randomizados, sendo quatro conduzidos no mesmo laboratório. A qualidade metodológica foi considerada moderada, com média de 16,75 pontos em uma escala máxima de 27. A maioria envolveu a exposição dos pacientes a temperaturas da ordem de -120°C por até três minutos.
Ao focar nos achados relacionados à composição corporal, a maioria dos estudos relatou reduções significativas de gordura e circunferências; contudo, os resultados foram heterogêneos, provavelmente influenciados por intervenções concomitantes, como dieta e atividade física, além da ausência de grupos controle. Um achado relevante foi que uma maior quantidade de gordura subcutânea em indivíduos com obesidade pode reduzir a perda de calor, retardando o aumento da taxa metabólica em comparação com indivíduos sem obesidade.
Os autores destacam que o apelo da crioterapia de corpo inteiro reside em seus potenciais efeitos anti-inflamatórios e metabólicos, podendo atuar como abordagem adjuvante no manejo da obesidade, sobretudo em indivíduos com baixa aptidão física, ao mimetizar parcialmente efeitos do exercício.
Contudo, a revisão apresenta limitações relevantes: ausência de investigação dos mecanismos moleculares, falta de padronização dos protocolos (temperatura, número de sessões, tempo de exposição e momento das coletas), escassez de ensaios clínicos randomizados, ausência de estratificação por grau de obesidade, cegamento e grupos controle adequados. Além disso, fatores de confusão, como atividade física e dieta, estavam presentes na maioria dos estudos.
Diante do baixo volume de literatura, qualidade metodológica limitada, amostras pequenas e heterogeneidade dos protocolos, os autores concluem que os dados atuais não permitem inferências definitivas sobre a eficácia da crioterapia como tratamento adjuvante da obesidade. As evidências permanecem escassas e inconsistentes, com qualidade metodológica baixa.
Três anos após essa revisão, novos estudos acrescentaram evidências com resultados predominantemente negativos. Publicado em setembro de 2025, o estudo “Effects of Whole-Body Cryotherapy Combined With Conventional Obesity Management Alone: A Clinical Trial” avaliou se a crioterapia associada ao manejo convencional promoveria maior perda de peso do que a intervenção isolada, além de investigar efeitos sobre composição corporal e respostas metabólicas. A hipótese central foi de que a crioterapia ativaria o tecido adiposo marrom, aumentaria o gasto energético e potencializaria os efeitos da intervenção convencional.
Foi conduzido um ensaio clínico não randomizado, com duração de 12 meses, envolvendo adultos de 18 a 50 anos. Após avaliações basais, 20 participantes foram alocados em dois grupos balanceados por IMC, sexo, idade e atividade do tecido adiposo marrom: 10 no grupo intervenção (manejo convencional com crioterapia) e 10 no grupo controle (manejo convencional isolado).
O grupo intervenção realizou 28 sessões de crioterapia em 16 semanas, com pré-resfriamento entre -30°C e -60°C e exposição principal de 3 a 4 minutos a -110°C, seguidas de sessões mensais de manutenção. Ingestão energética e atividade física foram monitoradas por registros alimentares e questionários. A amostra foi majoritariamente feminina, com idades entre 20 e 48 anos.
Ambos os grupos reduziram a ingestão energética em aproximadamente 750 kcal/dia durante a fase intensiva, com consumo médio de 1.637 kcal no grupo crioterapia e 1.462 kcal no grupo controle, além de aumentarem a atividade física aos cinco meses. Essas mudanças foram parcialmente mantidas até os 12 meses; ao final do estudo, entretanto, a ingestão energética retornou a valores próximos aos basais.
Quanto aos desfechos, ambos os grupos apresentaram perda de peso significativa, sem diferenças estatisticamente relevantes. No grupo crioterapia, a perda média foi de 11,9 kg aos cinco meses e de 9,9 kg aos 12 meses, em comparação a 11,2 kg e 7,8 kg, respectivamente, no grupo controle. As alterações na massa gorda, na massa magra e na circunferência da cintura também não diferiram entre os grupos.
Embora o grupo com criotereapia tenha apresentado reduções adicionais de LDL-colesterol e glicemia de jejum aos cinco meses, essas diferenças não se mantiveram ao final do estudo. Não foram encontradas evidências robustas de aumento adicional da atividade do tecido adiposo marrom, enfraquecendo um dos principais pressupostos fisiológicos da prática.
Com base nesses achados, os autores concluem que a associação da crioterapia de corpo inteiro ao manejo convencional da obesidade não foi superior à intervenção isolada para a perda de peso. Os possíveis benefícios metabólicos observados foram modestos e transitórios.
Entre as limitações, além da ausência de randomização — que pode ter introduzido vieses tanto por parte dos pesquisadores quanto dos participantes —, os autores destacam o pequeno tamanho amostral, o que pode ter reduzido o poder estatístico para detectar diferenças entre os grupos e limitado análises de efeitos moderadores por idade e sexo.
Além disso, devido à aclimatação prévia ao frio antes da exposição a temperaturas mais baixas, é possível que esse fator tenha atenuado eventuais efeitos adicionais da prática. Também não é possível afirmar, com segurança, que regimes mais longos, mais frequentes ou com temperaturas mais extremas não poderiam gerar adaptações fisiológicas distintas, embora o estudo tenha buscado mimetizar a prática típica do mundo real, com sessões de curta duração (3 a 5 minutos).
Por fim, vale mencionar que vários autores mantinham vínculos com a indústria farmacêutica, incluindo a Novo Nordisk, produtora de medicamentos à base de GLP-1 atualmente utilizados no tratamento da obesidade. Um dos autores é sócio de duas clínicas especializadas no tratamento de pacientes com obesidade, o que configura potenciais conflitos de interesse.
À luz das evidências disponíveis — que, vale ressaltar, são extremamente frágeis —, a crioterapia pode até promover um aumento transitório do gasto calórico. Contudo, esse efeito parece pequeno, inconsistente e muito inferior às 800 kcal frequentemente propagandeadas, sendo insuficiente para produzir impacto relevante sobre o gasto energético total e, por consequência, sobre o emagrecimento.
O que se tem de evidência, até o momento, é que uma alimentação hipocalórica bem conduzida, associada ao aumento da atividade física e, quando indicado, ao acompanhamento psicológico e farmacológico, continua sendo o conjunto de ferramentas mais eficaz no manejo da obesidade. Fora desse espectro, as demais estratégias tendem a reincidir no mesmo problema observado em práticas pseudocientíficas: muitas promessas e, no melhor dos cenários, poucas evidências; no pior, evidências contrárias, com ausência de eficácia e ocorrência de eventos adversos.
Mauro Proença é nutricionista
REFERÊNCIAS
FARINATTI, P. Apresentação de uma Versão em português do Compêndio de Atividades Físicas: uma contribuição aos pesquisadores e profissionais em Fisiologia do Exercício. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício. Volume 2. 2003. Disponível em: https://academy.dietbox.me/wp-content/uploads/2023/08/Aula-04-Material-Extra-Tabela-dos-MET-exerci%CC%81cio.pdf.
LOAP, S. e LATHE, R. Mechanism Underlying Tissue Cryotherapy to Combat Obesity/Overweight: Triggering Thermogenesis. J Obes. 2018 May 2:2018:5789647. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29854439/.
VAN DER LANS, A. et al. Cold acclimation recruits human brown fat and increases nonshivering thermogenesis. J Clin Invest. 2013;123(8):3395–3403. Disponível em: https://www.jci.org/articles/view/68993.
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KARPPINEN, J. et al. Effects of Whole-Body Cryotherapy Combined With Conventional Obesity Management Versus Obesity Management Alone: A Clinical Trial. Obesity (Silver Spring). 2025 Nov;33(11):2112-2127. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/oby.70019.
