
No último ano, discuti como os agonistas do receptor GLP-1 revolucionaram o tratamento da obesidade, produzindo resultados promissores. Entretanto, algo que ficou de fora da minha análise — e que passou a ocorrer com mais frequência após a publicação — foram as ilegalidades relacionadas à intensa demanda por esses medicamentos, mais especificamente, o roubo em farmácias e a fabricação clandestina.
Recentemente, uma matéria publicada na VEJA com o título “Alta procura por Ozempic e Mounjaro causa efeito colateral: as gangues das canetas” apontou que, de janeiro a outubro de 2025, houve 259 assaltos a farmácias em São Paulo, frente a nenhum em 2022 e cerca de 275 em 2024. Além disso, até setembro de 2025, foram apreendidos 11.351 produtos ilegais, contra sete em 2023 e 2.545 em 2024.
Isso se soma às ações da Polícia Federal para desmantelar uma rede clandestina de produção, fracionamento e venda de canetas emagrecedoras contendo o princípio ativo do Mounjaro. Verificou-se que o grupo, além de enganar o público ao fazê-lo acreditar que o medicamento era autorizado para fabricação regular, comercializava os produtos em plataformas digitais sem controle de qualidade, rastreabilidade ou higiene, expondo os consumidores a riscos sanitários.
Diante desses casos, a Anvisa publicou, em agosto de 2025, a nota técnica Nº 200/2025/SEI/GIMED/GGFIS/DIRE4/ANVISA, esclarecendo quais insumos farmacêuticos ativos (IFAs) podem ser manipulados e destacando que registros por via biotecnológica ou sintética não autorizam a manipulação por outra via, nem presumem níveis comparáveis de eficácia entre diferentes fabricantes. O documento reforça que a manipulação desses IFAs é complexa e envolve alto risco, especialmente em preparações injetáveis.
Em novembro de 2025, cinco entidades médicas enviaram uma carta aberta à Anvisa, solicitando suspensão cautelar da fabricação, comercialização e prescrição de versões manipuladas e injetáveis de agonistas de GLP-1/GIP. Argumentaram que essas formulações circulam em larga escala sem controle, apresentam riscos graves à saúde e são produzidas por organizações criminosas que utilizam influenciadores, cursos, redes sociais e eventos para comercialização, sem rastreabilidade ou respaldo regulatório.
As entidades ainda alertaram que esses produtos não têm registro sanitário, comprovação de equivalência farmacêutica ou controle de pureza, esterilidade e estabilidade. Além disso, algumas moléculas exigem processos industriais específicos que não podem ser reproduzidos em farmácias magistrais, gerando riscos de subdosagem, superdosagem e contaminação.
A Anvisa, em consonância com a carta, publicou diversas resoluções proibindo a importação, fabricação, venda, propaganda e uso de canetas emagrecedoras sem registro, permitindo apenas a importação excepcional para uso pessoal, mediante prescrição e cumprimento dos requisitos legais.
Além desses problemas, há ainda duas questões subjacentes relacionadas ao tema. A primeira, de caráter médico e que preocupa inúmeros cientistas, é o uso desses medicamentos sem indicação clínica, quando o paciente os utiliza por conta própria, mesmo com peso considerado saudável, apenas com o objetivo de reduzir a circunferência abdominal. A segunda diz respeito às buscas online por esses medicamentos.
Ozempic e Mounjaro em alta?
Enquanto realizava o levantamento de pesquisas e matérias para este artigo, uma das que mais me chamou a atenção foi intitulada “Pesquisa no Google por canetas emagrecedoras supera busca por dieta”, que apontou aumento de 80% nas buscas por medicamentos para perda de peso. No lançamento do Olire (EMS), pesquisas por liraglutida cresceram 1.100% nos primeiros sete dias de agosto. Termos como “Ozempic para emagrecer” (4º), “Mounjaro para emagrecer” (7º) e “injeção para emagrecer” (8º) também se destacaram. Em agosto, as buscas por “canetas emagrecedoras” superaram “dietas” (100 x 63), embora estas retomassem a liderança nos meses seguintes.
O Brasil ficou em 4º lugar mundial no interesse pela tirzepatida (Mounjaro/Zepbound) e em 8º lugar nas buscas sobre semaglutida. Entre as perguntas mais comuns em 2025 estavam “o que é Mounjaro” e “para que serve Ozempic”.
Em consonância com esses dados, inúmeros artigos publicados entre 2023 e 2025 também investigaram tendências de busca sobre os agonistas de GLP-1. Por exemplo, a pesquisa “Sweetening the deal: an infodemiological study of worldwide interest in semaglutide using Google Trends extended for health application programming interface” analisou o interesse global por semaglutida entre 2019 e 2022, utilizando Google Trends e dados de notícias do ProQuest, um serviço que inclui jornais, sites e podcasts.
Observa-se crescimento expressivo do interesse online por semaglutida, especialmente nos Estados Unidos em maio de 2023; o Brasil ficou em terceiro lugar.
Testes de causalidade de Granger, método estatístico usado para determinar se uma variável afeta potencialmente outra por meio da análise da relação entre séries temporais, mostraram que a intensidade da cobertura midiática permitia prever picos de busca.
A análise temática das buscas mostrou diferenças entre países: alguns destacaram efeitos colaterais, como o “Rosto de Ozempic” — termo mais conhecido como Ozempic Face, usado para descrever uma aparência envelhecida e “afundada” ocasionada pela perda rápida de peso —, enquanto outros focaram em acesso e varejistas locais. Quase todos abordaram semaglutida e perda de peso.
Como esperado, o cenário nacional apresenta resultados semelhantes. De acordo com a pesquisa “Tendências de busca no Brasil e no mundo por medicamentos relacionados ao emagrecimento via Google Trends”, que analisou cinco agonistas de GLP-1 e GIP entre 2020 e junho de 2025, foram identificados padrões de interesse e o medicamento mais citado.
Verificou-se que, no Brasil, o Mounjaro foi o mais procurado em 2025, seguido pelo Ozempic, enquanto o Wegovy teve pico discreto em novembro de 2024. O aumento do interesse pelo Mounjaro no Brasil coincide com a aprovação do princípio ativo, tirzepatida, pela Anvisa.
Complementando a pesquisa anterior, o artigo “Obesidade e a busca por informações sobre o uso indiscriminado e off-label do Ozempic” analisou o aumento da procura pelo Ozempic e fármacos semelhantes para uso off-label, isto é, fora das recomendações do fabricante e das agências reguladoras, em processos de emagrecimento. O trabalho destaca a necessidade de políticas públicas e orientações claras para promover hábitos saudáveis em vez de soluções rápidas e arriscadas. A pesquisa combinou Google Trends com bases científicas (SciELO, PubMed, Google Scholar), revisando 560 artigos publicados entre 2014 e 2024, com análise final de 37 estudos.
Como resultado, verificou-se que as vendas se mantiveram estáveis de 2017 até 2020, quando surgiram os primeiros relatos de uso off-label para emagrecimento, impulsionados por vídeos em redes sociais, fazendo as vendas triplicarem. Em 2023, o Ozempic consolidou-se globalmente como “medicamento para emagrecer”, aumentando pesquisas em 1.900% e provocando escassez mundial. No Brasil, o índice de interesse chegou a 100 pontos em 2023 (máximo da escala), enquanto globalmente foi 90; em 2024, o interesse global atingiu 100 pontos e, no Brasil, recuou 15 pontos.
Os autores reforçam que Ozempic e medicamentos similares devem ser usados apenas sob prescrição médica, na dose correta e com acompanhamento. Fora desse contexto, o uso motivado por fins estéticos, sem supervisão, constitui sério problema de saúde pública.
A preocupação sobre uso indevido em pacientes sem obesidade foi tema principal de um artigo publicado no fim de 2025 pelo periódico Obesity.
As preocupações
Sob o título “The Uncharted Territory of the New Obesity Drugs in Users Without Obesity: A Sociomedical Perspective”, trata-se de uma perspectiva sobre o uso off-label de novos medicamentos para obesidade.
Os autores escrevem que os agonistas de GLP-1, originalmente indicados para obesidade e diabetes tipo 2, tornaram-se ferramentas de gestão de estilo de vida, impulsionados pela mídia, celebridades, pares e marketing digital. Entre indivíduos sem indicação clínica, esses medicamentos funcionam como símbolos de auto-otimização e valorização social.
No entanto, diversas questões permanecem sem resposta para essa população específica, incluindo: (1) quem são esses usuários? (2) Como esses medicamentos são obtidos? (3) Os usuários acessam os GLP-1 por meio de prescritores formais, canais informais ou plataformas digitais? (4) Quais são os desfechos? (5) Como os GLP-1 afetam a relação dos usuários com a comida? (6) Que custos emocionais, como vergonha ou ansiedade, acompanham a transformação física desejada?
Para evitar equívocos interpretativos, é importante destacar que já existem evidências robustas dos benefícios desses medicamentos para pacientes com obesidade e diabetes mellitus tipo 2. Ainda assim, as preocupações levantadas permanecem pertinentes diante do aumento de relatos envolvendo artistas, celebridades e até equipes esportivas profissionais — como o time masculino de futebol do São Paulo — que teriam recorrido a essas drogas, geralmente sob acompanhamento médico contínuo e com recursos para manejar eventuais efeitos adversos.
Para o restante da população, entretanto, imersa no imaginário de um “fármaco milagroso” livre de riscos e exposta de forma contínua a influenciadores que enfatizam apenas supostas vantagens, abre-se a possibilidade de que, em vez de buscar avaliação e seguimento médico — quando isso é acessível — optem pela aquisição do produto em farmácias ou laboratórios escusos, que, no melhor dos cenários, apenas comercializam substâncias inócuas.
Adicionalmente, a maior parte das evidências disponíveis deriva de estudos conduzidos em populações com obesidade ou sobrepeso, o que impede a extrapolação de dados de segurança para indivíduos com IMC dentro da normalidade e sem diabetes mellitus tipo 2. Essa limitação é particularmente relevante, pois a ausência de dados não permite inferir se efeitos adversos frequentemente observados — como náusea e fadiga — seriam mais frequentes ou de maior gravidade nesse grupo.
Por fim, como se esses elementos já não fossem suficientes para desaconselhar o uso não supervisionado desses fármacos, destaca-se o fenômeno da Ozempic Face — mencionado no início do artigo —, que passou a ser investigado em estudos recentes.
Entre esses trabalhos, e a meu ver um dos mais bem conduzidos, destaca-se o artigo “‘Ozempic Face’ in Plastic Surgery: A Systematic Review of the Literature on GLP-1 Receptor Agonist-Mediated Weight Loss and Analysis of Public Perceptions”. Trata-se de uma revisão sistemática cujo objetivo foi compilar e analisar dados recentes sobre segurança, eficácia e diretrizes clínicas relacionadas ao uso de agonistas do GLP-1 no contexto da cirurgia plástica e de especialidades correlatas. Adicionalmente, os autores realizaram uma análise de tendências no Google Trends e uma revisão de notícias no Google News, visando avaliar a percepção pública desses medicamentos e sua associação com a perda de peso.
Focando nos achados relacionados ao “Rosto de Ozempic”, observou-se que pacientes submetidos à perda de peso medicamentosa geralmente não ultrapassam 25% de redução do peso corporal total e, mesmo assim, podem apresentar efeitos semelhantes aos observados em indivíduos com perdas maciças, como alterações na morfologia facial, além de mudanças celulares associadas à diminuição de colágeno e elastina.
A perda de gordura facial pode conferir um aspecto encovado, semelhante ao envelhecimento facial avançado, especialmente em indivíduos mais velhos. Importa ressaltar que não há evidências de que os agonistas do receptor de GLP-1 promovam atrofia seletiva da gordura facial; a hipótese mais plausível é que esses fármacos acentuem o declínio gradual da elastina, tornando a flacidez cutânea mais evidente.
O manejo do chamado “Rosto de Ozempic” depende da gravidade do quadro e das preferências do paciente. A interrupção do medicamento pode ser considerada, embora nem sempre seja desejável, especialmente em pacientes que obtiveram benefícios metabólicos relevantes. Nesses casos, intervenções estéticas — como preenchedores — podem ser empregadas, assim como abordagens cirúrgicas em situações mais severas.
No que diz respeito às buscas no Google Trends, verificou-se crescimento consistente do interesse público por medicamentos antiobesidade, incluindo semaglutida e tirzepatida, desde 2021. A busca pelo termo “Ozempic Face” cresceu de forma contínua desde janeiro de 2023, enquanto termos relacionados a procedimentos estéticos faciais — como “preenchedores faciais” e “balanço facial” — exibiram trajetórias paralelas de crescimento.
O trabalho tem limitações, já que os estudos agregados variam muito em desenho e qualidade, mas confesso que me causa preocupação ouvir relatos de conhecidos que obtiveram a prescrição desses medicamentos sem indicação terapêutica formal.
Reconheço que essa posição possa ser interpretada como mais conservadora, mas observo que a pressão estética — intensificada por relações parassociais com influenciadores digitais — frequentemente desencadeia decisões impulsivas e de curto prazo, que assumem a forma de modismos, nem sempre isentos de riscos à saúde.
É importante ressaltar que desejar emagrecer ou melhorar a estética corporal não constitui, em si, um problema. O ponto central, contudo, é que o uso desses medicamentos sem indicação clínica pode acarretar riscos à saúde, que variam desde efeitos leves, como náusea e distúrbios gastrointestinais, até complicações mais sérias, como infecções, especialmente quando o fármaco é adquirido em locais irregulares. Ademais, dependendo da velocidade da perda de peso e da ausência de acompanhamento médico e nutricional, pode surgir a necessidade de intervenções estéticas, como preenchedores faciais, caso as alterações morfológicas causem desconforto ao paciente.
Por fim, acredito que todos que almejem utilizar esse tipo de medicamento, mesmo sem indicação, devam se questionar se a decisão realmente se justifica diante dos potenciais eventos adversos ou se se trata apenas de uma decisão tomada após uma grande dose de Instagram com microdoses de má influência.
Mauro Proença é nutricionista
REFERÊNCIAS
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