Novo guia de dieta dos EUA menospreza danos do álcool

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22 jan 2026
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consumo de álcool nos EUA

 

Na primeira semana de janeiro, o governo dos Estados Unidos publicou a nova edição das Dietary Guidelines for Americans (DGA) 2025–2030. À primeira vista, o documento parece apenas mais uma atualização quinquenal das diretrizes que orientam políticas públicas de alimentação em um país de mais de 330 milhões de habitantes. Mas uma mudança específica chama atenção — e deveria preocupar: os limites numéricos recomendados para o consumo de álcool simplesmente desapareceram.

Na edição anterior (2020–2025), as diretrizes eram claras: adultos em idade legal deveriam limitar o consumo a, no máximo, duas doses por dia para homens e uma dose por dia para mulheres, reconhecendo explicitamente que “beber menos é melhor para a saúde do que beber mais”. Uma dose corresponde, aproximadamente, a uma lata de cerveja (350 ml), uma taça pequena de vinho (cerca de 100 ml) ou uma dose de destilado (30 ml).

Na versão 2025–2030, essa orientação foi substituída por uma recomendação vaga: adultos devem “consumir menos álcool para uma melhor saúde geral” — sem quantidades, sem frequência, sem parâmetros.

Essa alteração não é trivial. As Dietary Guidelines for Americans são frequentemente tratadas como o padrão-ouro da política nutricional: influenciam o que escolas servem nas refeições, o que profissionais de saúde recomendam em consultórios e como programas federais são estruturados. Embora voltadas ao contexto norte-americano, também exercem influência internacional e moldam, direta ou indiretamente, as práticas das indústrias de alimentos e bebidas — que, por sua vez, não são meras espectadoras desse processo.

Recomendar apenas que se beba “menos álcool”, sem parâmetros objetivos, não funciona para nenhuma condição de saúde — e tampouco para o álcool. O resultado é previsível: cada um redefine o “menos” a seu favor. Alguns trocam o uísque por dezenas de latinhas de cerveja; outros se refugiam no vinho, convencidos de que a taça é chique, natural e, quem sabe, boa para o coração.

Curiosamente, boa parte das críticas às novas diretrizes concentrou-se em outros pontos, como a reformulação da pirâmide alimentar e a aparente maior tolerância a alimentos ricos em gorduras saturadas. A retirada das recomendações quantitativas sobre álcool passou quase despercebida. Isso apesar de o álcool estar associado a milhões de mortes no mundo, à violência interpessoal e doméstica, a homicídios, suicídios, acidentes de trânsito, múltiplos tipos de câncer e centenas de condições clínicas. No debate sobre doenças crônicas não transmissíveis, o álcool segue ocupando um espaço peculiar: reconhecido como problema em abstrato, mas tratado com uma benevolência rara quando comparado a outros fatores de risco.

A divulgação das novas diretrizes foi acompanhada de entrevistas do médico e administrador de programas federais de saúde Mehmet Oz. Em uma delas, ele afirmou que nunca teriam existido “dados sólidos” capazes de sustentar recomendações numéricas para o consumo de álcool. Também sugeriu que bastaria evitar beber no café da manhã, e destacou o papel do álcool como um suposto “lubrificante social” — uma visão antiga, utilizada para normalizar a presença do álcool em praticamente todos os contextos da vida cotidiana.

Esse discurso entra em choque com a literatura científica acumulada nas últimas décadas, incluindo o posicionamento da Organização Mundial da Saúde. As evidências atuais indicam que não existe um nível universalmente seguro de consumo de álcool. Mesmo em baixas quantidades, o álcool está associado ao aumento do risco de vários tipos de câncer — incluindo o câncer de mama, o mais prevalente —, além de doenças cardiovasculares e maior mortalidade geral. Não por acaso, países como o Canadá revisaram recentemente suas diretrizes à luz desse corpo de evidências: em 2023, o Canadian Centre on Substance Use and Addiction passou a considerar como “baixo risco” o consumo de, no máximo, duas doses por semana — não por dia.

Por que, então, as diretrizes norte-americanas caminharam na direção oposta, abandonando números e optando pela ambiguidade? A resposta está menos na ciência em si e mais no processo que levou à formulação do documento. Para embasar as recomendações sobre álcool, dois relatórios distintos foram encomendados. O primeiro, Alcohol Intake and Health (AIH), foi produzido pelo Interagency Coordinating Committee on the Prevention of Underage Drinking (ICCPUD) e reuniu especialistas com sólida produção acadêmica, incluindo pesquisadores que participaram da elaboração das diretrizes canadenses.

Meses depois, o Congresso dos EUA autorizou e financiou uma segunda análise, conduzida pela National Academies of Sciences, Engineering and Medicine (NASEM). Entre os integrantes desse painel estava um pesquisador da Universidade de Harvard que já recebeu financiamento da indústria do álcool. A Academy of Nutrition and Dietetics, que atuou como consultora do relatório, também tem histórico documentado de relações financeiras com grandes empresas do setor de alimentos ultraprocessados. Não por acaso, a escolha do relatório da NASEM como base para o DGA foi celebrada por grupos ligados à indústria de bebidas alcoólicas, como o Wine Institute.

Em um scientific commentary, Tim Stockwell e colegas explicam por que esses dois relatórios chegaram a conclusões tão diferentes. Em síntese, o relatório da NASEM deu peso excessivo a um número muito pequeno de estudos observacionais recentes — justamente o tipo de evidência mais vulnerável a vieses — e praticamente ignorou revisões sistemáticas amplas, estudos genéticos (como os de randomização mendeliana) e ensaios clínicos.

Ao tentar corrigir o chamado “efeito do ex-bebedor doente” (um viés metodológico em que pessoas que pararam de beber são colocadas no mesmo grupo das que nunca beberam, e como muitos ex-bebedores deixaram o álcool por motivos de saúde, isso pode criar a falsa impressão de que quem não bebe é menos saudável), o painel acabou por excluir a maior parte da literatura disponível, o que levou à subestimação de riscos e à superestimação de possíveis benefícios do consumo moderado. Já análises mais abrangentes, como as que embasaram o relatório do ICCPUD e as diretrizes canadenses, mostram que os supostos benefícios cardiovasculares desaparecem quando os vieses são controlados, enquanto os riscos — especialmente para câncer e mortalidade — surgem mesmo em níveis baixos de consumo, e aumentam progressivamente.

A retirada dos limites numéricos não é neutra. Ocorre justamente quando a evidência que associa o álcool a câncer, doenças cardiovasculares e mortalidade precoce se torna cada vez mais consistente — e quando o consumo começa a declinar. Diretrizes vagas não orientam escolhas informadas e diluem a responsabilidade do Estado em comunicar risco. Esse gesto também revela uma tolerância histórica ao álcool dentro da própria saúde pública, frequentemente tratado como um fator de risco menor, menos urgente ou mais “socialmente aceitável” do que outros. A ambiguidade das diretrizes converge com décadas de atuação da indústria para preservar o álcool no campo da normalidade e do prazer, apesar do acúmulo de evidências em sentido contrário. Diante disso, vale menos a ingenuidade e mais a atenção crítica ao que está sendo suavizado — e por quê.

 

Alex Streinger é jornalista com foco em saúde e meio ambiente, atualmente mestrando na Columbia University Graduate School of Journalism. Siga o autor no X: @AlexPStreinger

Ilana Pinsky é psicóloga clínica, doutora pela Unifesp. Foi consultora da OMS e da OPAS e professora da Universidade Columbia. É colunista de saúde mental da revista Veja. Siga a autora no Instagram: @ilanapinsky_

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