Equipe de Kennedy Jr. intensifica guerra às evidências

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26 jan 2026
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imagem clássica de profissional de saúde

 

Com a publicação das novas diretrizes alimentares para os Estados Unidos, fiz o que se espera de quem acompanha o tema de forma crítica: li o documento integralmente, apontei inconsistências e reconheci alguns acertos pontuais. No entanto, durante esse processo, um evento anterior acabou chamando mais atenção do que o próprio texto final: a coletiva de imprensa do dia 7 de janeiro de 2026.

O conteúdo apresentado ali foi, sob vários aspectos, mais problemático do que as próprias diretrizes. A coletiva concentrou uma sucessão de extrapolações, distorções e afirmações incompatíveis com o estado atual do conhecimento científico. Diante da quantidade de desinformação disseminada, tornou-se claro que fazia mais sentido separar as análises: este artigo se dedica exclusivamente à coletiva; o próximo discutirá o que, de fato, mudou nas diretrizes.

Após esse preâmbulo, vale contextualizar a coletiva.

Logo no início, RFK Jr. reconheceu que alimentos integrais e densos em nutrientes — basicamente, in natura ou minimamente processados — deveriam nortear a alimentação americana, ressaltando que grãos integrais são preferíveis a carboidratos refinados, que o açúcar adicionado (especialmente em bebidas) impulsiona doenças metabólicas e que produtos com sódio ou açúcar adicionados devem ser evitados. Sua mensagem central foi direta: “Comam comida de verdade”.

Apesar desse ponto sensato, o discurso de RFK Jr. incorpora diversas falácias. Contrariando as evidências sobre risco cardiovascular, ele anuncia o fim do que chamou de “guerra contra as gorduras saturadas”. Diz também que uma dieta rica em legumes e frutas reduziria o risco de doenças mais do que medicamentos. Esta última alegação funciona muito mais como uma hipérbole destinada a agradar seus asseclas do MAHA do que como uma conclusão científica, uma vez que o consumo desses alimentos, embora extremamente saudável, não se traduz diretamente no desfecho apresentado.

Como esperado de um governo composto por figuras associadas a teorias conspiratórias, também acusa administrações anteriores de mentir para proteger grandes indústrias alimentícias, ao mesmo tempo em que apresenta a chamada “nova era Trump” como livre de conflitos de interesse e guiada por um suposto padrão-ouro científico.

Por sua vez, o cirurgião Mehmet Oz (mais conhecido como o apresentador de TV “Dr. Oz”), chefe dos serviços Medicaid e Medicare, afirmou que as mudanças reduziriam os gastos com medicamentos para perda de peso e doenças autoimunes, uma vez que os alimentos seriam capazes de lidar com problemas de saúde como Alzheimer e depressão.

Marty Makary, comissário do FDA, declarou que a coletiva marcava o fim de um suposto dogma nutricional que teria demonizado as gorduras saturadas enquanto ignorava os carboidratos refinados. Citou um estudo publicado no periódico científico JAMA indicando que 60% a 70% das calorias consumidas por crianças provêm de alimentos ultraprocessados, argumentando que elas estariam “viciadas” em carboidratos e consumindo pouca proteína.

Makary ainda afirmou que as novas diretrizes atacariam as raízes de um sistema de saúde falido, supostamente baseado em pesquisas de um modelo da década de 1960 — no caso, a hipótese dieta-coração —, as quais, segundo ele, teriam gerado recomendações responsáveis pelo aumento da resistência à insulina e da inflamação sistêmica, fenômenos agravados por dietas ricas em ultraprocessados e carboidratos refinados, além de pobres em nutrientes e proteínas.

Em síntese, a coletiva de uma hora foi uma mistura de meias-verdades, tons conspiracionistas, mentiras explícitas e deturpações das evidências científicas.

 

Os erros de  Kennedy Jr.

Começando por RFK Jr., a ideia de que a alimentação pode atuar como uma estratégia não farmacológica para a redução do risco de doenças crônicas é correta. Mudanças no estilo de vida devem, de fato, constituir a primeira linha de intervenção, e uma dieta rica em frutas e legumes é amplamente reconhecida como saudável e recomendada.

No entanto, é equivocado supor que a alimentação saudável, de forma isolada, seja capaz de prevenir essas condições. Fatores como sedentarismo, estresse crônico, privação ou má qualidade do sono, tabagismo, etarismo e desigualdades sociais também exercem influência relevante sobre esses desfechos.

Da mesma forma, medicamentos não devem ser desconsiderados ou “criminalizados”. Atuam como complemento às mudanças no estilo de vida e, em muitos casos, são indispensáveis. Em estágios iniciais, uma dieta adequada pode contribuir para a reversão de determinadas condições, mas isso nem sempre é suficiente, o que reforça a importância do acompanhamento médico e multiprofissional.

A alegação de que a chamada “guerra contra as gorduras saturadas” teria chegado ao fim também exige contextualização histórica. Como descrito no “How the Ideology of Low Fat Conquered America, a década de 1940 foi marcada pela doença coronariana, principal causa de morte nos Estados Unidos. Cientistas e médicos buscavam identificar suas causas, e pesquisas indicaram correlação entre dietas ricas em gorduras saturadas e colesterol e maior incidência de doenças cardiovasculares, originando a hipótese dieta-coração.

Nos anos 1950, Ancel Keys e colegas propuseram uma dieta de baixo teor de gordura e, em 1957, a American Heart Association (AHA) recomendou reduzir gorduras animais sólidas, substituindo-as por óleos vegetais, especialmente para indivíduos com excesso de peso ou histórico familiar de doenças coronarianas, ressaltando que ainda não havia provas definitivas de prevenção de infartos ou derrames.

Somente em 1977 a hipótese dieta-coração entrou na agenda nacional, com as primeiras Diretrizes Dietéticas dos EUA, recomendando mais frutas, vegetais, grãos integrais, aves e peixes, e menos alimentos ricos em gordura, além de leite desnatado. Em 1983, estudos identificaram a obesidade como fator de risco independente, consolidando o modelo “low-fat” na política de saúde pública e na mídia. Em 1988, o governo federal alertou sobre os riscos das gorduras.

Em 1992, o USDA (Ministério da Agricultura) introduziu sua primeira pirâmide alimentar, reforçando a ideologia “low-fat”, e, em 2000, o relatório federal Nutrition and Health classificou a gordura como a parte menos saudável da dieta. Críticas à hipótese dieta-coração surgiram, mas a indústria aproveitou para lucrar, substituindo gordura por açúcar em produtos processados.

Resultado: obesidade e sobrepeso continuaram crescendo, gerando movimentos contrários como dietas low-carb, cetogênicas e de Atkins.

Contudo — e isso talvez seja a parte que RFK Jr. não consegue compreender —, o grande problema das dietas low-fat não foi a redução do consumo de gorduras, mas sim a substituição dessas gorduras por carboidratos simples, principalmente açúcar e grãos refinados.

Se olharmos as evidências mais robustas e as diretrizes alimentares de diferentes associações médicas, o consumo máximo recomendado de gorduras saturadas é inferior a 10% — com algumas limitando a menos de 6%. Em termos práticos, um indivíduo que consome 2.000 kcal não deveria ingerir mais de 200 kcal provenientes de gorduras saturadas (equivalente a aproximadamente 21 gramas), sempre que possível substituindo-as por carboidratos integrais ou gorduras do tipo poli-insaturadas.

Um spoiler: isso não foi alterado nas novas diretrizes, o que apenas reforça, mais uma vez, que se trata muito mais de discurso ideológico do que de uma afirmação baseada na ciência “padrão-ouro”, como eles gostam de chamar.

 

As distorções do Dr. Oz

Nas falas do diretor do Medicaid e Medicare, chama a atenção a afirmação de que “comida é medicamento” para condições como depressão e Alzheimer. A afirmação carece de sustentação empírica robusta.

Iniciando pelos estudos sobre a relação entre depressão e alimentação, o estudo “The Relationship Between Nutrition and Depression in the Life Process: A Mini-Review” faz um excelente trabalho. De acordo com ele, inúmeros estudos observaram que há uma relação entre alimentos, hábitos alimentares e saúde mental, sendo que alguns constataram que indivíduos que aderiram à dieta mediterrânea — principalmente com elevado consumo de grãos e vegetais — apresentaram menor gravidade dos sintomas depressivos. Em contrapartida, participantes com consumo elevado de açúcares refinados e doces, e baixo consumo de leguminosas, apresentaram maior risco de depressão.

Além dos padrões dietéticos, alguns micronutrientes e ácidos graxos essenciais, como ômega-3, fazem parte do Antidepressant Nutrient Score, um sistema que identifica 12 nutrientes-chave para prevenção e tratamento da depressão. A deficiência de ômega-3 eleva o risco de transtornos psicológicos, incluindo déficit de atenção, demência e depressão.

Estudos similares com outros nutrientes encontraram resultados positivos, levando à conclusão de que “preferências alimentares e conteúdo nutricional da dieta estão associados à depressão, com estado nutricional, qualidade da dieta e ingestão adequada de vitaminas e minerais intimamente ligados à saúde mental”.

A revisão sistemática “Diet Quality and Depression Risk: A Systematic Review and Meta-Analysis of Prospective Studies avaliou os efeitos da dieta na prevenção e tratamento da depressão, incluindo testes controlados randomizados (RCTs).

Os RCTs de intervenção dietética foram, em geral, inconclusivos. Apenas dois RCTs em pacientes mostraram efeito estatisticamente significativo, porém com alta heterogeneidade; uma análise estatística classificou a evidência como anedótica a favor da eficácia da intervenção, indicando que os dados não fornecem suporte suficiente para sustentar eficácia. Em não pacientes, intervenções sem grupo controle mostraram efeito moderado, mas com heterogeneidade e viés de publicação.

Já a análise relacionada à prevenção da depressão, tanto em populações de alto risco quanto na prevenção secundária, encontrou evidências fortes de ausência de efeito.

Ao examinar a relação entre dietas e depressão, dietas de alta qualidade, como dieta saudável geral ou mediterrânea, associaram-se a menores sintomas depressivos, mas com elevada heterogeneidade, viés de publicação e pouca evidência de efeito dose-resposta. No sentido oposto, a relação entre dietas de baixa qualidade e depressão determinou que os níveis mais altos de exposição estavam associados a maior relato de sintomas depressivos, com heterogeneidade moderada; padrões ultraprocessados isolados não se associaram à depressão. Grupos alimentares individuais, como frutas e vegetais, não apresentaram efeito consistente.

Curiosamente, as análises identificaram, de forma consistente, que o tipo de avaliação da depressão e o controle dos sintomas influenciavam os resultados. Estudos que usaram medidas autorreferidas de depressão relataram associações consistentes, enquanto diagnósticos clínicos não mostraram efeito.

Com base nesses resultados, os autores concluem que não há evidência convincente de que a qualidade da dieta influencia a depressão. Embora intervenções dietéticas possam contribuir para um estilo de vida saudável, a hipótese de que a dieta isoladamente previne ou trata a depressão carece de suporte robusto. Limitações incluem uso de medidas autorreferidas, poucos estudos pré-registrados, desenho não voltado primariamente para testar efeitos da dieta e possível confundimento residual.

Como podemos ver, com base nas evidências disponíveis, a alimentação pode, na melhor das hipóteses, exercer um impacto modesto na melhora dos sintomas da depressão e, na pior, não exercer efeito algum. Isso sugere que o Dr. Oz estava equivocado ao atribuir papel central à “comida natural” nesses casos.

No caso do Alzheimer, a relação com a alimentação é mais complexa. A revisão narrativa “Dietary Patterns and Alzheimer’s Disease: An Updated Review Linking Nutrition to Neuroscience sintetiza evidências que associam padrões dietéticos à redução ou ao retardamento da incidência e dos sintomas da doença, embora os mecanismos não estejam totalmente esclarecidos. Uma hipótese é que componentes dietéticos influenciem a plasticidade neural, promovendo resiliência cognitiva, especialmente no hipocampo, região afetada precocemente no Alzheimer. No entanto, há poucos ensaios clínicos randomizados que avaliam diretamente o impacto de padrões dietéticos específicos sobre o Alzheimer.

Uma revisão sistemática intitulada "Effect of nutrition in Alzheimer’s disease: A systematic review" mapeou as atualizações dos últimos cinco anos sobre o estado nutricional e intervenções nutricionais associadas a pacientes com Alzheimer.

Foram incluídos apenas RCTs, metanálises e revisões sistemáticas publicadas entre 2018 e 2022, em inglês, conduzidas com participantes com mais de 18 anos. A análise final considerou 38 artigos, sendo 17 RCTs e 21 revisões sistemáticas e/ou metanálises.

Os resultados indicam que dietas não saudáveis, ricas em gordura, colesterol e com alta carga glicêmica, assim como a dieta ocidental, estão associadas à neurodegeneração e ao aumento de biomarcadores ligados à doença.

Em síntese, embora seja evidente que uma dieta saudável está associada a melhores desfechos de saúde, não há evidência suficiente para afirmar que a alimentação, isoladamente, previna o Alzheimer ou reduza seus sintomas de forma clinicamente relevante.

 

A narrativa de Makary

Tratando agora das falas de Makary, que fez questão de se apoiar em um artigo científico para afirmar que a nutrição infantil se tornou prejudicial ao longo dos anos. Trata-se do estudo “Trends in Consumption of Ultraprocessed Foods Among US Youths Aged 2–19 Years, 1999–2018”, baseado em dez ciclos do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), que busca avaliar o estado de saúde e nutricional da população norte-americana por meio de entrevistas, exames físicos e recordatórios alimentares.

A amostra incluiu 33.795 jovens, com idade média de 10,7 anos. Entre 1999–2000 e 2017–2018, a proporção estimada da energia proveniente de alimentos ultraprocessados aumentou de 61,4% para 67%, enquanto a participação de alimentos minimamente processados caiu de 28,8% para 23,5%. No ciclo mais recente, os principais contribuintes para a ingestão energética foram alimentos à base de grãos industrializados, lanches, doces, confeitos e refeições prontas para consumo. Em contraste, a participação de bebidas adoçadas com açúcar e de gorduras e óleos processados diminuiu.

O estudo apresenta limitações importantes: uso de recordatórios autorrelatados, que sofrem dos vieses de desejabilidade social e memória; possíveis mudanças nos códigos alimentares ao longo dos ciclos do NHANES; e restrições inerentes à própria classificação NOVA, de onde vem a categoria “ultraprocessado”, criticada por não considerar adequadamente o perfil nutricional dos alimentos.

Apesar dessas limitações, os valores observados refletem de forma razoavelmente fiel o consumo real. Um estudo recente do National Center for Health Statistics (NCHS), órgão vinculado ao CDC, analisou dados de agosto de 2021 a agosto de 2023 e estimou que crianças e adolescentes (1–18 anos) obtiveram, em média, 61,9% de sua ingestão energética a partir de ultraprocessados.

Ainda assim, em nenhum momento esses dados sustentam a narrativa de uma geração “viciada em carboidratos”, com ingestão proteica insuficiente ou induzida a evitar gorduras saturadas por ter sido “enganada”. Tais afirmações simplesmente não encontram respaldo empírico. Pelo contrário: quanto mais se examinam os dados disponíveis, mais evidente se torna o caráter ideológico desse tipo de interpretação.

Usando os dados do ciclo NHANES 2021–2023, observa-se um consumo proteico médio de aproximadamente 63 g/dia entre crianças de 6–11 anos e de 55 g/dia entre aquelas de 2–5 anos. Considerando, por exemplo, uma criança de 11 anos com 50 kg, isso corresponde a cerca de 1,2 g/kg/dia — valor incompatível com a ideia de uma dieta pobre em proteínas.

Mesmo que se admitisse, hipoteticamente, um consumo proteico abaixo do ideal, a abordagem racional seria incentivar fontes adequadas de proteína — como peixes, aves e cortes magros de carne vermelha — e não construir a narrativa de que gorduras saturadas teriam sido injustamente demonizadas por estudos de baixa qualidade, para então sugerir seu consumo como estratégia de “combate” a problemas de saúde.

Na verdade, as melhores evidências disponíveis indicam, de forma consistente, que o consumo habitual e acima das recomendações de gorduras saturadas é um fator de risco para doenças cardiovasculares, com impacto ainda maior em indivíduos já expostos a risco elevado. Há ao menos duas revisões sistemáticas robustas que refutam, de maneira bastante clara, o argumento de que “gorduras saturadas são saudáveis”.

Uma é “Reduction in saturated fat intake for cardiovascular disease”, que avaliou se a redução da ingestão de gorduras saturadas — e sua substituição por carboidratos, gorduras poli ou monoinsaturadas ou proteínas — influencia a mortalidade e a morbidade cardiovascular.

Foram incluídos 15 RCTs, totalizando mais de 56 mil adultos sem doença cardiovascular prévia, com intervenções de pelo menos 24 meses. As estratégias envolveram aconselhamento nutricional, uso de óleos ou alimentos modificados, enquanto os grupos controle mantiveram dietas ricas em gordura saturada. A maioria dos estudos foi conduzida entre 1965 e 2006, na América do Norte e Europa.

De acordo com a avaliação GRADE (sistema de classificação da qualidade de um conjunto de evidências em revisões sistemáticas e outras sínteses de evidências), a redução da gordura saturada provavelmente faz pouca ou nenhuma diferença na mortalidade por todas as causas ou na mortalidade cardiovascular (evidência moderada).

Em contraste, observou-se que a redução da ingestão de gordura saturada provavelmente diminui os eventos cardiovasculares combinados, com redução relativa de 17% (evidência moderada). Esse efeito foi mais pronunciado quando houve maior redução do colesterol, e permaneceu em análises que excluíram ensaios com intervenções dietéticas adicionais.

Nas análises por subgrupos, a substituição por gorduras poli-insaturadas foi associada à maior redução de eventos (21%), seguida por carboidratos (16%), enquanto a substituição por gorduras monoinsaturadas apresentou efeito incerto. A redução do colesterol total explicou praticamente toda a variação entre os estudos.

Como conclusão, os autores sugerem que a redução da ingestão de gordura saturada resulta em uma diminuição potencialmente relevante dos eventos cardiovasculares combinados. A substituição da energia proveniente da gordura saturada por gordura poli-insaturada ou por carboidratos parece ser uma estratégia útil, enquanto os efeitos da substituição por gordura monoinsaturada permanecem incertos.

Entre as limitações, além da ausência de cegamento e da heterogeneidade entre os estudos, destaca-se o uso predominante de aconselhamento dietético como intervenção, o que pode introduzir efeitos não específicos, como maior contato com profissionais de saúde ou mudanças comportamentais adicionais (afetando, por exemplo, atividade física, tabagismo, consumo de álcool).

Em consonância com esses achados, a revisão Effect of reducing saturated fat intake on cardiovascular disease in adults: an umbrella review avaliou se a redução do consumo de gorduras saturadas influencia doenças cardiovasculares, mortalidade e outros desfechos em adultos.

Foram analisadas 21 metanálises, totalizando 125 estudos. Dentre elas, três incluíam exclusivamente ensaios clínicos randomizados, abrangendo amostras entre 663 e 56.000 participantes, com seguimento de 3 a 9 anos; apenas uma foi classificada como de alta qualidade. Essas metanálises relataram 45 associações potenciais, das quais 15 foram estatisticamente significativas.

Os resultados provenientes dos RCTs indicaram que a redução da ingestão de gorduras saturadas está associada a uma diminuição de 21% nos eventos cardiovasculares combinados (certeza moderada de evidência). Em contrapartida, não foram observados efeitos consistentes sobre mortalidade por todas as causas, mortalidade cardiovascular, mortalidade por câncer ou eventos cardiovasculares isolados, como AVC e infarto do miocárdio.

Os autores concluem que a redução da ingestão de gorduras saturadas provavelmente diminui a incidência de eventos cardiovasculares, mas exerce pouco ou nenhum efeito sobre a mortalidade cardiovascular ou por outras causas.

Entre as principais limitações, destaca-se a baixa qualidade metodológica da maioria das evidências, com problemas recorrentes de cegamento, alocação, imprecisão e viés, o que impede inferir causalidade com alto grau de confiança e abre espaço para confundimento residual.

Tudo isso deixa claro que o "padrão-ouro da ciência" alardeado pelos novos gestores da saúde nos EUA é, na prática, um verniz para uma agenda reacionária que flerta com o negacionismo científico. O discurso se vende como libertação de dogmas e conflitos de interesse, mas se sustenta em distorções, meias-verdades e bravatas embaladas para agradar à base do MAHA — desde que soe "contra a indústria farmacêutica e alimentícia".

 

Mauro Proença é nutricionista

 

REFERÊNCIAS

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