
No ano passado, o Journal of Anomalous Experience and Cognition publicou um artigo (Cozzolino et al., 2025) sobre as características que os chamados “casos do tipo reencarnação” (cases of the reincarnation type, CORT) que manifestam xenoglossia tinham em comum. Em outras palavras, os autores avaliaram casos de crianças que (a) supostamente se lembravam de vidas passadas e (b) supostamente falavam línguas estrangeiras à sua cultura, sem nunca terem tido a oportunidade de aprendê-las (“xenoglossia” significa, literalmente, “falar em língua estrangeira”).
Ao comparar esses casos com os de crianças que supostamente “apenas” se lembravam de vidas passadas, sem o acréscimo da língua estrangeira, o estudo identificou algumas distinções que os pesquisadores consideraram sugestivas, incluindo emoções intensas e alegações de morte violenta na encarnação anterior. Tudo muito bom e muito interessante, mas então, depois de várias páginas e muitos malabarismos estatísticos, encontramos a admissão de que “a natureza retrospectiva do banco de dados nos impede de validar a existência real da xenoglossia”.
Ou seja: estavam analisando as características de um fenômeno antes de ter o cuidado de averiguar se o fenômeno existe. Trata-se de uma violação flagrante do Imperativo Categórico de Hyman, assim chamado em referência ao psicólogo e pesquisador cético do paranormal Ray Hyman: “Não tente explicar algo antes de ter certeza de que há algo a ser explicado”. Em seguida, os pesquisadores passam a lançar suposições:
“Se esses casos de xenoglossia fossem simplesmente o resultado de ruído, fraude e/ou exagero (para citar apenas algumas causas não sistemáticas), esperaríamos encontrá-los distribuídos aleatoriamente no banco de dados, sem qualquer evidência coerente que os ligasse entre si”.
Pode-se ser caridoso e dizer que eles estão fazendo suposições sobre alegações de xenoglossia, e não sobre a coisa em si, mas isso apenas adiciona uma nova camada de possíveis (e prováveis) fatores de confusão: a própria natureza dessas alegações é bastante complexa.
Foi o psiquiatra canadense Ian Stevenson (1918–2007) quem popularizou o estudo de CORT em crianças muito pequenas. Esses casos parecem vantajosos por uma série de razões: se a reencarnação realmente ocorre, seria de se esperar que as memórias de uma vida anterior — caso sejam transmitidas de uma encarnação a outra — ainda estivessem “frescas” na mente recém-nascida; e a criança supostamente ainda não teve experiência de vida suficiente para sofrer influência cultural do meio ou para ser vítima de criptomnésia (ter um conhecimento sem se lembrar de como ele foi adquirido).
As desvantagens, no entanto, são tão grandes ou maiores, ainda que menos óbvias. Primeiro, declarações feitas por crianças pequenas quase inevitavelmente exigem interpretação por parte dos pais, que podem estar culturalmente predispostos a enxergar certos comportamentos infantis como sinais de reencarnação. Além disso, crianças, mesmo as muito pequenas, são bastante vulneráveis a condicionamento. Têm um desejo instintivo de atrair a atenção e o carinho dos adultos e estão sempre atentas a pistas e sinais inconscientes sobre o que se espera delas.
No fim das contas, esse tipo de estudo é realizado não para testar hipóteses, mas para dar um verniz de respeitabilidade científica a algo — uma crença ou ideia — pela qual os pesquisadores sentem especial carinho. Isso é uma marca registrada de quase toda a chamada “ciência da espiritualidade”, seja no que diz respeito à reencarnação, à comunicação mediúnica ou aos supostos benefícios das crenças espirituais para a saúde.
Seria interessante ver pesquisas sobre por que surge essa necessidade de “cientificar” o sobrenatural. As religiões tradicionais frequentemente enfatizam que a fé basta, ou deveria bastar. Talvez algumas pessoas sintam-se, ao mesmo tempo, incomodadas demais pelos argumentos sobre a inadequação epistêmica da fé (acreditar na ausência de, ou apesar de, evidências empíricas) e emocionalmente comprometidas demais com crenças que, no fim, jamais poderão basear-se em qualquer coisa além de fé.
Falando de modo mais cínico, do ponto de vista do proselitismo, dar a impressão de ter a “ciência” ao seu lado pode ser um grande bônus, já que resultados científicos sólidos têm validade universal — algo que nenhuma fé específica pode reivindicar de forma plausível: é por isso que ninguém nega a gravidade, enquanto a Imaculada Conceição precisa ser um dogma. Na sociedade moderna, coisas que conseguem se impor ao imaginário público como “científicas” (se com ou sem mérito, é outra história) exigem atenção. Um artigo recente em The Atlantic cunhou o termo sciencewashing (algo como “lavagem científica”) para se referir ao uso de “cientifiquês” em mensagens publicitárias.
Pode-se argumentar que o sciencewashing da espiritualidade vem ocorrendo há muito mais tempo do que o dos produtos de consumo. Mas ele não é apenas intrinsecamente desonesto — reduz a ciência a ferramenta retórica, faz propaganda enquanto simula curiosidade — como também desperdiça recursos escassos: verba de pesquisa (no Brasil, dinheiro de impostos), tempo e a atenção da academia e do público.
Tentar dar um basta a isso pode ser contraproducente, dadas as possíveis implicações para a liberdade acadêmica, mas uma crítica mais vocal, principalmente aos aspectos metodológicos e pressupostos metafísicos, certamente faz falta. O registro público deveria refletir mais do que o desprezo silencioso de quem realmente entende de ciência. O silêncio, afinal, pode muito bem ser interpretado como endosso.
Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), obra ganhadora do Prêmio Jabuti, "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares) e "Que Bobagem!" (Editora Contexto). Uma versão anterior deste artigo foi publicada em https://carlosorsi.substack.com
