
“A astrologia é a porta de entrada das pseudociências”. A frase, muito ouvida e repetida no meio do ceticismo e da defesa do pensamento crítico, pode soar como uma brincadeira, mas também é uma constatação de como a crença de que a configuração do céu afeta eventos terrenos está entranhada em culturas mundo afora. Obcecados por encontrar padrões em tudo e assombrados pela incerteza, buscávamos, no alto, a explicação para o que víamos abaixo do firmamento, ou previsões para o que temíamos ou gostaríamos que viesse a acontecer.
Atração que se mantém forte até hoje, como mostram duas pesquisas recentes que traçaram perfis dos americanos adeptos da astrologia e os usos que fazem dela. A primeira, um levantamento do Pew Research Center, mostrou que 28% dos americanos fazem uma consulta astrológica ou conferem seu horóscopo pelo menos uma vez ao ano, com 5% relatando fazer isso semanalmente. Além disso, 27% reconheceram acreditar em astrologia.
Esta crença, no entanto, varia muito de acordo com fatores demográficos. Segundo a pesquisa, mulheres jovens adultas são as que proporcionalmente mais expressam acreditar em astrologia e consultar suas previsões, indo de 43% das americanas entre 18 e 49 anos para 27% delas com mais de 50 anos. Já entre os homens, 20% dos americanos entre 18 e 49 anos disseram acreditar em astrologia, e 16% dos com mais de 50. A população LGBT americana também se mostrou a mais crédula, com 54% consultando astrologia ou horóscopo anualmente (quase o dobro da média geral de 28%), e as mulheres LGBT também superando os homens LGBT - 63% contra 40%.
Já no recorte étnico, negros (37%) e hispânicos (32%) americanos acreditam mais em astrologia do que brancos (24%) e asiáticos (25%). Surpreende ainda o forte crescimento da crença em astrologia entre os americanos que se dizem ateus desde a pesquisa anterior da Pew sobre o tema, realizada em 2017. Se então apenas 3% diziam acreditar na influência dos astros em eventos terrenos, agora são 13%. Ainda assim, eles são menos crédulos do que cristãos em geral (25%), protestantes (24%) e católicos (29%) em particular, e judeus (18%), além de agnósticos (20%) e os que não seguem nenhuma religião em especial (36%).
Quanto ao posicionamento político, a astrologia tem mais crentes entre os americanos que se dizem “moderados” (32%), seguidos pelos “liberais” (29%) e, bem atrás, os “conservadores” (20%). Em relação ao nível educacional, a crença é maior entre os que têm até o ensino médio (31%), caindo significativamente para os com ensino superior ou além (20%).
Tendências que se repetem quando a questão é efetivamente consultar astrologia ou horóscopo. Mais uma vez, a proporção das mulheres americanas que relatam fazer isso pelo menos uma ou duas vezes por ano (37%) é quase o dobro da dos homens (19%), sendo também um hábito mais frequente entre os mais jovens – 37% dos americanos com 18 a 29 anos – do que os mais velhos – 25% na faixa etária entre 50 e 64 anos e 20% entre os com mais de 64; entre os integrantes da comunidade LGBT (54%) do que os não LGBT (26%); entre os “liberais” (36%) do que “moderados” (31%) e “conservadores” (20%); e negros (36%) e hispânicos (33%) do que brancos (25%).
Apesar disso, a maior parte dos 30% dos americanos que disseram consultar astrologia e outras práticas divinatórias – a pesquisa Pew também abrangeu consultas de tarô e com adivinhos – contou o fazer “mais por diversão” (20% do total) do que em busca de insights pessoais ou informações para tomada de decisões (10%). Para este último subgrupo, o levantamento incluiu pergunta sobre o quanto se baseiam nestas práticas para sua tomada de decisões, com 7% dos americanos admitindo pelo menos “um pouco”, e 1% “muito”.
Relação íntima e contraditória
A segunda pesquisa, por sua vez, além de um levantamento quantitativo incluiu uma parte qualitativa - com entrevistas tanto com leigos da população em geral quanto com astrólogos profissionais e seus clientes - que aprofundou os questionamentos sobre os usos que os americanos fazem da prática. Publicado no periódico Social Currents, o estudo revelou um forte apelo da astrologia entre o público americano nestes tempos de rápidas mudanças nas relações sociais e de aumento da incerteza quanto ao futuro, especialmente entre os mais jovens, numa relação íntima, mas também contraditória.
Na parte quantitativa do estudo, os resultados não foram muito diferentes da pesquisa da Pew - que inclusive foi uma das compiladas, junto com outras bases de dados mais amplas. A principal delas traz as respostas dos entrevistados a uma questão sobre se já haviam lido o seu horóscopo ou um relatório astrológico pessoal, feita em uma série de seis pesquisas com amostras representativas da sociedade americana chamada General Social Survey (GSS), conduzidas nos EUA entre 2008 e 2018, além de três perguntas relativas ao assunto na pesquisa Enchanted Worldview Survey, conduzida em 2021 pelo National Opinion Research Center (NORC), da Universidade de Chicago.
No caso da GSS, o agregado das seis pesquisas indica que cerca de 46,3% dos americanos já haviam consultado um horóscopo ou um mapa astral no período, numa proporção maior entre as mulheres (55%) do que entre os homens (35,7%). Por faixa etária, os números também foram descendentes dos mais jovens – 52,9% para os americanos de 18 a 24 anos – até os mais velhos – 41,37% nos com mais de 70 anos, enquanto no recorte por orientação sexual a maior proporção foi entre os que se declararam bissexuais (63,4%), seguidos por gays e lésbicas (61,8%) e heterossexuais (48,2%).
Na Enchanted Worldview Survey, por sua vez, cerca de 16,2% dos americanos relataram consultar o horóscopo regularmente ou de vez em quando para ter uma ideia sobre o curso de suas vidas, enquanto 21,4% disseram fazer isso “raramente” e 62,4% “nunca”. Já quanto à afirmação de que a astrologia é uma maneira acurada de prever o futuro, 11,7% disseram concordar, 25,7% nem concordar nem discordar e 62,7% discordaram. Por fim, 7,6% concordaram que o horóscopo pode indicar com precisão o futuro de uma pessoa, 19,7% nem concordaram nem discordaram, e 72,7% discordaram.
Enquanto isso, a seção qualitativa do estudo observou contradições entre discurso e comportamento dos americanos leigos com relação à astrologia, mas também uma conexão íntima e até espiritual com a prática, tanto neste grupo quanto entre os profissionais e seus clientes. Os pesquisadores relatam que em uma amostra de 31 adultos da população em geral, quase todos contaram conhecer a prática e foram capazes de identificar e nomear seu signo “astrológico” ou “solar”. Destes, a maioria associou a astrologia a autoconhecimento e categorização, considerando que seus signos lhes deram noções sobre sua personalidade, comportamento ou natureza.
O “consenso”, no entanto, parou por aí. Os entrevistados se dividiram sobre a crença na astrologia e em como se engajam com, e a usam. Alguns respondentes disseram que, embora concordem que os signos podem fornecer informações sobre personalidade ou tendências e traços de caráter, com afirmações como “têm a ver com o jeito que você é”, repudiam qualquer tipo de determinismo, vendo a prática mais como da alçada da fé do que do fato.
“De forma alguma acho que seja um fato científico, algo como ‘todos virginianos são desse jeito e tal’, ou ‘todos taurinos são assim’. Já notei muitas similaridades, o que é realmente interessante, mas acho que ela (a astrologia) é tipo uma pseudociência”, disse aos pesquisadores um deles, um professor que declarou ser familiarizado e interessado em astrologia.
A mesma visão contraditória apareceu com a suposta capacidade divinatória da astrologia, apontam os autores. Um entrevistado, por exemplo, destacou que “o alinhamento das estrelas e planetas pode afetar o humor e a personalidade de uma pessoa”, mas nenhum deles disse ver a astrologia ou os horóscopos como preditivos. Assim, eles avaliam que, para os americanos em geral, a astrologia funciona mais como um instrumento de identidade e autodescoberta em linha com testes psicométricos de personalidade do tipo Myers-Briggs (este mesmo objeto de críticas por produzir um “horóscopo das siglas”) do que um sistema de crenças ou ferramenta decisória, que pode explicar, ao menos em parte, sua popularidade.
Entre os profissionais e seus clientes, no entanto, o cenário muda. Para eles, a astrologia trata menos de rótulos e é mais um guia que ajuda na tomada de decisões, particularmente na escolha de momentos apropriados, e uma abordagem que amplia o entendimento e a confiança em uma ampla gama de contextos. Todos os cinco astrólogos ouvidos também conectam a astrologia à espiritualidade, muitos deles engajados em outras práticas do tipo “Nova Era”, como leituras de tarô.
Os astrólogos profissionais também criticaram o uso “raso” da astrologia pela mídia, muitas vezes mostrada como algo que “diz o que as pessoas querem ouvir”, e descrevendo os horóscopos como uma “astrologia falsa” e “inútil”. Segundo eles, a “verdadeira astrologia” significa entender mapas de nascimento, a história da prática e analisar cuidadosamente os movimentos planetários e seus efeitos. “A astrologia real é uma ferramenta divinatória que ajuda você a se preparar para as coisas à medida que os planetas se movem e mudam, pois tudo tem um efeito”, disse um deles.
E embora nenhum dos profissionais e seus clientes também tivesse uma visão determinista da astrologia, muitos relataram usá-la como auxiliar na tomada de decisões, desde triviais, como para quando agendar a visita de um encanador, até mais significativas, como mudar de residência ou de emprego. Um dos profissionais ouvidos, que também atua como “conselheiro espiritual”, comparou a astrologia a uma terapia em termos de ajudar as pessoas a “navegar situações complexas e estressantes”, acrescentando que a prática dá a ele e seus consulentes a confiança necessária para decisões sobre relações e outros aspectos da vida.
Um sistema “gentil”
Diante disso, os pesquisadores concluem que a astrologia tem um papel paradoxal na vida pública moderna, em que ao mesmo tempo que é uma indústria bilionária - um relatório calcula que só os americanos gastam US$ 2,2 bilhões (cerca de R$ 10,6 bilhões) por ano com “serviços místicos” (que incluem astrólogos e aplicativos de astrologia, além de consultas de tarô, cartomantes e leitura de mãos, entre outras práticas do tipo) – se apresenta como uma alternativa “espiritual” ao racionalismo e materialismo modernos.
“Nossos achados sugerem que a astrologia oferece uma abordagem individual e individualizada para entender a vida social nos EUA ao lado de outros ‘sistemas’ e ‘soluções’ culturais”, destacam. “Ao mesmo tempo, a astrologia parece oferecer um contrapeso às interações transacionais e sem emoção da vida cotidiana: uma saída mais ‘gentil’ para o desenvolvimento pessoal”.
Segundo eles, a astrologia faz isso ao fornecer uma maneira de categorizar sem a hierarquização e a quantificação que marcam nossa obsessão moderna de medir e ranquear tudo, “inclusive o bem-estar”.
“A astrologia, mesmo no seu uso mais casual – em que certos traços ou características são associados a qualidades ou tendências em particular – ainda pressupõe uma categorização mais nominal do que ordinal”, consideram. “Ao fazer isso, a astrologia parece oferecer uma solução multidimensional – ainda que algumas vezes autocontraditória – como fonte de autoconhecimento, frequentemente enquadrado em termos tipológicos ou arquetípicos, além de uma ferramenta para tomada de decisões e ações prospectivas, e uma oportunidade de reflexão que explica ou justifica alguns ‘traços’ fixos, enquanto também dá flexibilidade para a direção e momento em torno de decisões, mudanças, autoaperfeiçoamento e autorrealização dentro de certos limites”.
Cesar Baima é jornalista e editor-assistente da Revista Questão de Ciência
