Espantalhos retóricos e intimidação na universidade pública

Artigo
13 mar 2026
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Quem acompanha o dia a dia das universidades deve ter percebido que se tornou frequente a ida de políticos de direita a universidades públicas para provocar estudantes e professores em ambientes dominados culturalmente pela esquerda. No início do mês, o vereador Lucas Pavanato montou uma tenda na USP com uma placa afirmando que “aborto é assassinato”. O método remete ao ativista americano Charlie Kirk, assassinado em setembro de 2025, que transformou campi universitários em palco de embates políticos sobre temas polêmicos – justamente em lugares onde o debate deveria ser natural. Kirk foi assassinado; Pavanato, expulso da USP aos gritos de “recua, fascista, recua!”.

Quem olha de fora e vê, de um lado, uma pessoa sentada com um microfone, ainda que proferindo provocações, e, do outro, estudantes com um porrete em que se lê “dialogo” [sic], cuspindo e destruindo a barraca, a impressão é a de que a palavra “fascista” não está bem colocada pelos universitários, já que os próprios estudantes recorrem a métodos de intimidação e supressão do dissenso típicos daquilo que dizem combater. Este artigo, portanto, vai tratar de alguns termos que foram açambarcados por militantes dentro da comunidade universitária e acabam utilizados de modo inapropriado.

O primeiro é a palavra “fascista”. Embora não haja uma definição única de “fascismo”, o conceito histórico é associado a movimentos do século 20 que compartilham traços relativamente reconhecíveis – como ultranacionalismo, culto ao líder, subordinação do indivíduo à coletividade e legitimação da violência política contra adversários ou inimigos internos. No uso corrente, porém, o termo foi banalizado e passou a designar qualquer pessoa que questione alguma pauta dita “progressista”. Embora essa banalização tenha assumido grandes proporções, o fenômeno não é novo: em 1946, George Orwell observava que a palavra era usada como sinônimo de “indesejável”. Nessas condições, o conceito perde utilidade quando é aplicado indistintamente por acadêmicos e jornalistas a atitudes com que apenas não concordam.

Antes de “fascista”, a palavra da moda era “negacionista”. Apesar do seu uso ter diminuído, ela não despareceu por completo. Um comentário publicado na página do Facebook sobre o artigo “O problema da percepção pública da universidade pública” afirmava que “queremos esses negacionistas longe da universidade pública mesmo”, em referência à família do ex-jogador Túlio Maravilha, que declarou não pretender cursar uma universidade pública por fatores associados a costumes, ideologia e problemas de infraestrutura.

A palavra “negacionismo” foi integrada ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 2021. A ABL a define como “atitude tendenciosa que consiste na recusa a aceitar a existência, a validade ou a verdade de algo, como eventos históricos ou fatos científicos, apesar das evidências ou dos argumentos que o comprovam”.

Não concordar com ideologias e manifestações políticas de um determinado grupo, ou prevalentes em determinado local, não caracteriza negacionismo, pois isso relaciona-se aos costumes e opiniões sobre direcionamentos políticos – não existe um único caminho correto. No exemplo da filha do ex-jogador, negacionismo seria negar que universidades públicas apresentam problemas de infraestrutura ou negar a existência de episódios de censura, intimidação e desrespeito institucional a posições politicamente diversas.

Uma outra palavra que está na moda é “território”. O termo é normalmente empregado em contextos geopolíticos ou em situações que envolvem domínio, posse e soberania. Utilizá-lo no ambiente universitário desloca seu sentido próprio e introduz uma lógica de ocupação e disputa que nada acrescenta ao debate acadêmico. Nesse contexto, seu emprego deixa o discurso carregado, com conotações de apropriação, exclusão e conflito, aproximando a imagem da instituição da de uma ONG ativista e alimentando, em parte da sociedade, a impressão de que a universidade deixou de ser um espaço acadêmico para se tornar um lugar de militância.

O último conceito que tem aparecido com frequência é o Paradoxo da Tolerância, do filósofo Karl Popper. Normalmente, esse enunciado é citado de maneira truncada (ou reduzido a um meme) para justificar algum tipo de repressão violenta, como impedir que um convidado ministre uma palestra na universidade simplesmente porque suas ideias não coincidem com as crenças de determinado grupo. O trecho em questão está na nota 4 do capítulo 7 do primeiro volume de A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos, "O Fascínio de Platão":

“Menos conhecido é o paradoxo da tolerância: a tolerância ilimitada pode levar ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada até àqueles que são intolerantes; se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra os ataques dos intolerantes, o resultado será a destruição dos tolerantes e, com eles, da tolerância. — Nesta formulação, não quero implicar, por exemplo, que devamos sempre suprimir a manifestação de filosofias intolerantes; enquanto pudermos contrapor a elas a argumentação racional e mantê-las controladas pela opinião pública, a supressão seria por certo pouquíssimo sábia. Mas deveríamos proclamar o direito de suprimi-las, se necessário mesmo pela força, pois bem pode suceder que não estejam preparadas para se opor a nós no terreno dos argumentos racionais e sim que, ao contrário, comecem por denunciar qualquer argumentação; assim, podem proibir seus adeptos, por exemplo, de dar ouvidos aos argumentos racionais por serem enganosos, ensinando-os a responder aos argumentos por meio de punhos e pistolas. Deveremos então reclamar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar os intolerantes. Deveremos exigir que todo movimento que pregue a intolerância fique à margem da lei e que se considere criminosa qualquer incitação à intolerância e à perseguição, do mesmo modo que no caso da incitação ao homicídio, ao sequestro de crianças ou à revivescência do tráfico de escravos”.

Popper não defende a supressão de falas apenas por serem ofensivas ou somente por não se alinharem a uma ortodoxia ideológica. Enquanto puderem ser enfrentadas por argumentação racional, suprimi-las é imprudente. O limite, para ele, surge quando o intolerante abandona o debate racional e passa ao nível de “punhos e pistolas”.

Constatar que boa parte do uso inadequado de palavras e conceitos sirva para calar dissidências e, mais ainda, venha de pessoas ligadas às universidades contraria o que se espera de um meio que se apresenta como defensor da democracia e interessado em se aproximar do público externo. Ainda que, na arena das disputas políticas, a racionalidade seja frequentemente deixada de lado, deveria ser possível encontrar um ponto de equilíbrio entre o academicismo hermético e a militância escancarada.

Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência

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