A origem imperfeita do voo

Artigo
21 abr 2026
Imagem
impressão de libélula

Poucos confrontos são tão desiguais quanto o braço humano contra as moscas. Séculos de tentativas frustradas de acertá-las com chinelos atestam a agilidade quase inacreditável desses seres. Num instante, uma mosca muda de direção, sobe, desce, gira— tudo em pleno ar.

Para controlar esse voo acrobático, com estabilidade e manobrabilidade em três eixos, esperaríamos uma central motora digna de um avião: uma orquestra de músculos, sensores e comandos. A ironia evolutiva é outra. A mosca-das-frutas — aquela famosa mosquinha doméstica, a Drosophila — realiza todas essas manobras com apenas doze músculos, cada um comandado por um único neurônio motor.

Há décadas, esse contraste entre simplicidade e precisão intriga neuro-etologistas, pesquisadores que estudam como o sistema nervoso controla o comportamento dos animais, com ênfase nos contextos evolutivos e ecológicos. O segredo, porém, não está na perfeição do projeto, mas em sua origem — um caso exemplar de bricolagem biológica.

 

Peças sobressalentes

O voo foi uma das grandes invenções da vida. Graças a ele, os insetos conquistaram o planeta — cruzaram rios, montanhas e desertos. Voar significava escapar de predadores, alcançar novos alimentos, encontrar parceiros e se espalhar por todos os cantos.

Foram os primeiros animais a dominar o voo autopropelido (que acontece por esforço e com controle próprio em vez de, por exemplo, o animal apenas deixar-se carregar pelo vento) e, ao que tudo indica, essa capacidade surgiu apenas uma vez entre os insetos — todos os alados descendem de um mesmo ancestral com asas funcionais. Uma única centelha evolutiva gerou um império de asas. Não surpreende, portanto, que sua origem tenha sido tratada, durante mais de um século, como um dos grandes enigmas da biologia — do tipo que Darwin chamaria de “mistério abominável”.

No fim do século 19, laboratórios de Cambridge, Harvard e Leipzig trocavam cartas inflamadas sobre o assunto. A origem das asas dividia naturalistas como Carl Gegenbaur, Alpheus Packard e Anton Dohrn, que desenhavam diagramas e dissecavam besouros com a mesma paixão com que pintores discutiam cor e luz.

As discussões atravessaram o tempo. Durante boa parte do século 20, o debate continuou, alimentado por novas descobertas anatômicas e fósseis que apenas reacendiam a velha rivalidade. Um campo defendia que as asas surgiram de extensões dorsais do corpo — pequenas placas rígidas sobre o tórax, chamadas paranota. O outro jurava que elas vieram das paredes laterais — pleuras —, possivelmente derivadas de brânquias traqueais móveis.

A paleontologia e a genômica modernas trouxeram uma resposta engenhosa: a hipótese de que ambas as regiões haviam contribuído para a formação das asas. O corpo principal teria origem dorsal; o mecanismo de articulação, lateral. A evolução, portanto, não construiu o voo a partir do zero. Ela usou peças que já estavam disponíveis. Cada parte tinha uma função antiga, mas, combinadas, tornaram-se algo novo — bom o suficiente para alçar o primeiro voo.

 

O enigma dos fósseis alados

Quando os primeiros fósseis de insetos alados apareceram, no fim do século 19, os cientistas acharam que tinham encontrado a chave do enigma. As formas petrificadas mostravam asas largas e nervuradas, com uma arquitetura tão intrincada que parecia impossível imaginar um estágio prévio. Foi o início de uma controvérsia que atravessaria gerações: as asas haviam sido uma invenção nova da natureza, algo nunca antes visto, ou uma reciclagem engenhosa de partes antigas?

De um lado estavam os que defendiam a Teoria do Paranoto — a ideia de que as asas surgiram a partir de extensões dorsais do tórax, pequenas “prateleiras” rígidas que, com o tempo, teriam se articulado e ganhado músculos. Do outro, os partidários da Teoria das Brânquias Traqueais, que imaginavam as asas como descendentes de brânquias móveis usadas por ancestrais aquáticos para respirar e nadar.

A disputa ganhou combustível com os fósseis de um grupo extinto, os Palaeodictyoptera, considerados os primeiros insetos alados. Suas asas apareciam no segundo e no terceiro segmentos do tórax — mas, curiosamente, eles também exibiam lóbulos laterais no primeiro segmento, o protórax. Esses lóbulos, fundidos ao dorso e atravessados por nervuras, pareciam reforçar a teoria dorsal.

Durante décadas, essa evidência dominou manuais e museus. Numa vitrine do Museu de História Natural de Londres, os visitantes podiam ver um exemplar de Lithomantis carbonarius, asas esticadas e finas como papel vegetal. A versão “paranotal” soava mais elegante, mais fácil de imaginar: asas que nascem como prolongamentos do corpo e depois se soltam para voar. Mas, no fundo, ninguém estava satisfeito. Havia algo de artificial em uma teoria que explicava o voo a partir de uma estrutura que nunca havia se movido.

O impasse parecia insolúvel — até que uma nova geração de cientistas começou a olhar para outro lugar: não para os adultos fossilizados, mas para os jovens, para as ninfas. Foi então que a história do voo tomou outro rumo.

A descoberta das ninfas

A resposta veio, como tantas vezes acontece na ciência, de onde ninguém esperava: das criaturas jovens. Por mais de um século, o debate sobre a origem das asas concentrou-se em fósseis adultos — corpos inteiros transformados em pedra. Mas foi olhando para os estágios imaturos — ninfas fossilizadas de insetos extintos — que os cientistas começaram a ver o que antes estava escondido.

Entre eles estava o paleontólogo tcheco Jakub Prokop, que, em um laboratório de Praga, examinava pequenas lascas de xisto (uma rocha sedimentar fina, onde fósseis se preservam) com a paciência de um relojoeiro. Nas superfícies amareladas, sob a lente de aumento, apareciam ninfas de Palaeodictyoptera preservadas em detalhe surpreendente — asas em miniatura, dobradas, fundidas parcialmente ao corpo.

Os espécimes, com nomes que soam quase mitológicos — Idoptilus onisciformis, Rochdalia parkeri —, guardavam a história do primeiro voo, antes de o voo existir.

Com o auxílio de microtomografias e comparações genéticas modernas, a equipe de Prokop demonstrou que as asas não pertenciam a um único tecido, mas resultavam de uma fusão engenhosa: o corpo principal vinha da parte dorsal do tórax (notum), enquanto a dobradiça e a musculatura de controle tinham origem lateral (pleura). A natureza, mais uma vez, não havia criado nada do zero — apenas adaptado e reciclado.

Nas ninfas, as asas ainda não se moviam livremente; eram placas articuladas, fundidas ao dorso, o esboço das estruturas presentes nos insetos modernos. Esses rascunhos podiam servir para captar calor, ou planar curtas distâncias. Não eram estruturas perfeitas, mas eram boas o suficiente — e, na linguagem da evolução, “bom o suficiente” é tudo o que se precisa para continuar existindo.

A partir desses fósseis infantis, o quadro enfim ganhou contorno. O voo dos insetos não nasceu de um projeto novo, mas de uma bricolagem acumulada — pedaços antigos reencaixados até ganharem novos propósitos. Uma dobra, um músculo, uma membrana a mais, e o chão deixou de ser o limite.

As primeiras asas

Devido à fusão proeminente com o notum — o dorso torácico — e à limitada capacidade de movimento, as almofadas alares das ninfas de Palaeodictyoptera eram funcionalmente incapazes de realizar voo ativo. Não eram, nem de longe, asas perfeitas.

Mas se não voavam, para que serviam?

Os paleontólogos suspeitam que essas superfícies estendidas foram cooptadas para outras funções, um caso clássico do que a biologia evolutiva chama de exaptação — quando uma estrutura adquire um novo papel evolutivo.

Uma das hipóteses mais aceitas é a da termorregulação: uma área de superfície maior permitiria ao inseto absorver calor mais rapidamente ao se aquecer ao sol, o que o tornaria mais ativo e competitivo. Outra hipótese sugere que essas estruturas funcionavam como planadores rudimentares. Lóbulos estendidos e levemente articulados permitiriam pequenos deslizamentos pelo ar — uma fuga providencial de predadores ou uma forma simples de dispersão entre micro-hábitats próximos.

Essas almofadas não eram belas nem precisas, mas cumpriam um papel.

A última peça

Nos últimos anos, novas descobertas ampliaram ainda mais o quadro. Em 2022, o próprio Prokop e seus colegas identificaram, em fósseis de ninfas de Palaeodictyoptera, um conjunto de extensões laterais no abdome — pequenas abas articuladas conhecidas como flaps. Essas estruturas tinham suprimento de hemolinfa, o “sangue” dos insetos, e apresentavam articulações móveis, o que indica que não eram simples projeções da carapaça, mas apêndices vivos, capazes de se mover.

A equipe concluiu que esses flaps eram homólogos seriais das asas — versões repetidas de um mesmo padrão corporal que, ao longo do tempo, foram sendo modificadas e especializadas. Com isso, os insetos primitivos contavam com um verdadeiro kit de controle de voo: lóbulos torácicos que ajudavam a planar, flaps abdominais que funcionavam como lemes laterais e antenas e filamentos caudais que estabilizavam o corpo no ar.

Nenhuma dessas partes, isoladamente, poderia sustentar o voo. Mas juntas, formavam um sistema funcional — uma soma de imperfeições que, combinadas, geraram uma nova capacidade.

Foi assim que a natureza construiu o primeiro corpo capaz de manobrar no ar: adaptando superfícies, dobradiças e músculos já existentes até que o espaço aberto deixasse de ser obstáculo e se tornasse caminho.

Felipe Novaes é psicólogo e professor da PUC-Rio. Divulga o melhor da psicologia científica no Garagem Psi. Atua no cruzamento entre ciência, filosofia e cultura, onde dados e mitos se estranham com frequência. Interessa-se por psicologia evolucionista, história das ideias e pela tensão entre razão e pertencimento em tempos de algoritmo

Sua Questão

Envie suas dúvidas, sugestões, críticas, elogios e também perguntas para o "Questionador Questionado" no formulário abaixo:

Ao informar meus dados, eu concordo com a Política de Privacidade.
Digite o texto conforme a imagem

Atendimento à imprensa

Harmonic AG 

11 99256-7749  |  andre@harmonicag.com.br