Desafiando o conceito de inteligência geral

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25 mai 2026
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jogo da velha heterodoxo

 

Em um dos textos anteriores desta série, falamos de Howard Gardner, o dissidente mais popular da psicologia da inteligência. Sua teoria das inteligências múltiplas, embora sem apoio empírico robusto, entrou no imaginário educacional porque oferecia uma promessa sedutora: ninguém seria propriamente “menos inteligente”, apenas inteligente de outro modo.

Mas Gardner não foi o único. Talvez tenha sido apenas o mais conhecido.

Outro crítico persistente da inteligência geral foi Robert Sternberg. Ao longo de décadas, ele se tornou uma das vozes institucionais da resistência ao QI: publicou livros, propôs modelos alternativos, criticou a psicometria clássica, ocupou cargos de prestígio e ajudou a moldar o debate sobre o que significa “ser inteligente”.

Por que tanto esforço para escapar do fator g? No caso de Sternberg, a oposição foi mais sofisticada que a de Gardner, mas partia do mesmo desconforto: a dificuldade de aceitar uma inteligência geral que pode ser medida de forma a gerar previsões – sobre chances de sucesso profissional e educacional, por exemplo – e distribuída de forma desigual na população.

O dissidente institucional

Em uma breve autobiografia intelectual publicada em Gifted Child Quarterly, Robert Sternberg narra uma lembrança que parece conter, em miniatura, todo o drama posterior de sua obra: quando criança, ia mal em testes de inteligência, ficava ansioso, sentia que havia algo errado com ele — até criar, aos oito anos, seu próprio teste para provar que os instrumentos talvez não capturassem tudo o que importava.

Sua Teoria Triárquica da Inteligência (1985) dividiu a mente em três dimensões — analítica, criativa e prática. Mais tarde, esse projeto reapareceria em modelos como o WICS — sigla para Wisdom, Intelligence, and Creativity Synthesized —, no qual Sternberg tentou integrar inteligência, criatividade e sabedoria em uma concepção mais ampla de competência humana. Depois veio a inteligência bem-sucedida: a ideia de que ser inteligente não é apenas resolver problemas abstratos, mas alcançar objetivos relevantes na vida real, dentro de determinado contexto cultural, equilibrando habilidades analíticas, criativas e práticas. O padrão, porém, permanecia o mesmo: Sternberg expandia o conceito de inteligência para aproximá-lo daquilo que intuitivamente valorizamos em pessoas competentes — adaptação, inventividade, julgamento, senso prático — e para afastá-lo da imagem estreita do desempenho em testes.

O problema surgia quando essas ideias encontravam a psicometria. Em avaliações independentes, as dimensões propostas não se mostravam tão separáveis quanto a teoria sugeria; muitas vezes pareciam acrescentar pouco ao que o fator g já explicava. A inteligência prática e a criativa não demonstravam validade incremental robusta acima do g, e algumas baterias de testes baseadas na teoria triárquica mediam, com nomes novos, habilidades cognitivas já capturadas pela inteligência geral.

Sternberg rejeitava essa conclusão. Para ele, o erro estava no próprio enquadramento: a psicologia mediria uma parte estreita demais da inteligência, enquanto a vida real exigiria adaptação, criatividade, sabedoria e julgamento prático. Era uma crítica menos empírica do que normativa, referindo-se não apenas ao que os testes medem, mas ao que a sociedade deveria reconhecer como inteligência.

 

Ideia reconfortante

Se Gardner conquistou o público escolar, Sternberg conquistou os espaços institucionais de prestígio. Sua trajetória não foi apenas a de um teórico da inteligência, mas a de um administrador influente: presidiu a American Psychological Association, dirigiu centros de pesquisa, ocupou cargo de direção acadêmica na Universidade Tufts, editou periódicos importantes e participou de debates sobre políticas de avaliação educacional. Em cada um desses lugares, promoveu a mesma orientação geral: reduzir a centralidade do g e ampliar aquilo que escolas, universidades e governos deveriam reconhecer como inteligência.

Essa agenda aparece claramente em seu livro College Admissions for the 21st Century. Ali, Sternberg defende que universidades não deveriam depender apenas de testes padronizados e desempenho acadêmico convencional, mas incluir medidas de criatividade, sabedoria e habilidades práticas. Tentou transformar essa visão em prática no Kaleidoscope Project, um sistema complementar de admissão que avaliava capacidades analíticas, criativas, práticas e ligadas à sabedoria. O projeto foi apresentado por Sternberg como evidência de que admissões universitárias poderiam medir algo mais amplo do que o revelado por testes de conhecimento e notas escolares. Mas a promessa psicométrica mais geral continuava sob ataque: já se sabia que as medidas derivadas de seus modelos acrescentavam pouco ao que a inteligência geral já explicava.

A defesa, porém, nunca foi apenas empírica. Era também moral. Em seus trabalhos mais recentes sobre inteligência adaptativa, Sternberg argumenta que a inteligência deve ser pensada a partir dos problemas reais que ameaçam indivíduos, sociedades e gerações futuras. O foco deixa de ser apenas a capacidade de resolver problemas abstratos e passa a incluir adaptação, responsabilidade coletiva e sobrevivência em ambientes complexos. A inteligência é ampliada de uma variável psicológica para uma virtude civilizacional.

Isso ajuda a explicar por que suas ideias prosperaram em ambientes administrativos, conselhos educacionais e programas de formação docente. Teorias que suavizam diferenças cognitivas — substituindo assimetrias duras por noções de criatividade, sabedoria, adaptação e julgamento prático — oferecem às instituições uma narrativa compatível com seus valores declarados. A psicometria, ao contrário, descreve diferenças reais, estáveis, preditivas e desconfortáveis. Não surpreende que modelos amplos, normativos e conceitualmente maleáveis encontrem apoio cultural mesmo quando seu desempenho psicométrico segue contestado.

Sternberg, portanto, não foi apenas um opositor intelectual do g. Foi seu opositor institucional. Além de discordar do fator geral, tentou redesenhar o ecossistema que define o que a sociedade aceita como inteligência.

O que a resistência revela

Sternberg não foi motivado apenas por uma discordância técnica a respeito do fator g, mas também pelo desconforto cultural diante de diferenças cognitivas reais. Gardner ofereceu uma versão pedagógica desse incômodo; Sternberg, uma versão institucional. Por caminhos distintos, ambos ajudaram a popularizar uma promessa semelhante: a de que inteligência poderia ser redefinida de modo mais plural, mais generoso e menos hierárquico.

O problema é que o g continua lá — estável, replicável, preditivo — independentemente do mal-estar que provoca. Nenhuma dessas teorias alternativas conseguiu removê-lo da posição de base mais robusta da psicometria da inteligência. A resistência ao g sobrevive por conta da narrativa: é mais aceitável falar em talentos múltiplos, competências práticas ou virtudes ampliadas do que encarar assimetrias cognitivas com consequências reais.

Criatividade, sabedoria e ética são capacidades valiosas. Em alguns sentidos, são até mais admiráveis do que a inteligência. Mas confundi-las com inteligência é trocar precisão conceitual por consolo moral. Sternberg tentou substituir o g por um modelo mais amplo, normativo e socialmente desejável. O gesto é compreensível. Mas uma teoria não se torna verdadeira porque descreve o mundo como gostaríamos que ele fosse.

Felipe Novaes é psicólogo e professor da PUC-Rio. Divulga o melhor da psicologia científica no Garagem Psi. Atua no cruzamento entre ciência, filosofia e cultura, onde dados e mitos se estranham com frequência. Interessa-se por psicologia evolucionista, história das ideias e pela tensão entre razão e pertencimento em tempos de algoritmo

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