Ecos psicológicos da pandemia apontam para turbulência

Dossiê Questão
3 set 2020
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cérebro humano

As histórias das guerras, de outras epidemias, caso da provocada pelo vírus ebola na África, ou até mesmo de tragédias coletivas, como o incêndio da boate Kiss em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, mostram que os psicólogos e os médicos psiquiatras sempre enfrentam crises significativas que emergem na sequência das catástrofes.

No caso da pandemia do coronavírus, a primeira da era tecnológica em que o isolamento social continua sendo o principal mecanismo de defesa, uma análise mais refinada dos pesquisadores mostra que a onda da crise no campo da saúde mental, que começa a surgir, poderá ter dimensões também chocantes. Hoje, de acordo com vários estudos em andamento, tanto dentro do Brasil quanto no exterior, os profissionais de saúde, assim como ocorre com os combatentes durante e depois de uma guerra, são os mais atingidos. 

Nos Estados Unidos, onde uma política negacionista está presente desde o início da maior crise sanitária que o país vive desde a Segunda Guerra Mundial – e, além disso, a nova polarização global com a China embola ainda mais o jogo, diante de um presidente que, além de minimizar a ciência, ainda está em campanha pela reeleição –, números nacionais começam a desnudar muito mais do que a ponta do iceberg. Assim como ocorre nos hospitais chineses, do outro lado do mundo.   

Os dados que vêm da China, incluindo da região de Wuhan, o grande epicentro inicial da pandemia, mostram que os profissionais de saúde formam um grande grupo de risco no campo da saúde mental.

Se no século 20 os problemas mentais se arrastaram por décadas entre os combatentes que estiveram literalmente no front de uma guerra, os cientistas agora avaliam até que ponto os profissionais de saúde podem desenvolver problemas semelhantes, seja em termos de transtornos mentais como depressão severa e síndrome pânico, quanto em atitudes que expressam o estresse pós-traumático. 

“Um levantamento com mais de 1.200 enfermeiros e médicos em 34 hospitais na região de Wuhan e toda a China continental mostrou taxas de prevalência impressionantes de sintomas de depressão e ansiedade”, afirma Roy Perlis, pesquisador do Centro de Saúde Quantitativa do Departamento de Psiquiatria do Massachusetts General Hospital, em Boston, nos Estados Unidos.

De acordo com o cientista de Harvard, que assinou também um artigo sobre o tema para a revista científica JAMA Network Open, aproximadamente 14% dos médicos e quase 16% dos enfermeiros que participaram da enquete descreveram sintomas depressivos moderados ou graves, um número considerado alto pelos cientistas, com base na experiência prévia com outros tipos de epidemias. “Aqueles com maior risco de desenvolver depressão e ansiedade, de acordo com os sintomas descritos, incluem mulheres em cargos intermediários de chefia - comparadas com aquelas que desempenham funções menos hierárquicas – e os que estiveram no centro do controle da epidemia em Wuhan”.

Os números, segundo Perlis, são muito consistentes na comparação com os observados na epidemia grave de SARS em 2003. “São indicações importantes para orientar estratégias que possam responder a sequelas de saúde mental desta ou de futuras epidemias”, afirma o médico. 

 

Estados Unidos

Do outro lado da atual polarização, principalmente econômica, com os Estados Unidos, a realidade supera as bravatas políticas ou as fake news contra a potência asiática que também, com frequência, chegam ao Brasil. Muito mais importante do que as especulações conspiratórias contra a China é o sofrimento mental registrado entre os profissionais de saúde americanos.

Uma amostra nacional, segundo Perlis, reforça a preocupação com a saúde mental da população. Dentro de um consórcio que envolve várias universidades americanas, incluindo Harvard, pesquisas mensais são feitas com vários setores da sociedade, todos os meses, desde o início da pandemia. O foco central da iniciativa é medir até que ponto os americanos estão, ou não, em sintonia com as políticas sociais impostas em cada um dos estados pelos governadores locais.

cérebro e mente

 A intenção do consórcio universitário é, também, relacionar todos os números que são tabulados, a partir dos questionários online, com as preferências políticas da população. Em uma das rodadas, realizada em junho, explica Perlis, a saúde mental das pessoas também foi avaliada. “Os níveis de depressão encontrados na pesquisa são três vezes maiores do que geralmente é observado em grandes estudos nos EUA, como a Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição”, afirma.

Enquanto em estudos anteriores, feitos entre 2013 e 2016, as taxas de depressão moderada ou grave ficaram em 8%, agora elas bateram os 27%. “Nessa triagem que nós incluímos na pesquisa, normalmente usada em serviços de cuidados primários, muitas pessoas relataram estarem com sintomas que podem ser enquadrados em casos de depressão moderada ou grave”.

Os dados, segundo o médico, variaram muito de estado para estado. De menos de 20% em estados como Montana, Minnesota e Wyoming, a mais de 30% em lugares como Kansas, Arizona, Missouri, Nebraska, Louisiana, Virgínia Ocidental, Califórnia, Rhode Island e Mississipi. “Níveis moderados ou maiores de depressão são mais comuns entre aqueles que dizem que suas vidas foram muito perturbadas pela COVID-19 (42%), comparados a apenas 19% entre aqueles que relatam que suas vidas foram interrompidas de forma moderada ou leve”.

Sobre as preferências políticas, diz Perlis, também houve diferenças estatísticas significantes na amostragem. “Entre os que relataram algum tipo de sintomas, 23% são republicanos, 28% democratas e 27% são independentes.”



 

Álcool e solidão

No Brasil, onde a pandemia também gerou linhas de colaboração inéditas entre grupos de pesquisa, governo e iniciativa privada – e muitas empresas estão até investindo em estudos totalmente desconectados do seu foco principal de negócio –, vários grupos de pesquisa espalhados por algumas regiões, como é o caso do Centro-Oeste, começaram a investigar a saúde mental das pessoas.

Uma das equipes, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, já colheu milhares de questionários que ainda não acabaram de ser totalmente processados. Mas, em uma realidade onde vários alunos universitários saíram do interior e de muitos territórios indígenas para estudar na capital e, por isso, vivem sozinhos, a solidão daqueles que não conseguiram voltar para o convívio dos familiares é algo que já chama a atenção dos pesquisadores, em termos de impactos na saúde mental. 

mente humana

Toda a pesquisa é feita com base na análise de questionários estruturados, que seguem uma metodologia científica adequada para que os dados possam ser comparados. Se a saúde mental de quem passa a quarentena sozinho foi a mais prejudicada, na média, os dados preliminares também revelam um maior consumo de álcool pela população durante o período de isolamento social, assim como várias outras pesquisas em outras capitais do Brasil também mostram.

Ainda segundo os dados avaliados em Mato Grosso do Sul, pessoas com uma ligação maior com práticas religiosas aparentemente também lidaram melhor com a saúde mental. Buscar atividades físicas ou aulas de relaxamento também ajudou. O trabalho deve continuar ainda por muitos meses e, se houver verbas, será espalhado para outras capitais do Centro-Oeste brasileiro. 

O grupo de estudos da Federal de Mato Grosso do Sul ainda espera muito trabalho pela frente, porque a tendência é aumentar o número de casos de transtornos mentais pelos próximos meses, e talvez anos. Não apenas os profissionais de saúde ou quem vive sozinho vão precisar de acompanhamento no médio e longo prazo, avaliam médicos e psicólogos. Vários segmentos, como as crianças, que estão passando por um momento único na vida, principalmente em relação aos estudos, deverão ser constantemente avaliados nos próximos anos.

É muito provável, como já indicam os relatos internacionais, que as ondas da pandemia sejam seguidas de ondas de transtornos psicossociais, assim como também ocorreu em períodos pós-guerra.

Em se tratando de pandemia, profissionais de saúde das mais variadas áreas que vivem dentro de um hospital, caso do Hospital de Clínicas da Unicamp, por exemplo, estão passando por uma rotina semelhante às registradas no exterior.

A unidade médica recebe os casos mais graves, entre os mais severos, de uma região com aproximadamente 6 milhões de pessoas, o que fez com que grupos específicos da área de medicina psiquiátrica do hospital passassem a ter que cuidar dos próprios colegas. A necessidade de atenção psicossocial é tão grande que o serviço, que antes era apenas online, por meio de vídeo chamada, passou a ser presencial desde o fim de julho. Os profissionais, respeitando todas as regras de isolamento social, estão fazendo consultas presenciais com os colegas de profissão que, devido à rotina massacrante, como em uma verdadeira guerra, sentiram a necessidade de um contato ao vivo. 

Desde março, quando a epidemia eclodiu no Brasil, médicos tarimbados, em conjunto com jovens profissionais, criaram linhas de apoio para familiares de pacientes internados no HC da Unicamp. Uma pandemia, com um vírus altamente contagioso, deixa sequelas para sempre. Uma pessoa contaminada de forma mais grave terá que se afastar de seus familiares mais próximos no momento em que ela der entrada no hospital.

mente e cérebro

 

Depois disso, o contato é feito apenas via meios eletrônicos e, claro, com a ajuda dos médicos e enfermeiros da UTI. Quando o caso já grave torna-se irremediável, e o velório não vai poder ocorrer, porque a possibilidade do contágio com o vírus impede, é que o trabalho dos profissionais da área de saúde mental ganha ainda mais peso. Eles precisam assistir principalmente os familiares, que estão a distância e, em alguns casos, o paciente que está sozinho em um leito de UTI. 

Pelo problema ser grave e, ao mesmo tempo, importante em termos científicos, é que a Unicamp criou projetos de pesquisa estruturados que, durante os próximos meses, vão revisitar as famílias que foram assistidas durante a pandemia, para entender melhor qual foi o impacto do apoio psicológico que elas receberam. A maioria vivenciou o retorno do paciente para casa, após a alta hospitalar.

A ideia da pesquisa é formatar boas políticas públicas na área de saúde mental para que as próximas epidemias, quando chegarem, deixem menos sequelas nas pessoas em geral e também nos profissionais de saúde. Ao contrário da atual, que tende a deixar impactos profundos. 


 

Traumas duradouros

A História da ciência e da psicologia reforçam a importância das questões de saúde mental entrarem ainda mais em pauta nos períodos subsequentes aos de grandes pandemias ou catástrofes, sejam naturais ou não, como grandes incêndios ou as tragédias aéreas. Se as grandes guerras do século passado moldaram os conceitos e os estudos sobre o chamado estresse pós-traumático, nem é preciso voltar muito no tempo para saber que, após a pandemia causada pelo coronavírus, a saúde mental das pessoas, e da sociedade brasileira como um todo, vai precisar de uma atenção muito especial.

“Nós vamos começar a ver muitos casos de estresse pós-traumático. A curva da doença, do ponto de vista da saúde mental, é um pouco deslocada no tempo. O que vamos assistir mais na frente está sendo plantado agora. E quanto mais a gente informar, orientar e atuar, melhor”, afirma Paulo Sérgio Boggio, pesquisador e professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie especializado em neuropsicologia.

O quadro desenhado pelo especialista tem eco na epidemia de ebola, que ocorreu na África entre 2013 e 2016, matando 11 mil pessoas entre os 26 mil contaminados, e na da SARS, que matou 800 pessoas entre 2002 e 2003. “No caso da epidemia de ebola, a própria OMS disparou um alerta de emergência em saúde mental, dentro ainda da própria emergência em saúde pública. Os casos começaram a aparecer dentro da própria epidemia, mas se estenderam por muito tempo depois, até quando começaram a surgir tratamentos mais efetivos para a doença”.

A estimativa dos órgãos de saúde é de que mais da metade dos 15 mil sobreviventes do ebola desenvolveram algum tipo de estresse pós-traumático. O trágico incêndio da boate Kiss, no interior do Rio Grande do Sul, que matou 242 pessoas, a grande maioria jovens, em janeiro de 2013, e deixou 680 feridos também foi seguido de vários casos de estresse pós-traumático na cidade, inclusive entre os profissionais de saúde que atenderam as vítimas de umas das maiores tragédias coletivas do Brasil.

De acordo com Boggio, estudos feitos na China, já durante o início da pandemia pelo coronavírus no começo de 2020, revelaram que três em cada dez dos profissionais de saúde desenvolveram estresse pós-traumático.

“Os profissionais de saúde, que estão na linha de frente e convivem diretamente com um número grande de mortes, formam o principal grupo de risco. Mas há um subgrupo também importante, formado pelos familiares destas pessoas”, diz o pesquisador da Mackenzie. O que não significa, segundo ele, que outras pessoas também expostas ao risco, como caixas de supermercados ou motoristas de ônibus, entre vários outros exemplos, não possam desenvolver algum tipo de transtorno mental.

“No estresse pós-traumático, a pessoa passa a ter de forma crônica e duradoura o que chamamos de pensamentos intrusivos, ou seja, negativos. Você começa a elucubrar sempre, o tempo inteiro. Fica hipervigilante. Nestes casos, ocorrem até mudanças biológicas no próprio organismo relacionadas ao estresse pós-traumático”. 

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Se a onda das doenças mentais virá, e será forte, afirma Boggio, há uma boa notícia, ao menos. “Os casos de estresse pós-traumático, com tratamento adequado, podem ter uma solução relativamente rápida”, diz o especialista. Sem esquecer que há um outro paradoxo provocado pela pandemia do coronavírus que também complica ainda mais o mundo da psicologia. “Também nos casos de ansiedade e depressão, as pessoas precisam de algo muito importante, que essa pandemia tem nos tirado, que é o contato social. Nossa espécie depende muito das relações sociais. A solidão tem um efeito negativo conhecido sobre a saúde mental das pessoas. Isso é realmente complexo, a medida que a crise, que é séria, vai se prolongando”.

Na mesma linha raciocínio, Paulo Endo, professor do Instituto de Psicologia da USP, concorda que casos de estresse pós-traumático vão se acumular. “Enquanto o medo tem objeto, o pânico não. É algo difuso e angustiante. As consequências traumáticas vão surgir ainda mais porque as pessoas que perderam alguém estão com os restos dos seus lutos, que não foram compreendidos e nem completamente atravessados. São perdas decorrentes da falta de cuidado público. Muitos pacientes estão dizendo que não aceitam essas mortes. Há pessoas que foram atropeladas por perdas que não queriam”, afirma. 

Mas, diante de tudo isso, tem um outro caminho que também precisa ser analisado, segundo os cientistas. O Brasil não tem um passado muito atrelado a grandes guerras, o que pode ser positivo. Além disso, como a maioria das pessoas que passam pela UTI sobrevivem, e muitas até ficaram entubadas em estado crítico, este sentimento de ter conseguido superar a doença também vai gerar impactos positivos em termos de saúde mental, inclusive em escala coletiva.  

Eduardo Geraque é repórter, com doutorado em jornalismo e meio ambiente pelo Prolam da USP

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