Em tempos de crise, vigilância contra má ciência deve ser redobrada

Editorial
24 mar 2020
microscópio

Quem desconhece a história está condenado a repeti-la. A história se repete como farsa. Para todo problema existe uma solução simples, clara, plausível e errada. A barragem de clichês assalta a mente, diante da súbita onda global de entusiasmo com os fármacos cloroquina e hidroxicloroquina como possíveis remédios para a COVID-19, mesmo diante do fato de que o único “estudo” em humanos sobre o assunto, publicado até agora, conter tantos defeitos, erros e imprecisões que o coautor de maior prestígio dentro da comunidade científica, o médico e microbiologista francês Didier Raoult, já começa a ser tratado como maluco excêntrico pela mídia internacional. 

O choque entre a reputação construída e a realidade do trabalho publicado foi tamanho que até o currículo acadêmico de Raoult se viu sob novo escrutínio: o jornal Le Figaro resgatou uma acusação feita no livro “Malscience”, do biólogo Nicolas Chevassus-au-Louis, que aponta que o número de publicações científicas atribuídas ao francês, num período de quinze anos (1996-2011) supera 12 mil. Segundo a base de dados de artigos científicos da área médica PubMed, só em 2020 já saíram 36 artigos onde seu nome consta como autor, o que dá uma média aproximada de uma publicação a cada dois dias. “Demais para ser honesto?”, questiona Le Figaro.

Esse despertar do senso crítico, porém, veio tarde e foi muito lento, diante do estrago causado pela recepção inicial dada ao “estudo”, divulgado na última semana: mesmo cientistas sérios e comunicadores da ciência experientes, aparentemente ofuscados pela reputação prévia de Raoult e abalados pelo custo humano da COVID-19, optaram por fazer vista grossa para os problemas óbvios que invalidam o trabalho, e saudaram a publicação como uma contribuição relevante para o combate à pandemia corrente. 

A opção preferencial pela complacência ignorou uma lição que deveria ser do bê-á-bá de qualquer cientista ou comunicador da área: a dos indícios clássicos de crackpottery, expressão meio intraduzível da língua inglesa que define um espectro de distorções da prática científica que vai da incompetência ingênua ao charlatanismo desbragado, sempre em parceria com obstinação e soberba. 

Alguns dos indícios clássicos são: pesquisador que apresenta seus resultados de modo espetacular ao público leigo, antes de buscar a revisão dos pares; pesquisador que faz alegações grandiosas com base em amostras pequenas ou na ausência de estudos formais; pesquisador que faz alegações grandiosas sobre um assunto científico fora de sua área de expertise; pesquisador que se mostra mais preocupado em convencer o público leigo e lideranças políticas do que em responder às críticas técnicas dos demais especialistas da área.

Exemplos comumente citados são a recomendação do uso de superdoses de vitamina C como panaceia, o fiasco da fusão a frio, a conexão espúria entre vacinas e autismo e, aqui no Brasil, a famigerada “pílula de câncer”, a fosfoetanolamina sintética.

Embora o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina como antiviral não seja, em si, uma ideia crackpot – há pelo menos um bom estudo in vitro que sugere a possibilidade – o trabalho específico do grupo de Raoult, se não chega a completar o bingo da crackpottery (o pesquisador, afinal, é da área), emitia, desde o início, claros sinais de alerta. Indícios como o fato de Raoult ter optado por ir ao YouTube para gabar-se da “descoberta” antes da publicação do artigo científico, e a amostra muito pequena (grupo de tratamento inicial com apenas 26 pessoas) já deveriam ter deixado todo mundo com o pé atrás. 

Depois, a mera leitura do artigo, tal como apresentado, deveria ter sido suficiente para eliminar toda e qualquer dúvida de que se tratava de um caso de crackpottery na mais fina forma: entre os diversos problemas do estudo, salta aos olhos a informação de que os pacientes que pioraram (e o que morreu!) durante o tratamento foram desconsiderados; é como se os autores tivessem partido do princípio de que o remédio só poderia fazer bem. 

E mesmo o “bem” constatado é duvidoso: em entrevista, o virologista alemão Christian Drosten diz que “os resultados possivelmente teriam sido os mesmos se os pacientes tivessem tomado um comprimido para dor de cabeça”. Para mais detalhes a respeito dos absurdos do estudo, há análises críticas detalhadas disponíveis aqui,  aquiaqui e aqui.

A complacência inicial de comunicadores e cientistas para com a publicação teve, e segue tendo, consequências nefastas: a perspectiva de uma cura fácil e ao alcance da mão encantou líderes populistas, como Donald Trump e Jair Bolsonaro,  que têm uma visão pragmática do que conta como evidência científica – o pragmatismo, no caso, é aquele que vê relevância apenas no que pode ser usado para promover suas agendas políticas. Tanto Trump quanto Bolsonaro, aliás, são reincidentes: o mandatário americano flertou, quando lhe foi conveniente, com o movimento antivacinação, e o brasileiro foi um promotor da “pílula do câncer”.

Se nos Estados Unidos as autoridades sanitárias têm demonstrado a altivez necessária para conter os arroubos presidenciais – tanto a FDA quanto o médico Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, não se furtaram ao dever de contradizer, sem meias palavras, as falsidades proferidas por Trump sobre o assunto – no Brasil não tivemos a mesma sorte: nosso ministro da Saúde diz que já “validou” a cloroquina, que será usada entre nós para pacientes graves de COVID-19. 

E hospitais privados, como o Albert Einstein de São Paulo, preparam-se para conduzir testes do “protocolo”apresentado por Raoult, que envolve a combinação de hidroxicloroquina com um antibiótico. É uma escolha difícil de justificar em bases científicas. Segundo levantamento do jornalista Carl Zimmer para The New York Times, existem pelo menos 69 fármacos promissores a serem testados contra o SARS-CoV2. A cloroquina/hidroxicloroquina é apenas mais um deles, e um dos menos relevantes.

Ouvida pela revista Science, a especialista Susanne Herold lembra que “pesquisadores vêm testando essa droga contra um vírus atrás do outro, e ela nunca funciona em humanos”. O fracasso mais recente envolveu o vírus chicungunha.

No resto do mundo, as ondas de choque do trabalho francês também se fazem sentir. A Organização Mundial da Saúde (OMS), que em primeira avaliação havia considerado a cloroquina e a hidroxicloroquina inadequadas para um teste em escala mundial de fármacos promissores para o combate ao SARS-CoV2, viu-se constrangida a incluí-las. Diversos países sofrem desabastecimento de medicamentos à base de cloroquina, usada no combate à malária, e hidroxicloroquina, que tem indicação científica para uso contra lúpus e artrite reumatoide.

Na Nigéria e nos Estados Unidos já foram registradas mortes causadas pela automedicação com cloroquina/hidroxicloroquina contra o vírus. Não se trata de um fármaco inócuo: é capaz de causar efeitos colaterais graves, atacando, por exemplo, os olhos e o coração. Uma dose de apenas 2 gramas pode matar um homem adulto.

Há quem defenda que, “em condições de guerra”, os rigores usuais da ciência não se aplicam mais. É um raciocínio profundamente falacioso: os chamados “rigores da ciência” não são luxos, são salvaguardas que reduzem – mas jamais eliminam – o risco de mentirmos para nós mesmos, de permitirmos que medos ou esperanças nos ceguem para os fatos. 

“Condições de guerra” não nos tornam menos vulneráveis a esses riscos. Muito pelo contrário. Pode ser que a cloroquina seja eficiente para combater a COVID-19. Ou não. Com as evidências disponíveis no momento, só podemos dizer que a ênfase dada ao fármaco e sua priorização como objeto de estudo representam uma roleta-russa com a saúde da população, e uma aplicação altamente questionável de recursos escassos.

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