Governo usa confusão como estratégia para minimizar pandemia

Editorial
9 jun 2020
BOLSONARO

A recente omissão, pelo Ministério da Saúde, das informações sobre a evolução da pandemia de COVID-19 no Brasil, seguida por uma alteração na metodologia de contagem dos casos e mortes pela doença, lançou uma grande sombra de dúvida sobre números já marcados pela incerteza. Com isso, o governo federal não só atrapalha um monitoramento fundamental para as decisões de combate à crise sanitária, em diversas esferas administrativas, como parece querer usar a confusão como estratégia para minimizar a gravidade situação.

Mais do que a anterior mudança marqueteira na forma de apresentação das estatísticas, com destaque à quantidade de recuperados, numa tentativa de deslocar a atenção da população das curvas crescentes  de doentes e mortos no país, as atitudes recentes do Ministério da Saúde abrem caminho para uma maquiagem dos dados, num movimento para atender a apelos do presidente Jair Bolsonaro, incomodado com os números alarmantes do avanço da COVID-19 no Brasil.

Possibilidade que já ficou clara no último domingo, 7 de junho, com a divulgação pelo ministério, num período de menos de duas horas, de dois boletins sobre a pandemia no país. No primeiro balanço, enviado à imprensa por volta das 21h, o órgão totalizava 37.312 mortes, apontando o registro de 1.382 óbitos por COVID-19 nas 24 horas anteriores. Pouco mais tarde, no entanto, atualização do painel mantido pelo órgão na sua página na internet informava a confirmação de apenas 525 novas mortes, uma diferença de 857 vítimas.

As ações do ministério também já provocaram uma esperada reação. Buscando cobrir a lacuna e manter a população informada e em alerta, outras esferas administrativas, sociedade civil e imprensa rapidamente lançaram iniciativas independentes de monitoramento “paralelo” dos números da pandemia.

Mas a pluralidade de fontes, embora louvável, também tem o efeito de confundir o cenário de acompanhamento da COVID-19 no Brasil, já assolado pela subnotificação gerada pela baixa taxa de testagem e atrasos nos resultados dos exames no país.

Dia após dia, as divergências – naturais e esperadas – nos resultados, trazidas pelas diferentes formas de compilação, análise e divulgação dos dados, usadas por estas várias iniciativas, e os números que venham a ser apresentados pelo Ministério da Saúde tornarão mais espessa a névoa de incerteza em torno da real situação da pandemia.

E é com esta fragmentação da narrativa em torno da evolução da COVID-19 no Brasil que Bolsonaro espera contar. Apoiado em estatísticas “oficiais” compiladas sob medida para sustentar seu discurso, o presidente poderá continuar a contrariar abertamente as recomendações dos especialistas, com as recorrentes críticas às medidas de distanciamento social e a defesa de seu relaxamento precipitado, enquanto também insiste em se eximir da responsabilidade por uma tragédia que poderia ter, se não evitado, ajudado a mitigar.

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