Faça alguma coisa! Qualquer coisa!

Apocalipse Now
4 jul 2020
Autor
goleiro

Quem lida com questões de saúde pública, principalmente com o problema da resistência a vacinas um espectro de atitudes que começa na dúvida cautelosa e sincera sobre imunizações e chega à paranoia antivaxx cedo ou tarde se depara com o chamado viés de omissão: o fato de que a maioria das pessoas teme menos os resultados ruins trazidos por inação (uma criança pegar sarampo, porque não foi vacinada) do que por ação (uma eventual reação adversa à imunização).

Este viés passa a ser irracional quando como no caso das vacinas o risco da ação (reação adversa) é muitíssimo menor do que o da omissão (a criança adquirir uma doença infecciosa, potencialmente letal). Ainda assim, para muitas pessoas, a intuição básica de que não fazer é sempre mais seguro do que fazer, danem-se circunstâncias e as probabilidades reais, pode ser extremamente forte e difícil de superar.

Psicólogos estudam há tempos as causas desse viés. Alguns resultados sugerem uma relação com o tempo de arrependimento: aparentemente, o arrependimento pelas consequências de uma ação que resulta mal vem de modo agudo e imediato, enquanto o arrependimento causado por uma omissão desastrosa demora para chegar (mas chega, e pode ser intenso).

Também se fala em um viés de normalidade, a ideia de que, ao nos omitirmos, deixamos que as coisas sigam seu caminho normal: se algo der errado depois disso, a responsabilidade não é nossa, é do azar, do destino, da Providência, dos outros. No caso dos efeitos de uma ação, esse tipo de desculpa se torna bem mais difícil. Pôncio Pilatos era um cara com forte viés de omissão.

 

 

A angústia do goleiro

Há certas situações, no entanto, que favorecem a distorção oposta: um afã de fazer alguma coisa, qualquer coisa, mesmo quando a omissão seria o curso mais racional. Este é o chamado viés de ação, menos conhecido e prevalente que o de omissão, mas especialmente agudo em determinadas circunstâncias por exemplo, quando um goleiro se prepara para tentar defender um pênalti.

Aos fatos: a menos que o jogador encarregado da cobrança seja especialmente inepto ou esteja num dia ruim, é impossível para o goleiro prever onde ele irá chutar e, uma vez que a bola tenha partido da marca do pênalti, não há tempo suficiente para o goleiro ver para que lado ela está indo e, só então, pular. Análises estatísticas mostram que, nessas circunstâncias, o melhor que o goleiro pode fazer é ficar parado no meio do gol. Mas a maioria dos goleiros escolhe um lado e pula.

Um estudo publicado em 2007 sugere que os goleiros reagem dessa forma porque isso é o que se espera deles: o viés de omissão () é revertido aqui porque a norma é revertida agir, em vez de não agir. Citando um estudo de 1986 do ganhador do Prêmio Nobel de Economia Daniel Kahneman, os autores do trabalho de 2007 sugerem que, dada a inversão das regras (o que se espera do goleiro é que faça alguma coisa), sofrer um gol causa sentimentos piores no goleiro depois de uma inação (ficar no centro) do que de uma ação (pular), o que leva a um viés de ação.

Essa decisão, aparentemente enviesada, é particularmente espantosa, já que goleiros têm enormes incentivos para tomar decisões corretas. Em outras palavras, o goleiro prefere o risco maior (tomar um gol depois de pular num canto aleatório) ao menor (tomar o gol ficando parado), porque pular é o que se espera dele.

 

ADENDO (5/07/2020): Algumas hortas após a publicação deste artigo, o mestre em atividade física e preparador de goleiros Daniel Crizel gentilmente entrou em contato com o autor para avisar que a literatura sobre a melhor escolha dos goleiros diante do pênalti, usada como base para esta seção do texto, está desatualizada. "O goleiro deve sim retardar ao máximo a escolha antes da batida na bola, mas não existe propensao maior que este ocorrerá no meio, como sugere a escrita", avisa. "Existem evidências científicas que desmentem está afirmação. Inclusive a mais recente em um artigo de 2019". 

 

e a do médico

Outra profissão onde o viés de ação o incentivo psicológico para fazer alguma coisa, qualquer coisa, mesmo que seja bobagem é muito forte é a Medicina, onde intuições na linha de melhor prevenir do que remediar e por via das dúvidas parecem comuns. Uma enquete realizada em Israel, envolvendo 130 médicos, apresentou aos participantes cinco resumos clínicos descrevendo pacientes que tinham queixas incomuns, nenhum diagnóstico claro, e nenhuma necessidade aparente de cuidados de urgência

A maioria dos médicos 87% disse que tomaria alguma atitude pró-ativa (pedir exames, receitar remédios, mandar o paciente para a emergência) e apenas 13%, que não fariam nada de imediato, mas apenas acompanhariam a evolução dos sintomas. A conclusão dos autores é de que, em condições de incerteza, médicos preferem examinar a acompanhar, uma inclinação consistente com o viés de ação.  Entre os exames e procedimentos sugeridos, havia radiografias, biópsias, fisioterapia e a prescrição de opioides.

Assim como os goleiros, médicos sofrem com uma inversão da norma: se se espera do goleiro que pule mesmo que seja ao acaso e ele sofre menos com o gol sofrido depois de escolher um canto” do que com a bola que passa e o encontra parado, do médico também se espera que faça alguma coisa, que reafirme seu conhecimento e sua autoridade com receitas e exames, mesmo que sejam tiros no escuro.

Como no caso do goleiro, o que está em jogo neste tipo de circunstância é menos o resultado final (a defesa do gol, a saúde do paciente) e mais como ao profissional é visto pelos outros e, também, por si mesmo.

 

O viés da pandemia

Outras circunstâncias em que o viés de ação se manifesta são aquelas onde o benefício de agir parece ser considerável, enquanto o de não fazer nada dá a impressão de ser pequeno ou inexistente. Compras de impulso, por exemplo: agir (gastar dinheiro no produto) traz um benefício palpável (a posse do produto desejado). Já não agir (poupar o dinheiro) tem um benefício pouco claro (afinal, que diferença faz uns reais a mais ou a menos na conta?), e que só se fará sentir no longo prazo.

Essa forma do viés que nos leva a preferir ações cujos benefícios são facilmente visualizáveis (ainda que talvez enganosos) a omissões com benefícios que parecem difíceis de enxergar (mas concretos) ajuda a explicar uma das frases mais ouvidas nesta pandemia, cada vez que se aponta que um tratamento ou remédio proposto para COVID-19 é inútil, ilusório ou perigoso: mas então é pra fazer o quê, deixar morrer?”.

O impulso de tentar qualquer coisa frente à percepção de uma emergência é o viés de ação levado ao paroxismo.

A dicotomia proposta é a de que a ação (tentar qualquer coisa) ou terá benefícios claros, ou deixará a situação como estava; já a inação apenas deixará a situação como estava, sem alternativa. No desespero, é mais fácil sentir o impacto emocional do argumento do que ver onde ele degringola.

Em termos puramente lógicos, a dicotomia falha porque é impossível garantir que uma ação, qualquer ação, só trará resultados positivos ou neutros; a possibilidade de consequências negativas imprevistos é sempre presente. Riscos e benefícios precisam ser avaliados caso a caso, não com base em generalizações. Vamos tentar, porque pior não fica não é um princípio, é um epitáfio.

 

Jogo de azar

No caso específico da pandemia, o erro é agravado pelo fato de que a inação não é realmente inação, é a obediência a protocolos e procedimentos bem estabelecidos sejam de isolamento social, sejam de tratamento hospitalar.

Uma especulação pessoal: em questões de saúde, o viés de ação também se liga ao pensamento supersticioso e sua matriz, a ilusão de controle, a ideia de que controlamos eventos que, na verdade, são fortuitos. Um exemplo típico é o do jogador que arremessa os dados na mesa delicadamente quando quer um número baixo, e com força quando deseja uma soma maior.

Tomar profiláticos inúteis, como vitamina C para gripe ou hidroxicloroquina para COVID-19, parecem maneiras muito claras de fomentar essa ilusão.

Não são remédios. São amuletos ingeríveis. E, ao contrário do que insistem em repetir as eternas vozes do deixa-disso epistêmico (“Qual o problema? Que mal que tem? Vai tirar o conforto das pessoas?), não são inócuos.

Para não dizer que só falei de cloroquina: em Madagascar, na África, o governo vem promovendo uma cura orgânica para COVID-19 baseada em Artemisia annua, uma planta que serve de base para um remédio usado contra a malária. A garrafada, que está sendo exportada para outras nações africanas, além de provavelmente inútil como antiviral, traz o risco de promover resistência ao antimalárico artemisinina.

Também na África, o arcebispo católico Samuel Kleda, de Camarões, vem promovendo um elixir COVID-19, baseado em plantas e que já teria salvado mais de 3 mil pessoas. Dada a história do continente, essas curas acabam surfando em discursos anticoloniais, de afirmação da identidade nacional, dando margem a teorias de conspiração que nunca estão longe quando a ilusão de controle é um fator relevante.

Questões identitárias envolvendo conspirações, no contexto de propostas de cura improváveis (e perigosas) para o SARS-CoV-2 também aparecem em várias outras partes do mundo, incluindo os Estados Unidos, e entram em forte sinergia com o viés de ação. O impulso de fazer alguma coisa, qualquer coisa, não importa o quê, já é perigoso em si; alimentado por preconceito e informação ruim, torna-se ainda mais letal.

 

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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