Pandemia da desinformação tem homeopatia, prata e Nostradamus

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16 mar 2020
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Nostradamus

 

Poucos dias após o registro dos primeiros casos de COVID-19, a doença causada pelo novo coronavírus, no Brasil, já circulavam pelas redes sociais, caixas de e-mail e aplicativos de mensagem anúncios prometendo curas milagrosas, “reforço do sistema imune” ou profilaxia certeira. Enquanto as autoridades mais responsáveis vão à mídia para insistir nos pontos corretos – a importância de lavar as mãos, evitar aglomerações e restringir o contato social, para reduzir o ritmo de progressão da doença – no telefone sem fio das redes e zaps, dos banners caseiros, dos influencers e do marketing de e-mail, vendem-se remédios homeopáticos, curas ”naturais” e profecias.

Ao menos na minha bolha particular, a estrela dos banners de WhatsApp e Facebook é o Oscillococcinum, preparado da indústria homeopática francesa Boiron à base do fígado e do coração de um pato – supostamente. Dadas a diluições usadas, é seguro afirmar que as pílulas de Oscillococcinum são 100% açúcar. Nas bolhas dos amigos, o mesmo produto deu as caras, via canal de Instagram da influenciadora digital Gabriela Pugliesi.

Promovido e vendido como antigripal, o suposto medicamento foi inventado há cerca de 100 anos pelo homeopata francês Joseph Roy (1891–1978), que acreditava ter descoberto o “germe universal” (que ele chamou de Oscillococci), uma bactéria responsável por causar, entre outras doenças, gripe, sífilis, reumatismo e câncer. Os Oscillococci existiriam por toda parte, mas por alguma razão, Roy elegeu uma espécie de pato, Cairina moschata, como fonte ideal. 

O fato de que Joseph Roy estava errado em tudo – gripe é causada por um vírus, não uma bactéria, os Oscillococci que ele acreditava ter visto no microscópio não existem, a ideia de um “germe universal” causador de todas, ou quase todas, as doenças, é uma quimera, etc. – não impediu que sua invenção se convertesse num best-seller. Na década passada, as vendas do “remédio”, só nos Estados Unidos, foram estimadas em US$ 15 milhões ao ano. No Brasil, uma caixa com 30 doses pode ser encontrada por cerca de R$ 200 nas Lojas Americanas.

Se as indicações mais radicais (câncer, sífilis) foram silenciosamente postas de lado ao longo do século 20, mas a de gripes e resfriados se manteve. É a velha história: um resfriado tratado com homeopatia passa em uma semana, um resfriado tratado com canja de galinha e cama passa em sete dias.

Trata-se, então, de um medicamento baseado num princípio ativo duplamente ausente: primeiro, porque a própria diluição homeopática garante isso e, segundo, porque a bactéria que deveria estar lá, e que é a própria razão de ser do preparado, nunca existiu na realidade. 

Se essa situação já não trouxesse problemas éticos suficientes, nos últimos dias o produto, rotineiramente vendido como alívio para os sintomas da gripe, passou a ser oferecido, pelos canais de marketing online de certas farmácias de manipulação e lojas de produtos “naturais”, como preventivo do COVID-19. 

O impacto potencial desse tipo de publicidade sobre os esforços de contenção da epidemia é óbvio. Pessoas convencidas de que estão protegidas contra a doença têm menos incentivos para evitar comportamentos de risco. Se o convencimento se baseia em premissas falsas, o perigo é enorme.

Este caso, incidentalmente, desmonta o argumento de que a homeopatia, mesmo se ineficaz e irracional, deveria ser tolerada porque é “inócua”, já que usada apenas para condições de base emocional ou autolimitantes.

A Boiron vem passando por dificuldades econômicas desde que o governo francês decidiu parar de subsidiar a compra de produtos homeopáticos no país. Dada a frouxidão dos padrões éticos da internet quanto à necessária distinção entre conteúdo pago ou espontâneo, fica difícil determinar se a súbita popularidade do Oscillococcinum no Brasil é real ou parte de uma estratégia para recuperar, por aqui, o vem sendo perdido na Europa.

 

Água prateada

A Jolivi é uma empresa que tem como modelo de negócio promover teorias da conspiração envolvendo a indústria farmacêutica, a fim de vender aconselhamento de saúde. É a técnica um-dois dos boxeadores, um soco para amaciar e outro para derrubar: no caso, um, convençamos o público de que existem “segredos de saúde” que os grandes laboratórios malvados “não querem que você saiba”; e dois, cobremos caro para revelar quais “segredos” são esses, sob a forma de vídeos, livros, cursos, PDFs, etc.

A qualidade da “informação” vendida é, em geral, deplorável, quando não perigosa: um livreto produzido pela empresa diz que remédios para pressão arterial podem causar câncer, e que a hipertensão pode ser controlada com chocolates de alto teor de cacau, vinagre de maçã e suco de beterraba. 

Em e-mail recente enviado aos clientes, a companhia afirma que algo chamado “água prateada” é capaz de eliminar todos os tipos de vírus (incluindo, claro, o da COVID-19) porque “poucas gotas desse líquido no seu corpo podem envolver o vírus dentro da célula, impedindo-o de respirar” e que “sem ar, ele não tem condições de se espalhar”.  Se a ideia de que existe ar no interior das células do corpo humano soa como puro nonsense aos seus ouvidos, é porque é. Células contêm citoplasma, não atmosfera. O oxigênio de que necessitam é transportado pelo sangue. 

E vírus, claro, não respiram e nem precisam respirar: vírus são aglomerados de material genético dentro de pacotes de proteína, às vezes embrulhados em uma camada extra de gordura e proteína misturadas.

O e-mail não dá muitos detalhes sobre o que seria essa “água prateada” (para saber mais, faça uma assinatura e receba nosso guia de graça!), mas as referências, apensadas ao fim do texto, remetem a material em inglês sobre coloidal silver, “prata coloidal”: partículas de prata mantidas em suspensão num líquido, geralmente água. 

Diferentemente dos remédios homeopáticos, que em si são inócuos – porque contêm apenas água ou açúcar – prata coloidal representa um risco concreto para a saúde: além de ter o potencial de atrapalhar a ação de medicamentos de verdade, a prata, se consumida em excesso ou por longos períodos de tempo, leva a uma condição chamada argíria – a pele do usuário fica cinzenta ou azul. Permanentemente.

Assim como várias outras falsas soluções “alternativas” para problemas de saúde, o fetiche pela prata coloidal tem origem numa extrapolação indevida das propriedades reais de algum material. No caso, dos íons de prata, que têm ação desinfetante e são usados, por exemplo, em alguns sistemas de purificação e filtragem de água. Também têm efeito antibiótico tópico – isto é, quando usados em bandagens e cremes aplicados à pele.

Mas uso em desinfetantes, filtros ou pomadas é bem diferente de uso interno, por ingestão. O sabonete com que lavamos as mãos mata bactérias, mas não é por isso que vamos achar que beber sabonete líquido é o mesmo que tomar antibiótico.

 

Nostradamus

Numa nota mais folclórica, também têm circulado pela internet duas supostas “profecias” de Nostradamus que teriam previsto a atual pandemia. Michel de Nostredame ( 1503-1566) foi um grande charlatão que impressionou as cortes europeias no século 16, fazendo pronunciamentos pseudo-profundos a respeito do  futuro sob a forma de quadras, isto é, poemas curtos de quatro versos. O maior charme de Nostradamus era sua capacidade de insinuar muito sem dizer nada: suas quadras são como um teste psicológico de manchas de tinta, onde cada vê, ou projeta, o que quiser.

A primeira das supostas “profecias” do coronavírus chegou até mim via banner de WhatsApp, e fala que “no ano dos gêmeos” uma “rainha” “estenderá sua praga” vinda dos “seres da noite”.  Estes versos são, com toda probabilidade, apócrifos: além de não estarem na forma canônica de quadra, uma busca no texto de duas diferentes edições de The Complete Profecies of Nostradamus revela que a palavra “gêmeos” em nenhum momento é usada por ele nesse contexto, para referir-se a um ano (que seria 2020).

Já a segunda candidata a profecia do coronavírus tem um pedigree melhor: trata-se da quadra 53 da Segunda Centúria (Nostradamus organizava seus poeminhas "proféticos" em grupos de cem). Em resumo, ela diz que a praga que atinge uma “cidade marítima” não vai passar até que um crime (“...a morte do sangue justo, inocente condenado por um preço,/da grande dama ofendida pela pretensão”) seja vingado. 

Num fenômeno que não é nem um pouco inédito quando o assunto é Nostradamus, essa mesma quadra já foi interpretada de modo diferente em outros momentos históricos: por exemplo, o livro Nostradamus for Dummies diz que ela pode se referir aos conflitos entre católicos e protestantes na Inglaterra (“sangue justo”, vítimas de perseguição pela fé; “grande dama”, a rainha, ou a igreja). É o efeito “manchas de tinta” a todo vapor.

 

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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