Epidemia de saúde mental na COVID-19 também requer ciência

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29 abr 2020
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mulher escondendo o rosto em livro

 

A pandemia da COVID-19 está produzindo diversos efeitos na sociedade mundial. Dentre os muitos efeitos negativos, o prejuízo à saúde mental da população é um dos mais amplos. Ele não pode ser tratado como invisível, muito menos como prioridade menor. E seu enfrentamento exige, como tudo o que é relacionado à pandemia, uma visão científica clara a inequívoca.

A pandemia está provocando inúmeros efeitos na saúde mental e comportamental da população, e de grupos específicos. Os profissionais de saúde, e os demais que trabalham nas linhas de frente da pandemia, sofrem diversos problemas relacionados ao trabalho exacerbado de enfrentamento e cuidado de doentes, como o esgotamento emocional em virtude da dura realidade de emergências em hospitais, e do estigma devido a este contato. A população em isolamento sofre também as consequências do estresse, dos conflitos e da violência doméstica.

As crianças em isolamento tiveram suas rotinas familiares e de estudos modificadas, e estão tendo que desenvolver estratégias para essa nova realidade. Trabalhadores estão perdendo suas fontes de renda, devido aos efeitos econômicos da pandemia. Professores, mulheres, indígenas, moradores de rua, idosos, policiais, dependentes de drogas, trabalhadores dos serviços essenciais, profissionais de saúde mental, todos sentem o impacto da COVID-19.

Temos de enfrentar essa consequência da pandemia de forma prioritária, e atuar cientificamente. Apenas assim aumentaremos a efetividade e diminuiremos os danos na população. Da mesma forma que o uso de medicamentos sem base em evidências traz mais danos que benefícios aos infectados pela COVID-19 e estimula o pensamento de uma cura fácil , o enfrentamento da epidemia de saúde mental em larga escala, por meio de estratégias sem base em evidências, também produz mais danos do que benefícios.

Os problemas de saúde mental não são meramente efeitos colaterais que se dissiparão com o passar do tempo. Eles magnificam a inequidade do acesso à saúde mental e as brutais desigualdades socioeconômicas e regionais, escancarando os problemas de saúde pública, de educação e chamando os psicólogos e outros profissionais à ação.

Sabe-se há um bom tempo que o estresse crônico e o trauma não tratados têm consequências para a saúde (cardiovascular, endócrina, imune, cognitiva, emocional) a curto, médio e longo prazos. Podemos aplicar o conhecimento científico já disponível para situações de desastres, crises e emergências, para oferecer suporte psicosocial, aliviar sofrimento e promover o bem-estar em larga escala.

Ainda pior que a inércia é o dano não intencional. Ele pode ocorrer quando pessoas e até instituições com ótimas intenções, mas sem protocolos de práticas baseadas em evidências, entram em ação.

Por exemplo, abordagens de curto prazo, que produzem dependência do cuidador e não enfatizam a prevenção, fazem com que o bem estar desapareça quando a ajuda não estiver mais disponível. O foco excessivo na vitimização, em um acolhimento não guiado, pode minar a resiliência e o empoderamento, que são recursos pessoais importantes em qualquer crise.

O uso inapropriado de vários métodos diferentes por voluntários, sem uma coordenação humanitária e um protocolo baseado em evidências científicas, não transmite uma mensagem coesa para a sociedade, fazendo com que a intervenção caia em descrédito. O uso de abordagens de orientação individualística, que não são adequadas ao contexto e à cultura das pessoas que recebem a ajuda, prejudicam a credibilidade  futura de profissionais de saúde bem treinados. A insensibilidade contextual coloca em risco, inclusive, a segurança das pessoas vulnerabilizadas, como em casos de violência doméstica, abuso sexual infantil e perigo real de violência social.

Talvez você esteja se perguntando: esses princípios se aplicam ao apoio psicossocial em qualquer situação? A resposta é sim. A falta de sensibilidade contextual e a escolha idiossincrática de abordagens teóricas por profissionais de saúde mental ainda permeiam a formação. Entretanto, o dano é menor quando eles atuam em uma subcultura, contexto do qual fazem parte ou com o qual estão familiarizados.

Mas o contexto da pandemia é novo para todos, e a demanda é tão grande e diversa, que desafia todas as abordagens teóricas e práticas profissionais. E ainda pior, os próprios profissionais de saúde mental estão inseridos no contexto da pandemia, com todos os desafios decorrentes disso. São mães, pais, cuidadores, desempregados, empresários, imersos no estresse crônico, no luto, precisando de cuidados psicológicos e, principalmente, supervisão de atendimento.

Internacionalmente, nos países em estágios mais avançados da pandemia, as iniciativas de primeiros cuidados psicológicos têm sido pautadas em uma ação humanitária coordenada, sensível aos contextos e promotora de equidade, porque somente assim conseguiremos reduzir o impacto psicosocial da crise.

O Comitê Permanente Interagências da Organização das Nações Unidas, a Organização Mundial de Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde indicam que as ações de apoio psicosocial em larga escala devem, em linhas gerais, promover a autorreflexão crítica dos profissionais em relação a suas práticas neste contexto, guiarem-se por evidências científicas produzidas ao longo do processo e promover a coesão social por meio de mensagens transversais, que empoderem indivíduos e comunidades e promovam a resiliência em todas as etapas do cuidado.

Ao final, estaremos preparados para o apoio à saúde mental, que começa com um acolhimento e com a escuta qualificada e ética, mas não se resume a isso.

Precisamos enfrentar a pandemia de saúde mental da COVID-19 por meio de uma perspectiva científica, com o uso de protocolos de atendimento baseados em evidências prévias e com o levantamento sistemático de dados para produzir novas evidências, e aperfeiçoar as estratégias de enfrentamento todo o tempo.

Todos os indicadores apontam que essa pandemia, e seus efeitos, ainda durarão muitos meses e precisamos estar aptos a enfrentá-los com critérios científicos claros. Quem sabe assim, com essa visão e prioridade, possamos deixar uma herança positiva para as futuras gerações de profissionais de saúde, fortalecendo a transferência do conhecimento nacional produzido pela pesquisa em psicologia para a prática profissional.

 

Lisiane Bizarro é doutora em Psicologia. Diretora da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP). Coordenadora do GT de Enfrentamento da COVID-19 da SBP. Professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS). As opiniões expressas neste artigo são pessoais dos autores e não representam a visão oficial da SBP

Ronaldo Pilati é doutor em Psicologia. Presidente da SBP. Professor do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Autor do livro “Ciência e Pseudociência: Por que acreditamos apenas naquilo em que queremos acreditar.” As opiniões expressas neste artigo são pessoais dos autores e não representam a visão oficial da SBP

 

REFERÊNCIAS

Wessells MG (2009). Do no harm: toward contextually appropriate psychosocial support in international emergencies. American Psychologist, 64(8):842-54. doi: 10.1037/0003-066X.64.8.842.

https://www.paho.org/hq/dmdocuments/2009/Protecao-da-Saude-Mental-em-Situaciones-de-Epidemias--Portugues.pdf

https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=4847:primeiros-cuidados-psicologicos-um-guia-para-trabalhadores-de-campo&Itemid=839

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