Quando o conhecimento mais se faz necessário, governo sabota a ciência

Editorial
5 mai 2020
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Nunca antes o Brasil precisou aprender tanto sobre o Brasil tão rápido. Em meio à pandemia de COVID-19, o país precisa de um conhecimento profundo de si e dos brasileiros para poder não só mitigar as agruras econômicas, sanitárias e psicológicas trazidas pelo necessário distanciamento social como para decidir quando e de que forma relaxar este distanciamento com segurança e responsabilidade.

Precisamos saber como vivemos, como circulamos, como reagimos, como pensamos. Informações como: com quantas pessoas um balconista de padaria, um vendedor de shopping, um policial na ronda tem contato, em média por dia, numa cidade pequena, média ou grande? Como o ar circula entre as vielas de uma favela num morro coberto de barracos? Quais as rotas informais por onde fluem o esgoto e o lixo numa cidade sem saneamento básico?

E as perguntas continuam: como distrair as crianças, preservar a sanidade mental dos adultos e salvaguardar a proximidade emocional em meio ao afastamento físico? Qual a força dos laços de solidariedade social dos quais os brasileiros mais vulneráveis podem vir a depender? Quanto dinheiro uma pessoa impedida de gerar renda pela pandemia precisa para manter uma vida digna? Quanto no Sul? No Sudeste? E no Norte?

O Brasil nunca antes precisou aprender tanto, e tão rápido, sobre si mesmo e sobre seu povo, os detalhes mais minuciosos dos ambientes físicos, sociais e mentais que criamos e construímos quase sem notar enquanto a vida se faz viver.

É neste momento que o governo federal opta por eliminar quase por completo as bolsas de iniciação científica para ciências humanas: aquelas por meio das quais um povo conhece a si mesmo. Mesmo que a medida tenha o mérito (mais do que duvidoso) de ser coerente com a política geral do governo para a ciência, a incapacidade de mudar de rumo, diante da mudança radical das circunstâncias provocada pela COVID-19, é espantosa.

Bolsas de iniciação científica, concedidas a estudantes de graduação, marcam o início da carreira do futuro pesquisador, e equipam o pesquisador já experiente com a ajuda de jovens inteligentes e entusiasmados. No fim de abril, o governo encabeçado (se é que a palavra faz sentido, neste contexto) por Jair Bolsonaro houve por bem excluir quase todas as humanidades do rol de áreas contempladas com bolsas do CNPq, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

A medida afeta o chamado PIBIC (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica). Serão oferecidas apenas bolsas para projetos de humanidades que tenham caráter de apoio a “áreas tecnológicas aplicadas”. Também foram cortados do PIBIC os projetos de pesquisa voltados para as chamadas ciências básicas – aquelas que não têm aplicação tecnológica visível no curto prazo.

Deveria, claro, ser ocioso lembrar que praticamente toda aplicação tecnológica contemporânea existiu, um dia, como potência ou embrião dentro de um programa de pesquisa básica. Num momento em que a vida de milhões de pessoas pode depender de detalhes obscuros da bioquímica de um vírus, da compreensão dos recônditos da resposta imune humana, gritar o óbvio a plenos pulmões pode ser tão frustrante quanto urgente.

O desprezo do atual ocupante do Palácio do Planalto pelas humanidades em geral, e ciências humanas em particular, não é novidade, e já foi alvo de editorial anterior desta revista, publicado há pouco mais de um ano.

A exclusão das humanidades e da pesquisa básica das bolsas do PIBIC já seria grave a qualquer momento. No cenário atual, é estarrecedora. Ao privar o Brasil de meios para conhecer a si mesmo, Bolsonaro e os prepostos que fazem cumprir suas ordens no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e no CNPq optam por manter o país tateando às cegas, à beira do abismo.

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