Tudo o que você precisa saber sobre acupuntura

Questão de Fato
26 fev 2020
porco espinho

 

A acupuntura é uma das formas mais disseminadas de medicina alternativa. A técnica consiste na colocação de agulhas na pele em pontos específicos, associada ou não a compressas de uma erva aquecida (moxa), e baseia-se no princípio de que as doenças são causadas por um desequilíbrio em uma força vital invisível. O corpo humano seria percorrido por meridianos onde circula a energia vital “chi”. O estímulo por agulhas de pontos de acupuntura específicos, mapeados sobre essa rede de meridianos, poderia restaurar o equilíbrio energético do paciente, e assim curar doenças. 

O conceito mais amplo, de que doenças são causadas pela perda de algum equilíbrio fundamental do corpo, surgiu várias vezes na história, e em diferentes culturas. A antiga prática ocidental da sangria também pressupunha que todas as doenças eram causadas por desequilíbrios, no caso de fluidos corporais, os “quatro humores”, um dos quais era o sangue Para realizar uma cura, bastava sangrar ou purgar o humor que apresentasse excesso. A expressão “mal-humorado” vem desta época. 

O “chi”, os meridianos e os pontos da acupuntura nunca foram detectados, ou tiveram sua existência comprovada. Você não vai encontrá-los em livros de anatomia ou fisiologia humana. Curiosamente, apesar da completa implausibilidade do seu “mecanismo de ação”, a prática é bastante popular. 

Acupunturistas alegam que a prática é eficaz para vários tipos de doença, como artrite, asma, alergias, infecções, bronquite, diarreia, epilepsia, obesidade, enxaquecas, disfunção sexual, paralisia, tendinite, daltonismo, surdez, etc.. No entanto, é na busca pelo alívio da dor que a prática parece fazer mais sucesso. De fato, a causa de inúmeras dores crônicas é difícil de diagnosticar e tratar, e muitos pacientes desiludidos pela medicina buscam alívio em práticas alternativas. Infelizmente, porém, o alívio é inconsistente, e não dura. A acupuntura é apenas um grande placebo. Talvez o melhor deles, mas ainda assim, um placebo. Um teatro com agulhas. 

A popularidade da terapia no ocidente não aconteceu por acaso. 


No início do século 20, a acupuntura estava praticamente abandonada na China. Os chineses assimilavam com entusiasmo a ciência moderna. Intelectuais chineses dessa época consideravam a acupuntura uma superstição, irracional e retrógrada: 

“Nossos estudiosos não entendem de ciência, por isso usam conceitos de yin-yang e crenças nos cinco elementos para confundir o mundo... Nossos médicos não compreendem a ciência, não sabem nada de anatomia humana, assim como nunca ouviram falar sobre doenças bacterianas e infecções. O chi nunca será compreendido nem que vasculhemos o universo atrás de evidências. Todas essas crendices irracionais e superstições podem ser corrigidas na raiz pelo uso da ciência” (Kwok DW. Scientism in Chinese Thought. New Haven; 1965:135).

Essa citação reflete bem o sentimento da época. A prática da acupuntura ficou restrita às áreas rurais da China, com menos acesso à informação. No período de 1927-36, não houve uma única publicação sequer sobre acupuntura nas revistas científicas chinesas. Então, como foi que as agulhas de repente se tornaram tão populares, como parte integrante daquilo que hoje é um dos maiores produtos de exportação da China, a Medicina Tradicional Chinesa (MTC)? 

O governo de Mao Zedong, que chegou ao poder com a Revolução Comunista de 1949, trouxe outras consequências, para além da terrível revolução cultural. Foi também uma era de revolução médica. Só que ao contrário. Mao fez a medicina chinesa andar para trás. 

Quando a República Popular da China se formou, a maior parte do país era rural e não tinha acesso a qualquer tipo de assistência médica. Os hospitais estavam concentrados nas grandes cidades, e mesmo assim, eram poucos. Mao havia prometido prover saúde adequada para toda a China, mas não tinha recursos, nem pessoal capacitado. Ele resolveu então promover as práticas antigas e unificá-las, sob um termo INVENTADO por ele mesmo: a Medicina Tradicional Chinesa (MTC). 

Em seu livro de memórias, o médico pessoal de Mao, Li Zhisui, reproduz a seguinte fala, atribuída ao líder supremo da revolução: “Embora acredite que devemos promover a Medicina Chinesa, eu mesmo não acredito nela. Não uso Medicina Chinesa”. Promover a MTC foi um ato político, não uma decisão científica.  

Origem da acupuntura

No início dos anos 1970, foram descobertos manuscritos antigos, de aproximadamente 168 AEC, nos túmulos deMa-wang. São os documentos mais antigos com registros de técnicas de medicina da época. Não há nenhuma menção à acupuntura nesses manuscritos. Há menção a 11 dutos ou vasos sanguíneos. Acreditava-se que as doenças estavam relacionadas ao sistema vascular, e o tratamento envolvia a sangria com pedras afiadas – o conceito de agulhas pode vir daí, mas a prática era a sangria. 

O primeiro manuscrito que descreve uma prática similar à acupuntura é o Huang-ti nei-ching, ou Clássico Médico do Imperador Amarelo, que data aproximadamente do primeiro século AEC. Uma boa história da acupuntura pode ser lida aqui

Esse livro descreve 12 vasos, e também o conceito de um agente causador de doenças: um demônio chamadoHsieh, que podia se alojar nesses vasos e interromper o fluxo sanguíneo. 

O conceito de chi – ou energia vital, como dizem os acupunturistas modernos – vem do termo hsieh-chi, ou influências malignas. Os chineses antigos acreditavam que as doenças eram causadas por demônios ou espíritos. O vento era considerado um demônio, e acreditava-se que esse espírito maligno residia em cavernas. Nos textos onde a acupuntura começa a ser descrita como uma prática, os termos “cavernas” ou “túneis” são utilizados para designar buracos na pele por onde os demônios podem entrar e sair. A prática de inserir agulhas nesses pontos deveria liberar os demônios e restaurar o equilíbrio e, portanto, a saúde.

Como tantas outras práticas antigas, devemos lembrar que elas surgiram em uma época na qual o conhecimento do corpo humano e do mecanismo por trás das doenças era precário. A dissecção de cadáveres e as cirurgias eram proibidas na China antiga, pois acreditava-se que o corpo devia ser mantido intacto para o encontro com os ancestrais na hora da morte. Por esse motivo, a punição mais severa era ser decapitado. 

Assim, uma prática médica não invasiva, e que não exigia conhecimento dos órgãos internos, fazia todo o sentido. Como não podiam estudar a anatomia humana, os chineses apenas imaginavam o que seriam os órgãos e suas funções. Há registros de um órgão chamado "aquecedor triplo" que ocuparia quase toda a região dorsal.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico clássico da acupuntura é baseado no pulso do paciente, mas não na frequência cardíaca medida pela medicina moderna. Os antigos acreditavam que cada um daqueles 11 vasos, ou dutos, hoje chamados meridianos, emitia um ritmo de pulsação diferente. Essa pulsação, juntamente com o histórico do paciente, sua língua e o tempo lá fora (sim, se estava calor ou frio, úmido ou seco), contribuíam para o diagnóstico. Se você já se tratou com acupuntura, sabe que esse ainda é o método de diagnóstico utilizado. Uma vez diagnosticado, o médico escolhe os pontos específicos para estimular a saída do demônio. Ou, em termos mais modernos, restaurar o fluxo energético. E que pontos são esses?

Os textos mais antigos apontam a presença de 365 pontos. Não há nenhum registro do porquê desses pontos, a não ser o fato de corresponderem aos 365 dias do ano. Além disso, há diferentes escolas de acupuntura. Algumas utilizam esses 365 pontos, enquanto outras adotam mais de dois mil pontos. Felix Mann, um dos fundadores da Sociedade de Acupuntura Britânica, disse que, se levarmos em conta todos os textos existentes, não sobraria um único centímetro de pele que não fosse um ponto de acupuntura!

Mais recentemente, artigo científico publicado no Journal of Acupuncture and Meridian Studies demonstrou que os próprios acupunturistas não conseguem chegar a uma conclusão sobre onde os pontos estão localizados. Os autores avaliaram 14 trabalhos e perceberam uma notável variação nos pontos de acupuntura utilizados por diversos terapeutas. 

Fica um pouco difícil imaginar como um terapeuta vai escolher que pontos furar se diferentes escolas usam diferentes pontos, e mesmo entre os que estudaram nas mesmas escolas, não há um consenso, certo? 

 

Ainda há que se levar em conta, como diz a médica Harriet Hall em seu blog skepdoc, se as estruturas anatômicas variam de uma pessoa para outra, os pontos de acupuntura e os meridianos também não deveriam variar? As veias da sua mão, por exemplo, não estão em local idêntico às veias das mãos de outra pessoa. Em geral, seres humanos têm cinco vértebras lombares, mas algumas pessoas têm seis. Há quem nasça com um rim, em vez de dois. E mesmo para tirar sangue na hora de um exame, sabendo onde as veias estão, é difícil acertar, e até profissionais experientes de enfermagem erram às vezes. 

Por que os pontos de acupuntura deveriam ser tão mais fáceis de prever, encontrar e perfurar corretamente? É muito mais razoável supor que, na verdade, tanto faz, porque os pontos e meridianos são imaginários. 

E se funcionar mesmo assim? 

Inúmeros estudos, desenhados de forma extremamente elegante, testaram a eficácia da acupuntura, usando o modelo mais próximo possível do padrão ouro de testes clínicos, o teste randomizado, duplo-cego, com grupo controle. Esse tipo de teste, quando bem planejado e bem conduzido, permite isolar a melhora provocada pela reação psicológica às expectativas do médico e do paciente, e apontar qual o efeito específico do tratamento testado.

Alguns grupos conseguiram criar maneiras de pôr a acupuntura à prova em condições quase ideais. Não há, nos testes de acupuntura, como eliminar o efeito da expectativa dos médicos, mas a equipe liderada por Edzard Ernst, professor titular de Medicina Alternativa da Universidade de Exeter, Inglaterra, conseguiu desenvolver agulhas falsas retráteis, com as quais o paciente sentia a picada, mas que não penetravam na pele o suficiente para alcançar os supostos “meridianos”.

Um conjunto de pesquisadores alemães desenvolveu estudo de altíssima qualidade, com uma amostra de 1100 pacientes com dor crônica na coluna. Foram utilizadas as agulhas falsas e agulhas em pontos aleatórios, além de um grupo controle no qual os pacientes foram submetidos apenas a exercícios físicos e fisioterapia. Os autores demonstraram que o efeito obtido era exatamente o mesmo, com agulhas verdadeiras ou falsas, sendo que em ambos os grupos observou-se uma redução de dor de 45%, contra 25% entre os pacientes que fizeram apenas exercícios e fisioterapia.

Outros estudos utilizaram agulhas verdadeiras, porém colocadas em pontos falsos, e chegaram ao mesmo resultado. A conclusão foi que não importa se as agulhas são de fato colocadas, nem onde elas são colocadas. O efeito observado nessas situações é o mesmo: os pacientes tratados com acupuntura, com acupuntura falsa ou com acupuntura em pontos falsos relatam diminuição da dor, e o mesmo não ocorre com os pacientes não tratados - ou seja, a acupuntura não demonstra eficácia além do efeito placebo.

Além destes trabalhos isolados, diversas meta-análises, que agregam resultados de diversos estudos sobre um mesmo assunto, já tentaram medir a eficácia da acupuntura. A mais recente avaliou o uso das agulhas justamente para dor, sua função mais popular. Os autores agregaram diversos trabalhos, e sua maior dificuldade foi encontrar estudos de qualidade. Assim como a grande maioria das práticas alternativas, existe um número assombroso de artigos publicados em revistas de baixa qualidade e/ou específicas para medicina alternativa, que não são feitos com o devido rigor científico. 

A conclusão dos autores deixa isso claro: “Nossa análise das evidências revela que o debate perene sobre a eficácia clínica da acupuntura para alívio da dor está baseado em um enorme volume de ensaios clínicos inconclusivos. Se agentes e profissionais de saúde querem fazer escolhas informadas sobre o uso de acupuntura para o alívio da dor crônica, é essencial que tenhamos mais qualidade nos ensaios clínicos desta prática.”

Mas como sabemos que os devotos da prática sempre têm argumentos que “provam” que a acupuntura funciona, já antecipamos alguns aqui. Vamos a eles:

Mas é uma arte milenar!

A origem da acupuntura é muito controversa. Alguns dizem que ela tem mais de cinco mil anos e se originou na Europa. Outros, “apenas” dois mil anos, com origem na China. De qualquer maneira, por que deveríamos reverenciar uma prática somente por ela ser milenar? A teoria dos humores, a prática de purgação e de sangria, e o exorcismo também são milenares, e nem por isso nós os reverenciamos e continuamos a praticá-los com o medicina. Também o machismo e o racismo perduram por milênios.

Mas milhares de pessoas acreditam!

O número de mulheres no mundo hoje, que sofreram circuncisão feminina na infância, é de aproximadamente 200 milhões, conforme estimativa da ONU. Isso quer dizer que as mães de 200 milhões de meninas acharam que isso era uma boa ideia. Poderiam todas elas estarem erradas? Claro que sim! Para dar um exemplo mais próximo, 50 milhões de pessoas elegeram o atual presidente da República. Milhares de pessoas acreditam que mulheres e negros são inferiores. Milhares de pessoas acreditaram que judeus deveriam ser mortos, durante a Segunda Guerra Mundial. Infelizmente, péssimas ideias também podem ser muito populares. 

Mas funcionou para o meu cunhado...

O efeito placebo produzido pelo teatro da acupuntura é extremamente eficaz. Além do efeito da sugestão em si, provocado pela atenção carinhosa do acupunturista  e pelo relaxamento da sessão, efeitos como regressão à média e resolução natural da doença também contribuem para uma percepção de melhora, como já explicamos aqui

A “biomedicina hegemônica” não serve para avaliar a medicina oriental

Ensaios clínicos randomizados, com grupo controle e duplo-cegos são o tipo de evidência mais confiável para avaliar a eficácia de um medicamento ou tratamento. Por isso, existem tantas tentativas de avaliar a acupuntura dentro deste método. E até agora, todas as tentativas falharam ou apresentaram resultados positivos pequenos demais para ter relevância clínica. Como diz a médica Harriet Hall “...quando um tratamento é realmente eficaz, novos estudos tendem a produzir evidências melhores e mais convincentes. Quando um tratamento é extensivamente estudado, durante décadas, e a evidência continua sendo inconsistente, torna-se cada vez mais provável que o tratamento não seja eficaz. Este parece ser o caso da acupuntura. Na verdade, como um todo, as evidências publicadas (com rigor científico) mostram que a acupuntura não passa de um placebo”.

Assim, se a medicina oriental "funciona" de forma diferente, com órgãos e estruturas imaginárias, talvez ela não devesse ser classificada como medicina, e sim como mágica ou religião. 

Aposto que você nunca experimentou! 

Sim, esta autora já se tratou com acupuntura por um longo período quando era adolescente, cortesia de uma rinite alérgica crônica. O tratamento indicado na época pela medicina convencional era baseado em injeções semanais com alérgenos, para dessensiblizar a reação. As injeções não funcionaram. Nem a acupuntura. A alergia passou com a idade, e nunca mais tive crises. Também submeti meu finado e querido cão, que tinha artrose nos joelhos, a sessões de acupuntura. Isso foi antes da minha carreira em ciência. Depois, pedi desculpas ao cachorro. E se você é daqueles que acha que acupuntura funciona em animais e por isso não pode ser placebo, também já falamos sobre o assunto aqui

Mas há artigos científicos com resultados positivos!

Como dito acima, acupuntura é uma das práticas alternativas mais difíceis de avaliar com testes clínicos adequados. Um teste ideal deve ser duplo-cego – ou seja, nem o paciente, nem o provedor de cuidado podem saber que o que está sendo aplicado é o tratamento real ou o placebo. No caso da acupuntura, o provedor sempre sabe se está usando agulhas reais ou retráteis, se está espetando os meridianos ou pontos aletaórios. Isso, por si só, gera um efeito placebo residual, com uma relevância clínica desprezível, que pode ser, e muitas vezes é, interpretado como sinal de que a acupuntura funciona “melhor que o placebo”. Se este efeito residual fosse encontrado em um teste clínico de um medicamento convencional, o remédio jamais seria aprovado. 

Mas esse é só um fator: a verdade é que a maioria dos estudos sobre acupuntura com resultados positivos sequer atende ao requisito mínimo de “cegar” os pacientes em tratamento, além de apresentar diversos outros problemas metodológicos.

 

Natalia Pasternak é pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e presidente do Instituto Questão de Ciência

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