Ibuprofeno e coronavírus: tem problema?

Questão de Fato
16 mar 2020
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No sábado, 14/03, o ministro da saúde francês, Oliver Véran, alertou em seu twitter: “Tomar medicamentos anti-inflamatórios (ibuprofeno, cortisona, ...) pode levar ao agravo de infecção por coronavírus. Em caso de febre, use paracetamol. Se está tomando algum medicamento anti-inflamatório ou em caso de dúvida, consulte seu médico". 

 

 

Isso foi suficiente para que diversos veículos de comunicação começassem a divulgar a informação, gerando muitas dúvidas e grande alarde sobre o uso desses fármacos durante um período em que praticamente todos nós temos algum risco teórico de contrair a infecção. Aparentemente, o tweet de Véran tem como base algumas informações circulantes, que já foram desmentidas, e um artigo de correspondência publicado dia 11/03 na revista The Lancet, intitulado "Are patients with hypertension and diabetes mellitus at increased risk for COVID-19 infection?" ("Pacientes com hipertensão e diabetes mellitus têm risco aumentado para infecção pelo COVID-19?").

Basicamente, o artigo cita estudos que mostram associação de hipertensão e diabetes com quadros mais severos de infecção pelo vírus. Também cita um estudo que mostra que os coronavírus patogênicos humanos se ligam às células-alvo do organismo por meio de uma enzima: a enzima conversora de angiotensina-2 (ECA-2), expressa em células dos pulmões, intestino, rins e vasos sanguíneos. A expressão dessa enzima estaria aumentada em pacientes hipertensos e diabéticos, tratados com certos tipos de medicamentos anti-hipertensivos e hipoglicemiantes, aumentando também a possibilidade de infecção pelo coronavírus, bem como a gravidade dos quadros. O artigo de "The Lancet" cita ainda que ibuprofeno também seria capaz de aumentar a enzima. Essa última informação, contudo, não foi referenciada.

O uso indiscriminado de anti-inflamatórios

Em termos amplos, a recomendação do ministro francês parece ir ao encontro das recomendações genéricas sobre o uso não criterioso de anti-inflamatórios em quaisquer situações. De fato, se um indivíduo apresenta dor e/ou febre, faz mais sentido utilizar um fármaco analgésico e antitérmico, sem a necessidade de uma ação anti-inflamatória. Isso provoca menos alterações prejudiciais em processos importantes do corpo humano, como a manutenção da proteção gástrica, a coagulação do sangue e a cicatrização de tecidos. Esses processos, quando alterados, podem agravar ou retardar a recuperação em quadros infecciosos. Além disso, a automedicação com anti-inflamatórios, em quadros infecciosos, pode mascarar os sintomas iniciais, o que poderia atrasar o diagnóstico de doenças. Por esses motivos, há bastante tempo já não se recomenda o uso indiscriminado de anti-inflamatórios em casos de amigdalites, por exemplo.

Sendo assim, em casos de dor e/ou febre, opções mais racionais seriam paracetamol ou dipirona, que reduzem a temperatura e provocam analgesia, na ausência de ação anti-inflamatória. Os anti-inflamatórios não esteroidais (como ibuprofeno, dicoflenaco, nimesulida etc.) e esteroidais (como os corticoides) seriam utilizados em quadros inflamatórios agudos importantes, em doenças crônicas como artrite reumatoide ou asma, entre outras condições. Estamos diante, portanto, do velho equilíbrio entre avaliar o risco versus o benefício de um determinado tratamento. Nesse contexto genérico, a recomendação de Véran pode fazer algum sentido, embora não devesse necessariamente contraindicar o uso desses medicamentos.

Ainda no contexto de uma infecção viral, como a causada pelo coronavírus, mais preocupante que o uso de anti-inflamatórios, seria o uso de antibióticos. Antibióticos são utilizados no combate a infecções bacterianas e não produzem efeito algum contra vírus (incluindo o SARS-CoV2). Sendo assim, o seu uso nessa situação, além de não tratar a doença, provoca a destruição das bactérias benéficas presentes no organismo (como a microbiota intestinal ou vaginal) e ainda favorece a seleção de bactérias resistentes, aumentando o risco de infecções bacterianas graves no futuro.

Qual é, então, o problema no tweet do ministro?

Afirmar, em poucos caracteres, que anti-inflamatórios podem agravar a infecção por coronavírus (sem evidências claras a respeito disso), em um contexto de desinformação e pânico, pode gerar diversas consequências prejudiciais à saúde individual e coletiva. A primeira delas é que as pessoas façam com o paracetamol o que estão fazendo com papel higiênico: compras em massa, seguidas por desabastecimento maciço. A segunda, e mais preocupante, é que pacientes que necessitam de anti-inflamatórios para o controle crônico de doenças podem deixar de utilizar os medicamentos, por medo, agravando seus quadros de saúde e sobrecarregando ainda mais um sistema de saúde já sobrecarregado.

Por exemplo: a asma é uma doença broncoconstritora e inflamatória das vias aéreas. O tratamento clássico da asma moderada à grave consiste na utilização de broncodilatadores diretos e de anti-inflamatórios corticoides, na maioria das vezes pela via inalatória. Um paciente asmático que se depare com uma notícia alarmista dessas, vinda do seu ministro de saúde, pode, por medo, abandonar o tratamento, favorecendo crises asmáticas (mais comuns, inclusive, durante infecções virais) em um momento no qual os esforços dos sistemas de saúde estão concentrados no combate à pandemia. 

Dessa forma, o que sabemos até o presente momento é que não há nenhuma nova evidência científica que possa estabelecer uma contraindicação formal do uso de ibuprofeno (e outros anti-inflamatórios) durante a infecção pelo SARS-CoV2. A possível relação entre a utilização desses fármacos e o agravamento da infecção pelo coronavírus está sendo investigada na União Europeia pelo Comitê de Avaliação de Riscos em Farmacovigilância, uma vez que a Agência de Medicamentos Francesa solicitou assistência sobre o assunto. Os resultados dessa avaliação devem estar disponíveis apenas em maio. 

A recomendação mais racional, portanto, é a de que pacientes que façam uso de anti-inflamatórios para qualquer condição clínica e que estejam infectados pelo coronavírus devam ser avaliados individualmente em relação ao risco da suspensão dos fármacos versus o risco potencial de complicações pelo vírus. E, mais importante que isso, que se mantenha a adoção sistemática das medidas preventivas recomendadas pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde.

André Bacchi é professor de Farmacologia do Curso de Medicina da Universidade Federal de Rondonópolis. É divulgador científico por meio dos podcasts Synapsando, Scicast, Spin de Notícias e Scikids

REFERÊNCIAS

Zhang, H., Penninger, J.M., Li, Y. et al. Angiotensin-converting enzyme 2 (ACE2) as a SARS-CoV-2 receptor: molecular mechanisms and potential therapeutic target. Intensive Care Med (2020). https://doi.org/10.1007/s00134-020-05985-9

ACC CLINICAL BULLETIN COVID-19 Clinical Guidance For the CV Care Team. https://www.acc.org/media/Non-Clinical/Files-PDFs-Excel-MS-Word-etc/2020/02/S20028-ACC-Clinical-Bulletin-Coronavirus.pdf

    Zhang JJ Dong X Cao YY et al. Clinical characteristics of 140 patients infected by SARS-CoV-2 in Wuhan, China. Allergy. 2020; DOI:10.1111/all.14238

Fang F Karakiulakis G Roth M. Are patients with hypertension and diabetes mellitus at increased risk for COVID-19 infection? . The Lancet.2020. https://www.thelancet.com/journals/lanres/article/PIIS2213-2600(20)30116-8/fulltext

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