No Brasil, tendência ainda é de crescimento da COVID-19

Questão de Fato
28 abr 2020
vírus SARS-CoV-2

 

Terça-feira, 28/04/2020.  Anote esta data na sua agenda. É o dia em que o Brasil ultrapassará a China no ranking do número absoluto de mortes por COVID-19. E como sabemos disso? Pela ciência, como diria uma tia querida que mora em Belém. Ou, como bem colocou Karl Pearson, pela estatística, que é a gramática do conhecimento científico. Neste artigo, utilizaremos duas diferentes técnicas de análise de dados para justificar a nossa expectativa a respeito da quantidade esperada de vidas brasileiras consumidas pelo novo vírus.

Em artigos anteriores (aqui e aqui), mostramos que, em média, quanto maior o número de casos, maior a quantidade de óbitos. Operacionalmente, essa associação pode ser aferida com auxílio de uma técnica denominada de correlação. O Gráfico 1 ilustra a relação entre a incidência de casos e a mortalidade por Covid-19 no mundo.

 

gráfico 1

Como pode ser observado, a relação entre casos e óbitos por COVID-19 é adequadamente descrita por uma linha reta. Ou seja, quando uma variável aumenta, em média, a outra cresce também. É o que os estatísticos chamam de correlação positiva. Observe que o Brasil se encontra ligeiramente acima da reta azul, o que significa uma mortalidade maior do que o esperado, dada a quantidade registrada de casos. 

Outra informação interessante é a posição relativa do Brasil ao se considerar todos os países do mundo. Estamos, por assim dizer, “mais para lá (direita) do que para cá (esquerda)”. Para melhor compreender essa dinâmica, o Gráfico 2 reproduz essa análise para uma amostra menor de casos: apenas os 11 países mais “bem posicionados” no ranking do número absoluto de mortes.

 

grafico 2

 

Ao se considerar apenas os 11 países com a maior quantidade de mortes, o Brasil está posicionado no canto inferior esquerdo, muito próximo da China. Devemos nos dar por felizes? De forma alguma. De acordo com https://www.worldometers.info/coronavirus/, até as 20:h1 do dia 27/04/20 20, foram registradas 4.633 fatalidades na China. No Brasil, os dados mais recentes indicam 4.543 mortes.

A diferença de 90 óbitos por ser interpretada como flutuação aleatória dos dados, o que significa dizer que a quantidade de ocorrências fatais é tecnicamente igual em ambos os países. Controlando pelo tamanho da população, todavia, a mortalidade da China (3) é significativamente menor do que a brasileira (21). Então, repita comigo: a China já ficou para trás.

Seguindo o ranking do número absoluto de mortes, temos Reino Unido (5º), Bélgica (6º), Alemanha (7º) e Irã (8º). O Gráfico 3 compara a evolução da letalidade no Brasil em perspectiva comparada.

grafico 3

 

No Reino Unido, o número de mortes já ultrapassou a marca de 20 mil. A Bélgica, que contabiliza 7.200 óbitos, exibe uma vantagem confortável em relação à Alemanha (6.061 mortes). O Irã aparece na oitava posição, com aproximadamente 5.800 óbitos.

Em particular, ao se considerar a análise gráfica, duas informações saltam aos olhos: (1) todos os países exibem tendência positiva e (2) o Brasil está se aproximando rapidamente dos demais. Dada a velocidade do contágio registrada nos últimos dias (na segunda-feira, registramos mais novos casos do que a Espanha), é questão de dias para conquistarmos novas posições. O Gráfico 4 compara a situação do Brasil com os quatro países que mais perderam vidas para a Covid-19 (Estados Unidos, Itália, Espanha e França).

graf 4

 

Os Estados Unidos já contabilizam mais de 55 mil mortes, que é mais ou menos a capacidade máxima da Arena do Grêmio (55.662). Por sua vez, a Itália já perdeu 27 mil vidas, o que equivale a toda a população de São Joaquim (SC), que contava com 26.952 habitantes em 2019, de acordo com o IBGE. A Espanha e França já aparecem em empate técnico, com quase 24 mil óbitos. Observe que o Brasil ainda aparece longe do “G-4” da mortalidade (basta ver a distância da linha vermelha em relação as demais curvas). O Gráfico 5 ilustra a quantidade esperada de óbitos no Brasil até 02/05/2020. 

 

grafico 5

 

A barreira de 5 mil mortes será rompida nas próximas 48 horas. No dia 02/05/2020, já teremos perdido mais de 6 mil brasileiros. Em duas semanas ou menos, a Alemanha e Bélgica serão ultrapassadas. E aí faltarão apenas cinco países a serem superados. Cada vez mais vai ficar difícil defender a hipótese de que é apenas uma “gripezinha”.

 

Dalson Britto Figueiredo Filho é professor-assistente de Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

Lucas Silva é cientista político e estudante de Medicina na Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas

Enivaldo Rocha tem graduação em Estatística (UFPE), mestrado em Estatística (USP) e doutorado em Engenharia de Produção (UFRJ). É professor titular aposentado da Universidade Federal de Pernambuco e membro do Grupo de Métodos em Pesquisa em Ciência Política (MPCP)

 

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