A marcha da COVID-19 rumo ao interior do país

Questão de Fato
7 jun 2020
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capitanias hereditarias

O avanço da COVID-19 para o interior do país está acelerado. Nas últimas semanas, nos municípios de médio porte, com população entre 20 mil e 50 mil habitantes, seis novas cidades apresentaram mortes pela primeira vez a cada dia, enquanto nos pequenos, com entre 10 mil e 20 mil habitantes, foram cinco novas cidades por dia. Para piorar a situação, os moradores de muitas dessas localidades estão longe do socorro. De acordo com um levantamento feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), cerca de 7,8 milhões de brasileiros vivem a pelo menos quatro horas de distância de um município que tenha Unidade de Terapia Intensiva (UTI), equipamentos e pessoal especializado para doenças respiratórias graves e agudas, como a causada pelo novo coronavírus.

De acordo com a pesquisadora Mônica Magalhães, que faz parte do MonitoraCovid-19, um sistema criado por pesquisadores da Fiocruz e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que integra dados sobre o novo coronavírus no Brasil e no mundo, mais de 60% dos municípios brasileiros apresentaram casos de COVID-19 e 21% registraram mortes até o dia 16 de maio. “Os casos continuam crescendo nas cidades com até 50 mil habitantes”, diz ela, que participou do estudo. “Isso significa que a doença continua acelerando para o interior do país, para as cidades menores”.

Para fazer o levantamento, a equipe da Fiocruz cruzou as informações de hospitalização por problemas respiratórios (entre eles a COVID-19) do banco de dados do Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe), do Ministério da Saúde, com os deslocamentos das pessoas e as distâncias potencialmente percorridas pela população, definidas pelas Secretarias Estaduais de Saúde.

Até a data de conclusão da pesquisa, 227 municípios com população menor que 10 mil habitantes apresentaram o primeiro caso da doença. O mesmo ocorreu com 197 cidades que têm de 10 mil a 20 mil moradores e 112 com população entre 20 mil e 50 mil habitantes. “Os números mostram o avanço da epidemia nas pequenas e médias cidades”, diz Mônica. Com relação ao número de mortes, a nota técnica de divulgação do estudo, chamada Redes Covid-19: Acesso aos serviços de saúde e fluxo de deslocamento de pacientes em busca de internação, mostra que “50 municípios com menos de 10 mil habitantes apresentaram óbitos pela primeira vez, bem como 83 com população entre 10 e 20 mil habitantes, e 98 nos com população entre 20 e 50 mil habitantes”.

Para Mônica, um dos aspectos mais importantes do levantamento foi apontar que a população está mais vulnerável no país, quando se pensa em distância do atendimento numa unidade de saúde de alta complexidade. “Medimos em tempo e não em quilômetros, quantificando as pessoas que estão mais longe de um município que tenha serviço de atendimento médico especializado para atender os casos mais graves de COVID-19”, conta. “Em 175 municípios, há mais de 50% do total dos internados provenientes de outros municípios”.

A pesquisa mostrou também que a situação é pior nos estados do Amazonas, Pará e Mato Grosso. No primeiro, quase 40% da população (1,3 milhão de habitantes) mora em áreas com até quatro horas de deslocamento para chegar ao município mais próximo que ofereça condições de atendimento em casos graves de COVID-19, e nos outros estados, cerca de 30% (2,3 milhões e 888 mil pessoas, respectivamente). O interior do Nordeste, o norte de Minas Gerais e o sul do Piauí e do Maranhão são outras regiões com elevado porcentual de população que leva mais de quatro horas de viagem até um atendimento especializado mais próximo.

Mas este não é o maior problema. “O mais grave é que os estados não têm como garantir que uma pessoa vai atravessar todo esse tempo e percorrer toda esta distância e vai ser atendida, porque os municípios polos, que os estão recebendo, também estão com sua capacidade de atendimento esgotada.”, diz Mônica. “Então, é preciso fazer uma ligação entre esse tempo e distância em horas para chegar. É uma conta que os gestores precisam fazer”.

Os pesquisadores do MonitoraCovid-19 lembram, na nota técnica de divulgação do estudo, que o sistema de saúde funciona em redes que conformam regiões. “Achatar a curva para evitar o colapso do sistema de saúde demanda a definição clara e célere da região referida e de qual rede/sistema de saúde está sendo atendida. Esse é um aspecto fundamental para implementação de qualquer política de intensificação ou relaxamento de medidas de isolamento social”.

Uma das ações que poderia ter evitado a interiorização da doença – ou pelo amenizar o problema – teria sido pensar a questão do isolamento social de forma integrada, não só num município, mas em conjunto por todos aqueles que fazem parte de uma rede de serviços

No documento que divulgaram, os pesquisadores da Fiocruz dizem ainda que a interiorização da doença no país é um cenário que o sistema de saúde terá de enfrentar. “Traz inúmeras complicações do ponto de vista de capacidade de atendimento do sistema de saúde”, escreveram. “Apesar de termos tido tempo para evitar o processo de difusão territorial da COVID-19, as medidas de isolamento nos grandes centros não foram suficientes, em função, entre outras coisas, da dificuldade de adoção de um discurso único nas três esferas de administração. As redes de conexão entre os municípios não foram consideradas de forma adequada, não foram impostas barreiras sanitárias eficazes e assim a livre circulação de pessoas, bens e serviços entre os municípios acelerou o processo de interiorização do vírus”.

 

Evanildo da Silveira é jornalista

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