Medo da COVID-19 embarca nas plataformas da Petrobras    

Questão de Fato
4 jul 2020
Autor
Plataforma da Petrobras, 2017

Acostumados a longos períodos de confinamento, os trabalhadores embarcados de plataformas da Petrobras podem não estranhar muito as restrições trazidas à vida cotidiana pela pandemia de COVID-19 quando estão em terra. Mas a falta de confiança nos protocolos de prevenção da disseminação da doença adotados pela empresa está fazendo com que levem o medo a bordo, cada vez que partem para uma nova jornada nas operações off-shore da petrolífera.

Em relatos exclusivos feitos à Revista Questão de Ciência, dois funcionários que regularmente trabalham em plataformas da Petrobras, e que pediram para não ser identificados, expressam estranhamento quanto ao modo como a empresa se fia nos testes rápidos para decidir se uma pessoa está apta ou não para embarcar, e denunciam erros na interpretação dos resultados, erros que permitem o embarque de possíveis contaminados.

Devido à sua natureza, os testes rápidos, realizados com a deposição de uma gota de sangue numa tira plástica semelhante a um teste de gravidez comum, não servem para diagnóstico da COVID-19. Ao buscarem anticorpos para a doença que só começam a ser produzidos muitos dias após o contágio, eles apenas indicam a possibilidade de a pessoa ter tido contato com vírus no passado. São cegos para eventuais infecções ativas recentes. Um destes anticorpos, conhecido com IgM, é o primeiro a aparecer, e à medida que a pessoa convalesce, sua presença diminui, e ele é gradualmente substituído por outro, o IgG.

Supõe-se que a presença do IgG demonstra que a pessoa testada teve a doença, curou-se, está imune e não irá transmiti-la. São suposições razoáveis, mas não há, até agora, evidência contundente de que correspondam à realidade. De fato, estudos recentes sobre a reação imune ao SARS-CoV-2 indicam que a relação deste vírus com os anticorpos humanos é complexa e desafia qualquer interpretação simplista.

Além da incerteza científica, os testes rápidos apresentam ainda alto porcentual de erro. Não servem, portanto, como “passaporte” de uma pretensa imunidade à doença. Estes testes têm tanto problemas de precisão, com grande quantidade de resultados falso positivos, quanto de especificidade, o que facilita o aparecimento de falsos negativos. Nenhum órgão sério os recomenda como técnica para diagnosticar a COVID-19. São úteis apenas para levantamentos populacionais da prevalência do vírus, onde a realização de um grande volume de testes, e a aplicação de correções estatísticas, permitem “diluir” os erros.

 

Erro de interpretação

Para piorar, mesmo os resultados falhos dos testes estão sendo mal interpretados ou ignorados, contrariando determinações de notas técnicas emitidas pela própria Petrobras. Um funcionário da empresa denunciou à Revista Questão de Ciência o caso de um colega que, por duas vezes, testou positivo para IgM e negativo para IgG logo antes do embarque, numa indicação de possível infecção ativa pelo SARS-CoV-2, o vírus que provoca a COVID-19.

Segundo este funcionário, que pediu para não ser identificado, da primeira vez o colega teve o embarque adiado e ficou em quarentena, só podendo embarcar após testar negativo para os dois anticorpos dias depois, como estabelece nota técnica da Petrobras para estes casos. Recentemente, porém, o mesmo indivíduo voltou a testar positivo para IgM e negativo para IgG, e ainda assim teve a viagem autorizada, gerando medo e revolta dos demais funcionários no grupo.

“O teste rápido já é extremamente falho, mas tem sido uma barreira a mais que a empresa tomou (para evitar a disseminação do vírus), e ignorar o resultado dele é bizarro”, protesta. “Todos que recebemos a notícia deste resultado, e temos consciência do que significa, ficamos revoltados. Dessa vez, não houve contraprova e ele simplesmente teve seu embarque autorizado, sob a alegação de que há protocolo que prevê essa situação (de suposto falso positivo duplo no IgM) nas notas técnicas. Estou me sentindo absolutamente exposto. Não parece que foram adotadas as melhores práticas da ciência, nesse caso”.

Ainda de acordo com o funcionário, diante das manifestações de preocupação da equipe na plataforma, o gerente local determinou o isolamento do indivíduo em um camarote para posterior desembarque. Mas, após contatos com a coordenação de saúde das operações em terra, esta informou que o caso suspeito deveria ser liberado do confinamento e para o trabalho.

“Depois de três ou quatro reuniões bem tensas com a equipe de saúde, os gerentes de bordo e de base da plataforma foram informados que a equipe de saúde não daria respaldo para o desembarque do colega que subiu com IgM+ IgG-, e ele seguiria a bordo trabalhando normalmente”, informou. “A equipe de saúde não encontrou respaldo em nenhuma nota técnica já emitida pela empresa e decidiu, baseada na sua experiência e conhecimento, que o caso é tão seguro quanto um IgM- IgG-”.

 

Sindicato

E este episódio não é o único. Segundo Alexandre Vieira, coordenador de Saúde do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF), esta semana foi recebida mais uma denúncia do tipo. Para ele, se estas denúncias forem comprovadas, “não é nem caso de Justiça trabalhista, é caso de polícia”.

“É terrível, absurdo, uma total irresponsabilidade alguém embarcar com um resultado de teste assim”, diz. “Com isso, a Petrobras está descumprindo as próprias normas que instituiu, expondo não só seus funcionários, mas todo pessoal do aeroporto e no helicóptero, como o piloto, à doença. Uma pessoa dessas pode não ter sintoma nenhum e contaminar uma plataforma inteira. E é por isso que não paramos de ter casos e transmissão de COVID-19 nas plataformas. Essas pessoas estão passando pela peneira. Por quê, infelizmente, não sabemos”.

Como exemplo, Vieira conta que recentemente o sindicato recebeu informações de que cerca de 20% dos 51 tripulantes a bordo da plataforma P-15, na Bacia de Campos, contraíram COVID-19 enquanto estavam embarcados. Segundo ele, nove já foram desembarcados e tiveram diagnóstico confirmado, e outros três casos suspeitos também devem ser retirados da plataforma e diagnosticados em breve.

Já o outro funcionário que fez seu relato à Revista Questão de Ciência, e também pediu anonimato, conta que, apesar de não ter testemunhado caso semelhante de divergência na interpretação do teste rápido, também se sente inseguro com a dependência da empresa neles para as decisões de embarque, assim como o automonitoramento prévio dos escalados para embarcar.

“Acredito que risco é algo inerente nesse momento para manutenção do trabalho. Mas também acredito que o protocolo é frágil”, considera. “O que mais me preocupa, além da baixa precisão e efetividade do teste realizado, é a postura com relação aos contratos. Todos os contratos tiveram redução de efetivo, com isso veio o medo dos funcionários de mudança de regime que leve a redução salarial ou demissão. Desse modo, é muito provável que, face à possibilidade de perda de renda, ou até mesmo de emprego, que os trabalhadores procurem omitir sintomas ou contato com pessoas com COVID-19. O isolamento depende de cada trabalhador por sua própria conta, e o teste (rápido) não indica a doença no momento do embarque”.

A Petrobras, por sua vez, informa obedecer a “critérios técnicos” no uso e interpretação dos testes rápidos. Ao menos um deles, no entanto, não condiz com os atuais conhecimentos científicos sobre a COVID-19. De acordo com a empresa, “pessoas com teste positivo para IgG já tiveram exposição ao vírus e desenvolveram defesas naturais. Portanto, não estão doentes nem apresentam risco de contagiar outras pessoas, por isso são liberadas para o trabalho”. Esta suposta imunidade, porém, ainda não foi confirmada.

A Petrobras também confirmou que, com os testes rápidos, busca identificar pessoas sem qualquer sintoma que podem apresentar algum risco, com os resultados positivos para o IgM. Segundo a empresa, nestes casos os colaboradores devem ser encaminhados para repouso domiciliar, com monitoramento médico, para evitar o contágio dentro de suas unidades. Mas, até o fechamento desta reportagem, a Petrobras não explicou o que houve no caso relatado à Revista Questão de Ciência por um funcionário a bordo de uma de suas plataformas.

Ainda de acordo com a Petrobras, também foram adotadas várias outras medidas de prevenção da disseminação do novo coronavírus em suas instalações, como redução do efetivo a bordo, com manutenção apenas do mínimo necessário para a operação segura das plataformas; reforço dos procedimentos de limpeza e distanciamento seguro nas atividades operacionais e nos ambientes de uso social; orientação aos colaboradores para que todas as ações preventivas sejam tomadas; monitoramento domiciliar de saúde por 14 dias com isolamento pré-embarque; e isolamento e desembarque dos colaboradores a bordo que apresentem sintomas, bem como seus contatantes, para realização de testes PCR e acompanhamento por equipes médicas - nesses casos, a unidade também passa por desinfecção.

“Desde o início da pandemia de COVID-19, (a Petrobras) adotou uma série de medidas para reduzir o grau de exposição dos trabalhadores em atividades operacionais essenciais, visando a preservação da saúde de todos”, afirma a empresa em nota. “Desde 19 de março, a Petrobras reduziu o número de pessoas nas atividades operacionais ao mínimo necessário para continuidade das atividades essenciais com segurança. Além destas medidas, diversas ações vêm sendo implantadas nas unidades, como reforço nas rotinas de limpeza para prevenção à COVID-19 e outras alterações na rotina operacional para permitir o distanciamento entre as pessoas, como diminuição no número de pessoas nos transportes aéreos e terrestres; ampliação do horário de funcionamento de refeitórios para diminuir a concentração de pessoas e possibilitar o distanciamento; e reforço dos pontos de disponibilização de álcool em gel”.

Mas, apesar de elogiarem estas medidas, os funcionários embarcados da empresa não se sentem tranquilos.

“De nada adiantam protocolos robustos se não são seguidos”, resume o primeiro denunciante.

 

Cesar Baima é jornalista e editor-assistente da Revista Questão de Ciência

 

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