Pensamento mágico e desespero político

Apocalipse Now
14 fev 2020
Autor
Harry Clarke illustration for EA Poe story

Desespero, desalento e sentimento de impotência fazem com que as pessoas se sintam mais atraídas por superstições e pensamento mágico: a ideia de que crenças, emoções e gestos simbólicos são capazes de afetar diretamente a realidade, sem necessidade de qualquer tipo de mediação material ou conexão lógica entre causa e efeito. 

Não me parece coincidência que o avanço global da chamada “gig economy”, onde cada trabalhador vira empresário de si mesmo, a rede de proteção social se esgarça e nunca se sabe de onde virá o próximo almoço, esteja correlacionado à explosão da popularidade de técnicas e doutrinas – como programação neurolinguística (PNL), “cocriação quântica” da realidade, lei da atração e diversas linhas de “coaching” – que não fazem nada além de reativar, sob outros pretextos, o bom e velho maquinário psicológico da magia e da superstição.

Esse fenômeno, na esfera econômica (e também de saúde), tem recebido uma boa dose de atenção, incluindo textos nesta revista e em outros sites. O que segue largamente ignorado por aí é o apelo crescente do pensamento mágico também na esfera política

E não me refiro aqui à afinidade de líderes como os ex-presidentes Lula e José Sarney por videntes e curandeiros, ou à influência exercida por maluquices conspiratórias e ocultistas sobre o círculo íntimo de políticos como Donald Trump ou Jair Bolsonaro, mas à ideia de que mágica – seja sob a forma de bonecas vodu, estímulo dos chacras ou algum trololó “quântico” – seria um modo eficaz de produzir mudanças sociais relevantes.

A tendência não é inédita: em 1967, um grupo de hippies tentou levitar o Pentágono com o poder da mente, exorcizar seus maus espíritos e, assim, interromper a Guerra do Vietnã; além disso, há décadas que Amit Goswami vende por aí sua proposta de “ativismo quântico”, a ideia de que existe um “campo de consciência” que cria a realidade, e que deve ser possível, por meio de técnicas como meditação, carregar esse campo com intenções positivas, e alterar, assim, o mundo. 

Dez anos antes de Goswami chegar à cena, ocultistas como Peter J. Carroll desenvolviam a chamada “magia do caos”, misturando paródia, punk rock, ficção científica e – claro! – “física quântica” para canalizar e dirigir energias mentais. Mas, com exceção dos hippies no fim dos anos 60, esses movimentos sempre foram pouco visíveis para a corrente principal da cultura. 

Agora, no entanto, eventos com o lançamento de “Hexing the Patriarchy” livro que traz uma lista de feitiços para combater o machismo (“faça banhos de sal para lavar as bobagens do patriarcado, crie poções para expulsar abusadores mentirosos da cidade”) e a recém-encerrada tentativa da guru New Age Marianne Williamson (autora de, entre outros, “A Lei da Compensação Divina” e “Lições Espirituais para Perder Peso”) de disputar a Presidência dos EUA, pelo Partido Democrata, sugerem que a fé no pensamento mágico como ferramenta de transformação política estabeleceu uma cabeça-de-ponte no mainstream.

É importante notar que, com exceção de Goswami, que é bem explícito em sua crença de que é possível “sintonizar” uma espécie de campo universal de consciência e fazer “uploads” de boas vibrações lá, os demais proponentes de uma ação política baseada em mágica ficam indo e voltando, em sua literatura, entre a ideia de que a magia é apenas uma forma de criar predisposição psicológica favorável – focalizando a atenção, reduzindo estresse, aumentando a autoconfiança, etc. – e a de que se trata mesmo de um modo de modificar o mundo por meios psíquicos, mediúnicos, extra-físicos e extra-causais. 

Uma terceira possibilidade, também aventada, é o ato “mágico”, visto como performance, funcionar alterando a percepção de mundo de espectadores e testemunhas, de modo análogo a um discurso apaixonado, uma peça teatral, uma obra de arte – ou, no limite, um alucinógeno.

Em alguns casos, parece haver uma indisposição deliberada (ou incapacidade) de estabelecer a distinção clara entre o psicológico e o transcendente.  A diferença entre conotativo e denotativo, metafórico e literal, pode parecer sólida num momento e se desmanchar no seguinte. Como escreveu um dos mentores da tentativa de levitar o Pentágono, Abbie Hoffman, “aprendemos que a realidade é uma experiência subjetiva. Ela existe na minha cabeça. Sou a revolução”. 

Magos do Caos tendem as concordar, afirmando que crenças são “ferramentas”, sem conexão necessária com a realidade. Seria interessante investigar se essa disposição, gestada nos anos 70, contribuiu de algum modo para a as correntes culturais que levaram à alvorada da era da pós-verdade.

O problema com isso tudo é que, assim como o amor sem limites de parte dos empresários, desempregados e motoristas de Uber pela Lei da Atração e pelo “coaching” quântico, o uso da mágica na política soa muito como riso forçado para abafar um profundo desespero. 

Pior, em se tratando de política, representa uma renúncia à ação responsável e ao ativismo racional. Também é, quase sempre, uma renúncia a formas significativas de ação coletiva. Despida de seus pentagramas, símbolos esotéricos, roupões bordados e tatuagens maneiras, a magia fica muito parecida com as formas mais individualistas e narcísicas de autoajuda.

O ativista ecológico – e “arquidruida”, e autor da “New Encyclopedia of the Occult” – John Michael Greer escreve, em seu prefácio a uma recente reedição daquele clássico do ocultismo europeu, “Doutrina e Ritual da Alta Magia”, de Eliphas Lévi (1810-1875), que “mágica é um processo psicológico. Os poderes e potências que magos invocam existem dentro de suas mentes, e o treinamento árduo por meio do qual o aprendiz se torna um iniciado é apenas o processo de aprender a usar símbolos vívidos e atos simbólicos, energizados pela vontade, para acessar capacidades da consciência que a maioria da humanidade jamais descobre em si mesma”. 

É quase um seminário de Tony Robbins! Mudando apenas jargão e adereços, esse poderia ser o discurso de um reprogramador quântico de DNA da prosperidade, ou de um “coach” motivacional. Mais adiante, Greer acrescenta: “mude os hábitos de pensamento e ação que sustentam uma condição indesejável, e muito frequentemente a condição passará; embrace os hábitos de pensamento e ação que estabelecerão uma condição desejada, e a condição provavelmente surgirá”. Isto poderia estar, sem alteração nenhuma, na primeira página de qualquer manual de PNL.

Em sua edição de 27 de outubro de 1967, a revista “Time” descreve da seguinte forma a tentativa de Abbie Hoffman e Martin Carey de levitar o Pentágono: 

“A dupla foi presa por jogar lixo na rua e levada à presença de um administrador (...) Eles pediram permissão para levitar o Pentágono a 100 metros de altura, explicando que, ao entoar antigos exorcismos em aramaico, ao mesmo tempo em que formavam um círculo ao redor do prédio, poderiam fazê-lo elevar-se, ficar cor de laranja e vibrar até que todas as emissões malignas tivessem fugido. A guerra acabaria, então. O administrador, graciosamente, deu-lhes permissão para eleva o prédio três metros, e arquivou a acusação contra os hippies”.

Em seu livro “Revolution for the Hell of It”, Hoffman, além de reproduzir trechos da “Time”, oferece detalhes fascinantes do que havia planejado: “garotas vão correr peladas e mijar nos muros do Pentágono, feiticeiros, swamis, bruxas, vodus, magos, curandeiros e drogados vão lançar sua magia contra os muros (...) Todos vamos dançar e entoar o poderoso OM. Foderemos na grama e nos debateremos contra as portas...”

Tudo muito interessante e divertido, mas o fato é que o Pentágono não saiu do lugar e a Guerra do Vietnã prosseguiu por quase mais uma década. Quanto ao valor do ato como performance de conscientização, o relato da “Time” indica que o resultado foi pífio: se Hoffman e amigos estavam manifestando irreverência e desprezo irônico pela autoridade constituída, a autoridade constituída – na figura do administrador que autorizou a “levitação” e mandou soltá-los – retribuiu o favor.

É fácil chegar a um diagnóstico de autoindulgência, de gente desocupada fazendo algazarra sob o pretexto de lutar por uma causa. 

Mas a penetração do pensamento mágico no ativismo político deveria preocupar quem se importa com a saúde da democracia, pois é indicador de um descompasso alarmante: de pessoas que gostariam de participar de processos e decisões coletivos, mas ou se veem sem meios para tanto, ou perderam confiança em formas racionais de agir. Se a candidatura de Marianne Wilson aparentava reconhecer a legitimidade e a racionalidade do sistema, sua plataforma negava tais aparências. Democracias onde parte da população crê ter motivos para achar que feitiços ou pensamento positivo são mais eficientes do que votos têm um grande problema nas mãos.

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência

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