O vexame da "Lancet" e a contagem de corpos

Artigo
6 jun 2020
Photo by Leonardo Yip on Unsplash

 

A revista médica The Lancet, uma das mais prestigiadas internacionalmente, retratou, a pedido dos autores, o artigo publicado em 22 de maio de 2020 intitulado Hydroxychloroquine or chloroquine with or without a macrolide for treatment of COVID-19: a multinational registry analysis.

O artigo, quando de sua publicação original, causou grande alarde não por causa de sua conclusão primária, de que a hidroxocloroquina (HCQ) e a cloroquina (CQ) não trazem benefícios para o tratamento de COVID-19, mas principalmente por apontar um alto grau de risco cardíaco e aumento significativo da taxa de mortalidade nos pacientes que receberam a medicação.

A constatação de que a HCQ e CQ simplesmente não funcionam para COVID-19 só confirmava diversos trabalhos anteriores. A esse dado somavam-se a realidade histórica de que esses fármacos jamais haviam funcionado contra outros vírus, e os resultados falhos nos testes pré-clínicos em células do trato respiratório e modelo animal, feitos com camundongos e macacos.

A novidade estava no risco cardíaco, que também já era conhecido, mas não com a intensidade sugerida pela publicação. E talvez, exatamente por não trazer nenhuma grande novidade, as inconsistências que acabaram levando à retratação do artigo tenham passado despercebidas por revisores e editores. Isso, claro, somado à pressa e à pressão para publicar qualquer coisa que diga algo sobre os temas “quentes” do momento. O problema está justamente aí: boa ciência não se faz com pressa, e não deve seguir modismos.

Tão logo o paper foi publicado, diversos autores independentes apontaram erros nos dados que serviram de base para a análise, incompatíveis com a realidade. Números supostamente vindos de hospitais na Austrália somavam mais casos do que os reportados pelo governo australiano. Dados de países da África pareciam incompatíveis com a tecnologia disponível em determinados hospitais. Realmente parecia haver, na melhor das hipóteses, erros e, na pior, fraude.

Três dos quatro autores que assinam o trabalho requisitaram à empresa contratada para a coleta de dados, a Surgisphere, que disponibilizasse os números brutos, e os submetesse a uma auditoria independente. Diante da recusa da empresa, esses autores pediram então a retirada do artigo, já que não poderiam garantir a acurácia dos dados.

 

Empresa suspeita

O jornal britânico The Guardian investigou a empresa Surgisphere, e a situação só piorou. Trata-se de uma companhia obscura, com apenas seis funcionários, dos quais somente um tem expertise na área médica, além de não ter histórico de geração de dados médicos.

Dias depois, o New England Journal of Medicine anuncia a retratação de outro artigo que usou dados da mesma empresa, sobre a segurança de remédios para pressão arterial em caso de COVID-19. A empresa também gerou dados para um trabalho que ainda se encontra em preprint – em divulgação preliminar, antes da publicação oficial –, que “demonstra” a suposta eficácia da ivermectina para tratamento da Covid19.

Até aqui parece apenas um – terrível – caso de erro grave ou fraude, de uma empresa incompetente ou desonesta. O problema é que erros originados ali chegaram a grandes revistas médicas, com o potencial de gerar consequências sociais e políticas graves. E isso, durante uma pandemia, além de desastroso, pode ser fatal.

A população ficou desnorteada tentando entender em quem confiar. Proponentes fanáticos da cloroquina já aproveitam a situação para fazer circular teorias conspiratórias. E os cientistas sérios, que nunca defenderam a cloroquina – e continuam assim – de repente estão falando mal de um trabalho que tem conclusões contrárias à cloroquina? Quem é que entende alguma coisa assim? Afinal, vocês são contra ou a favor?

Pois é. A confusão começa aí. Nenhum cientista sério jamais foi “contra” um ou outro medicamento. Apenas trabalhamos com rigor cientifico. Então, se aparece algo cheio de falhas e com suspeita de fraude, mesmo que concorde com o resto da melhor literatura científica disponível, o trabalho deve ser descartado. Em outras palavras, se um estudo mostra que o Sol nasce a leste, mas chega a essa conclusão utilizando dados que pressupõem que a Terra é plana, isso não muda o fato de que o Sol nasce no leste, mas o estudo vai direto para o lixo.

O que não deve ser descartado, portanto, é o resto da literatura cientifica de qualidade, que foi gerada por grupos independentes, que nunca utilizaram dados da Surgisphere. Esses trabalhos, que já citamos aqui, apontam claramente para a ausência de benefícios da HCQ e CQ para COVID-19, e alguns acusam risco cardíaco. Isso não mudou, e novos trabalhos bem conduzidos continuam apontando as mesmas conclusões.

 

Profilático

Estudo recente, publicado no New England Journal of Medicine (NEJM), testou a HCQ em uso profilático, em voluntários que foram expostos a pacientes de COVID-19. Vamos entender o que isso significa: o remédio foi dado a pessoas que tinham alto risco de terem contraído o vírus, porque haviam passado um certo tempo, sem máscara ou outra proteção, próximas a doentes confirmados.

O estudo contou com 821 voluntários, que receberam HCQ ou placebo, logo após o contato com a pessoa contaminada. A incidência da doença não foi diferente entre os grupos, e os efeitos adversos foram maiores no grupo de tratamento, mas nada muito grave foi reportado. De qualquer forma, um quarto dos voluntários que receberam HCQ pediu para sair no meio do estudo por não aguentar os efeitos colaterais, ante pouco mais de 10% do grupo placebo.

O estudo tem limitações, apontadas pelos próprios autores: nem todos os voluntários contados como doentes ao final do estudo tiveram diagnóstico confirmado por exames adequados, e os sintomas foram reportados pelos próprios voluntários, não confirmados por médicos. Ninguém foi acompanhado com eletrocardiograma. A adesão ao estudo – isto é, se os voluntários realmente seguiram as instruções e tomaram o remédio na dose e na frequência correta – também não foi confirmada de modo independente: os produtos (HCQ ou placebo) foram enviados por mensageiro para o domicílio de cada voluntário.

Em linhas gerais, esse trabalho representa uma espécie de versão competente, bem planejada e bem executada, do infame “estudo da Prevent Senior”. Com todas as limitações apontadas, o estudo é um forte indicador de que não há vantagem em usar a HCQ como profilático. Se o tamanho do efeito – isto é, o impacto visível na saúde dos voluntários – da HCQ fosse realmente o milagre pregado pelos cloroquiners, a maior diferença entre os grupos teria sido vista no contraste de sintomas e resultados de exames, não na taxa de abandono, duas vezes maior no grupo de tratamento.

Também recentemente, o teste clínico de HCQ feito pelo programa Recovery, do sistema de saúde do Reino Unido, publicou resultados preliminares e anunciou a suspensão dos testes. O programa testou 1542 pessoas que receberam HCQ, e 3132 que não receberam. Não encontrou diferenças significativas entre tempo de recuperação, mortalidade ou tempo de internação. Trata-se de um teste clínico robusto e bem conduzido, e os líderes do grupo decidiram que não seria ético seguir recrutando pacientes para usar um medicamento que não funciona.

Sabemos que logo chegarão as desculpas: não usaram zinco, não usaram de forma precoce ou profilática, não estavam de meias verdes. A verdade é que a HCQ já foi testada para todas as fases da doença. E se funcionasse como um antiviral, mesmo que não fosse capaz de salvar a vida de pacientes hospitalizados ou em estado grave, veríamos alguma ação nos exames que avaliam a presença de vírus no corpo – uma redução da chamada “carga viral”. O que não acontece.

 

Cassino viciado

E ao mesmo tempo em que temos os resultados do NEJM sobre uso profilático, e os do Recovery, nosso novo secretário do Ministério da Saúde anuncia que vai “apostar 100% na cloroquina”, num investimento de R$ 30 milhões do erário. Isso é como apostar R$ 30 milhões no vermelho, em uma roleta que só tem números pretos.

Em qualquer outra circunstância, essa já seria uma política – para dizer o mínimo – desastrada e desastrosa. No contexto de  uma pandemia que vem ceifando mil vidas ao dia, todos os dias, é uma atrocidade.

A tudo isso vêm se somar as tentativas pueris do governo federal de ocultar o tamanho da tragédia, brincando de esconde-esconde com os números oficiais. O Brasil está se tornando um exemplo global de o que acontece quando os clichês mais batidos da literatura de autoajuda – sobre o “poder” das convicções firmes e do pensamento positivo, sobre a “importância” de “focar no positivo e ignorar o negativo” – são erigidos em política de Estado. Clichês que se chocam frontalmente com outro, muito mais apropriado: “realidade é aquilo que não adianta  fechar os olhos para fazer ir embora”. Como os corpos.

 

Natalia Pasternak é pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, presidente do Instituto Questão de Ciência e coautora do livro "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto)

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência e coautor do livro "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto)

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