A imprensa da responsabilidade abandonada

Artigo
22 jul 2022
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jornal new age

O estrondoso sucesso do podcast da Folha de S.Paulo (FSP) “A Mulher da Casa Abandonada”, escrito e apresentado pelo jornalista Chico Felitti, narra de maneira envolvente a história de Margarida Bonetti, uma mulher que mora em uma casa degradada no bairro de Higienópolis, uma das regiões ricas da cidade de São Paulo. Margarida esconde em sua história a acusação de um crime hediondo – manter uma mulher em condições de escravidão durante 20 anos, nos EUA. Margarida fugiu, veio para o Brasil e nunca foi julgada.

De acordo com a FSP, já foram feitos mais de sete milhões de downloads dos capítulos da série. As reações da sociedade, porém, nos faz questionar a responsabilidade do jornalismo profissional pelas repercussões daquilo que produz e põe ao alcance da opinião pública. Neste momento, Margarida não é procurada pelas autoridades brasileiras. A despeito disso, após a publicação do podcast, a polícia civil arrombou a casa (sob o pretexto de verificar as condições de salubridade), e populares cercam o local, que já foi até invadido por ativistas.

Essas reações da população a um conteúdo construído para transmitir forte carga emocional são previsíveis. Do ponto de vista prático, o disclaimer inserido no início dos capítulos, a partir do quinto episódio (“a séria não é uma investigação... a Folha condena qualquer tipo de perseguição...”) é, no mínimo, ingênuo.

O assunto da escravidão – criminoso e horrível – poderia ser trazido à baila sem essa espetacularização, que nos remete ao já extinto Notícias Populares. Neste caso, ainda que seja bastante discutível a adequação do podcast ao “interesse público”, contemplado como um dos princípios editoriais da FSP, não há dúvida de que em outros produtos publicados sob o cabeçalho deste jornal o princípio editorial número um (confirmar a veracidade de toda notícia antes de publicá-la) foi posto de lado.

A FSP mantém, por exemplo, uma parceria com o portal Personare, que publica constantemente conteúdos falsos e enganosos que vão de encontro ao discurso de seriedade do veículo. Esse conteúdo é replicado pela seção F5 do jornal com matérias que abordam desde conselhos astrológicos a “dicas” que podem colocar a saúde das pessoas em risco. É importante que se diga, porém, que mesmo os conteúdos apenas enganosos, aparentemente inofensivos, podem gerar danos à sociedade.

A RAE-Revista de Administração de Empresas, editada pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, publicou no ano 2000, volume 40, o artigo “Astrologia empresarial: adequando o tempo e o espaço à tomada de decisões”. O artigo propõe que a astrologia deve ser utilizada para “1. Laudos para seleção de pessoal; 2. Estudos de perfil de liderança; 3. Diagnóstico de integração de equipes de trabalho”. Matéria da BBC, em 2020, mostra que a astrologia frequentemente aparece em entrevistas de emprego.

É claro que embasar uma contratação em critérios não profissionais é injusto e causa um dano à sociedade. Isso por si só já seria grave o suficiente, mas fica ainda pior porque os parâmetros de contratação incorporam a bobagem renitente de que os astros têm uma influência na personalidade das pessoas.

A despeito de ter baixíssima plausibilidade inicial, a hipótese de que configurações astrológicas podem afetar a personalidade humana já foi alvo de inúmeros estudos e testes, que no agregado produzem os mesmos resultados vistos na investigação das mais diversas pseudociências – quanto maior a qualidade do projeto de pesquisa e de sua execução, quanto menor o espaço para o pesquisador mentir para si mesmo, menor o efeito detectado. No caso da astrologia, um controle mínimo de qualidade já reduz o suposto efeito dos signos a zero.

Além da ciência formal, a “big data” também condena a astrologia: segundo o livro Dataclysm, que analisa o verdadeiro tsunami de dados gerado pelo "app" de encontros românticos OKCupid – alimentado com milhões de perfis de usuários, que respondem a questionários exaustivos sobre personalidade e gostos pessoais –, o signo zodiacal é uma característica notável porque “não tem efeito nenhum” sobre a compatibilidade dos casais.

Pior do que a astrologia, outros conteúdos pseudocientíficos podem atentar diretamente contra a saúde das pessoas. Artigo desta revista aborda uma das matérias mais lidas do Personare, que é a produção de água solarizada. O portal, com o endosso da FSP, diz que a água poderia “amenizar depressão e desânimo, além de dar mais coragem, calma e equilíbrio”. O perigoso efeito potencial desse tipo de “recomendação” sobre pessoas clinicamente deprimidas parece ter sido ignorado, talvez graças ao mesmo tipo de ingenuidade – alimentada pelo desejo de audiência – que impediu os responsáveis pela “Casa Abandonada” de prever o circo grotesco que a exposição de Margarida Bonetti, do modo sensacionalista como foi feita, criaria.

Em outro artigo do portal, uma aromaterapeuta declara que “quando falamos de câncer, é importante pensar também na causa emocional, mágoas, ressentimentos e situações mal resolvidas de longo prazo e que podem desencadear a doença”. A crença falsa de que somente o pensamento seria capaz de curar patologias complexas, como o câncer, é ruim e danosa e, como no caso da depressão, pode afastar pessoas de tratamentos comprovados pela ciência. Essa crença pode ser ainda pior, e cruel, quando se atribui à pessoa doente a culpa pela causa da própria enfermidade.

É surpreendente que veículos sérios (ou que pretendem ser sérios), com tradições centenárias a defender, sigam endossando conteúdos falsos e irresponsáveis. Institucionalmente, é importante que se tenha mais atenção com aquilo que é publicado sob a chancela de um cabeçalho que busca projetar seriedade e credibilidade  – não é possível se abster do compromisso com o público: não há ingenuidade (ou cinismo) que absolva o veículo do dever de curadoria que tem para com o espaço que reivindica para si.

Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência

Carlos Orsi é jornalista, editor-chefe da Revista Questão de Ciência, autor de "O Livro dos Milagres" (Editora da Unesp), "O Livro da Astrologia" (KDP), "Negacionismo" (Editora de Cultura) e coautor de "Pura Picaretagem" (Leya), "Ciência no Cotidiano" (Editora Contexto), ganhador do Prêmio Jabuti, e "Contra a Realidade" (Papirus 7 Mares)

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