Desafios do novo código de ética da nutrição

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18 mai 2026
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gráfico "antes" e "depois"

 

Como já mencionei em outras ocasiões, um dos meus receios recorrentes na virada dos anos é descobrir se terei assuntos suficientes para tratar aqui na RQC. Felizmente — ou infelizmente, dependendo do ponto de vista — essa apreensão costuma estar muito mais próxima de um medo infundado do que de algo palpável.

Digo isso porque, enquanto escrevia mais um artigo sobre suplementos alimentares — abordando redes sociais, e-commerce e novos projetos de lei em discussão na Câmara dos Deputados — fui surpreendido pela atualização do Código de Ética da Nutrição. Trata-se de um dos documentos mais importantes para orientar a conduta profissional, mas que parece não ter acompanhado adequadamente as transformações do ambiente digital.

Entre as expectativas de muitos profissionais estava a possibilidade de que a nova versão avançasse justamente nesses pontos, flexibilizando práticas hoje proibidas, como a divulgação de conteúdos de “antes e depois” sem sensacionalismo, ou permitindo parcerias com marcas, desde que houvesse transparência quanto a conflitos de interesse.

Ao ler o novo código na íntegra, verifiquei que esses anseios não foram atendidos. Além de manter problemas antigos, a nova versão reforça restrições, especialmente quanto à atuação dos profissionais nas redes sociais.

A principal mudança foi a criação — ou formalização mais explícita — da seção IV, “Do Uso de Tecnologias”. Nela, o código permite o uso de ferramentas tecnológicas e sistemas automatizados como apoio à prática profissional, desde que o nutricionista avalie criticamente as informações antes de incorporá-las à tomada de decisão. Também exige que o uso de IA ou automação seja declarado quando empregado na produção de comunicações, materiais ou pesquisas, além de proibir IA generativa para criar, manipular ou difundir imagens, vídeos ou áudios que simulem pessoas reais ou resultados clínicos — algo que, considerando o cenário atual, parece bastante razoável.

Outra alteração central está na seção V, “Dos meios de comunicação”, especialmente no artigo 69, provavelmente o que mais repercutiu entre os profissionais. O dispositivo afirma que é dever da(o) nutricionista assumir responsabilidade integral ao divulgar informações técnicas, métodos e protocolos, assegurando rigor técnico-científico, contextualização e linguagem acessível.

O problema aparece nos parágrafos seguintes: mesmo com autorização, não é permitido apresentar resultados individuais, de si ou de terceiros — como imagens, composição corporal, dados laboratoriais, exames ou gráficos — fora de contextos técnico-científicos. Na prática, isso afeta de forma significativa como o nutricionista pode comunicar seu trabalho nas redes sociais.

Também fica proibido utilizar imagens geradas por IA que possam induzir o público ao erro quanto a resultados clínicos, além de garantir resultados para produtos, técnicas, protocolos, serviços, métodos diagnósticos ou terapêuticos — pontos que, isoladamente, são coerentes com uma prática ética. Algo semelhante ocorre na seção VI, “Da associação a produtos, marcas, serviços, empresas ou indústrias”, que permite o uso de embalagens e informações nutricionais para fins educativos, desde que não privilegie marcas específicas, mas veda a associação da imagem profissional à publicidade de alimentos, suplementos, farmácias e similares, salvo em casos de responsabilidade técnica ou vínculo societário.

Além dessas mudanças, talvez um dos pontos mais problemáticos do código, mantido desde a versão anterior, seja o artigo 43, que veda manifestações públicas depreciativas sobre a conduta de outros profissionais. Em teoria, busca preservar a integridade das relações profissionais. Na prática, cria uma zona cinzenta difícil de ignorar: até que ponto apontar que determinadas abordagens sem respaldo científico colocam pacientes em risco poderia ser interpretado como infração ética?

Esse ponto se torna ainda mais sensível porque o próprio código reforça, em diferentes trechos, a necessidade de embasamento técnico-científico. Ou seja, exige-se rigor, mas limita-se a possibilidade de contestar publicamente práticas que não atendem a esse critério. E, caso o nutricionista descumpra qualquer dispositivo, poderá sofrer advertência, repreensão, multa — de até dez vezes o valor da anuidade —, suspensão da inscrição e até proibição do exercício profissional.

Diante desse cenário, consigo compreender a lógica moral por trás de algumas restrições. Fotos de antes e depois, acompanhadas de frases como “10 kg em 1 mês” ou “resultado de protocolo X”, podem facilmente ser interpretadas como processos eficazes e replicáveis. Sabemos que não é assim: indivíduos exigem estratégias distintas, e resultados variam conforme contexto, características e adesão.

No meu mundo ideal, a divulgação profissional não dependeria de comparativos corporais ou da exposição de resultados individuais. O problema é que o cenário real é mais complexo. As redes sociais se tornaram um dos principais meios de difusão de informações em saúde, em um ambiente rápido, visual e simplificado, que exige não apenas domínio técnico, mas capacidade de traduzir evidências de forma acessível e competitiva.

Ao mesmo tempo, influenciadores e empresas de suplementos ocupam espaço relevante no discurso sobre alimentação e composição corporal. Assim, justamente a categoria com formação técnico-científica para fazer contraponto a discursos simplificados ou sensacionalistas acaba limitada pelo próprio conselho, enquanto agentes sem titulação ou fiscalização operam com muito mais liberdade, frequentemente guiados por interesses comerciais.

Não por acaso, a repercussão foi imediata. Desde a publicação, parte da categoria tem manifestado insatisfação nas redes sociais, o que culminou em uma petição online que, até o momento em que escrevo, já reúne mais de 18 mil assinaturas em defesa da revisão de pontos específicos do novo código, o que obrigou o Conselho Federal de Nutricionistas (CFN) a suspender o lançamento.

Embora o novo código traga pontos importantes — como a ênfase em atualização contínua e comunicação baseada em evidências —, algumas disposições entram em tensão com esse próprio objetivo, especialmente quando podem inibir críticas públicas bem fundamentadas ou restringir a circulação de informação qualificada. A partir dessa tensão, torna-se possível avançar para dois temas centrais: como a informação em nutrição circula no ambiente digital e como os nutricionistas têm conduzido sua comunicação nesses espaços.

 

As informações nas redes

Dentre tantos artigos importantes para abrir esta seção, acredito que um dos mais interessantes é o “Is Social Media Spreading Misinformation on Exercise and Health in Brazil?”, publicado em 2021, mas ainda bastante atual. Pesquisadores analisaram se as informações sobre exercício e saúde publicadas pelos principais influenciadores brasileiros no Instagram apresentavam precisão técnico-científica.

Para isso, selecionaram 33 contas brasileiras com 100 mil seguidores ou mais, associadas a temas como nutrição, saúde e bem-estar, medicina e aptidão física, e analisaram as 15 postagens mais recentes de cada influenciador, totalizando 495 publicações.

Os resultados foram preocupantes. Juntas, as contas alcançavam cerca de 30 milhões de seguidores. Embora 75,8% dos influenciadores tivessem qualificação acadêmica ou profissional, todos publicaram ao menos um conteúdo fora de sua área de formação. Das 495 publicações, apenas 95 citaram alguma referência científica e, destas, somente 13 sustentavam as informações divulgadas. Em outras palavras, apenas cerca de 2,7% das postagens tinham respaldo científico adequado.

Mesmo quando parte das publicações continha informações úteis, o suporte científico explícito era raro, e o “quality-ratio score”, usado para estimar a qualidade geral das contas, foi de apenas 38,79%. A qualificação acadêmica do administrador não mostrou associação com a qualidade das publicações.

Em conclusão, os principais influenciadores brasileiros do Instagram nas áreas de exercício e saúde, mesmo quando tinham formação, compartilhavam informações de baixa qualidade, com suporte científico deficiente e alcance potencial de dezenas de milhões de pessoas.

Esse achado dialoga com outro estudo, “Can Social Media Profiles Be a Reliable Source of Information on Nutrition and Dietetics?”, que investigou se buscas aleatórias por hashtags no Instagram relacionadas à nutrição e dietética poderiam fornecer informações de boa qualidade. O resultado também foi pouco animador: de 1.189 postagens analisadas, 70,4% eram de qualidade inexistente ou muito baixa, e 23,5% foram classificadas como de baixa qualidade.

Aprofundando a questão, o estudo “The use of social media as a source of nutrition information” buscou compreender como as redes sociais são utilizadas como fonte de informação nutricional. Entre os 1.615 participantes que relataram usar redes para acessar esse tipo de conteúdo, apenas 17% faziam busca ativa, enquanto a maioria o consumia passivamente, quando aparecia em seus feeds.

Quando esse conteúdo aparece, os participantes preferem materiais visuais, curtos, pessoais e de fácil aplicação, como vídeos, receitas e postagens do tipo “o que eu como em um dia”.

Cerca de 53% seguiam páginas dedicadas à nutrição, principalmente perfis de nutricionistas e dietistas registrados. Embora esses profissionais fossem vistos como fontes confiáveis, os participantes nem sempre sabiam identificar com clareza quem eram os especialistas mais adequados.

Além disso, 64% aplicavam as informações consumidas quando pareciam relevantes para sua vida, e 26% faziam isso quando eram comprovadas cientificamente. Embora 91% compreendessem que informação baseada em evidências é científica e comprovada, 77% admitiam dificuldade em identificar se o conteúdo online era realmente científico.

Em minha opinião, esse é um dos achados centrais da pesquisa. Mesmo entre jovens universitários — inclusive estudantes da área da saúde —, havia dificuldade em distinguir informações corretas de incorretas. Isso sugere que formação em saúde não necessariamente se traduz em letramento nutricional adequado para navegar o ambiente digital.

O estudo também mostra uma desconexão entre prática profissional e preferência do público. Embora infográficos sejam amplamente utilizados por profissionais da saúde como ferramenta de comunicação, esses recursos foram menos valorizados pelos participantes. Em contrapartida, vídeos curtos, receitas e conteúdos mais pessoais foram considerados mais atrativos.

Clareza, facilidade de compreensão e qualidade visual foram mais valorizadas do que evidências científicas. Esse fenômeno dialoga com o “efeito halo” nas redes sociais: atributos superficiais, como estética, carisma e apresentação, influenciam a percepção de credibilidade. Na prática, nutricionistas e dietistas não podem depender apenas da solidez científica da informação; precisam investir também na forma.

Apesar das limitações, os três estudos ajudam a compor um cenário útil: a qualidade informacional sobre nutrição no Instagram — e provavelmente em outras plataformas semelhantes — é baixa. Isso é perigoso porque muitos usuários, especialmente jovens, entram em contato com esses conteúdos e podem seguir recomendações sem  respaldo científico.

Ao mesmo tempo, há uma lacuna evidente a ser preenchida. Uma parcela considerável do público busca informações confiáveis, geralmente fornecidas por profissionais da saúde e, de preferência, embasadas cientificamente. O problema é que, como os estudos mostram, mesmo perfis administrados por pessoas com formação acadêmica nem sempre citam referências e, em alguns casos, nem sequer publicam conteúdos realmente baseados em evidências.

Ainda assim, sendo justo, é plausível imaginar que profissionais submetidos a um código de ética e à fiscalização de um conselho possam ocupar esse espaço de forma mais responsável do que agentes não regulados. As redes sociais, portanto, não são boas ou ruins por natureza: são ferramentas que podem disseminar tanto informação qualificada quanto desinformação.

Por isso, talvez o caminho mais produtivo não seja restringir excessivamente a atuação dos profissionais regulados, mas criar condições para que comuniquem evidências de forma clara, visual e competitiva — inclusive podendo apontar, com responsabilidade, quando determinadas práticas ou recomendações não encontram respaldo científico e podem representar risco à saúde pública.

 

Comportamento online?

Publicada em novembro de 2025, a revisão sistemática “How Do Nutritionists/Dietitians Use Social Media to Communicate with Their Public? Global Perspectives on Social Media Practices: A Systematic Review” sintetizou as evidências sobre como nutricionistas e dietistas registrados utilizam as redes sociais em sua comunicação profissional.

A amostra foi formada por 10 estudos revisados por pares. De modo geral, uma proporção elevada de nutricionistas relatou utilizar redes sociais para fins profissionais, com taxas variando de 37,5% a 100%. Esse número, porém, precisa ser interpretado com cautela, já que alguns estudos selecionaram exclusivamente perfis de nutricionistas já ativos no Instagram. Quando os profissionais eram avaliados de forma mais ampla, o uso variava de 37,5% a 79,2%.

Também houve diferenças entre plataformas, provavelmente relacionadas a preferências regionais. O Twitter (hoje X) apareceu com maior destaque em estudos realizados na Inglaterra, enquanto o Instagram foi mais relevante entre profissionais sul-africanos e em trabalhos voltados à comunicação visual.

Outro achado relevante é que parte dos profissionais ainda demonstra relutância em incorporar as redes sociais à prática. Em um dos estudos incluídos, 58,8% dos participantes consideravam o aconselhamento presencial mais eficaz do que as interações online, enquanto 70,2% julgavam grande parte do conteúdo compartilhado nas redes como irrelevante ou pouco confiável.

Quanto ao tipo de conteúdo publicado, informações nutricionais e postagens factuais foram as mais frequentes, seguidas por aconselhamento, planejamento dietético, promoção de atividades profissionais e conteúdos relacionados a alimentos, como receitas e métodos de preparo. O Instagram, por sua vez, parece ganhar espaço justamente por permitir uma comunicação mais visual.

A revisão também investigou as atitudes dos profissionais. Entre os facilitadores, destacaram-se a melhora na comunicação com o público, o potencial de aprendizado visual e a integração das redes à rotina profissional. Entre as barreiras, apareceram falta de conhecimento técnico, pouca experiência no gerenciamento de contas, dificuldade de comunicação sem interação presencial e impossibilidade de realizar avaliações antropométricas no ambiente virtual.

Apesar dessas limitações, muitos profissionais reconhecem o valor das redes para promover serviços, disseminar informações científicas, ampliar alcance e aumentar visibilidade profissional. Ao mesmo tempo, os estudos ressaltam a necessidade de treinamento contínuo em ética digital, letramento científico, confidencialidade, privacidade de dados, comunicação pública e manejo da desinformação.

Profissionais mais jovens tendem a demonstrar maior familiaridade com essas plataformas, mas isso não significa, necessariamente, maior capacidade de traduzir evidências científicas em conteúdo público de qualidade.

No contexto brasileiro, esse debate ganha ainda mais relevância. O estudo “Use of Social Networks in the Context of the Dietitian’s Practice in Brazil and Changes During the COVID-19 Pandemic: Exploratory Study” observou que 61,2% dos participantes acreditavam que a maioria dos profissionais não cumpria as diretrizes éticas estabelecidas pelo Conselho Federal de Nutricionistas. Além disso, persistiam preocupações com práticas antiéticas, publicidade inadequada e ausência de referências científicas nos conteúdos compartilhados.

Esses achados reforçam uma conclusão incômoda: as redes sociais já fazem parte da prática profissional, mas muitos nutricionistas ainda operam nesse ambiente sem treinamento suficiente, sem clareza sobre os limites éticos e, em alguns casos, sem aderência adequada à comunicação baseada em evidências.

A revisão apresenta limitações importantes: todos os estudos incluídos utilizaram desenho transversal, muitos dependeram de dados autorrelatados e houve grande variação nos tamanhos amostrais, plataformas avaliadas e desfechos apresentados. Ainda assim, demonstra três pontos: nutricionistas já estão nas redes; reconhecem que essas plataformas podem impulsionar carreiras e disseminar conhecimento; e percebem que seus pares nem sempre seguem padrões éticos e legais.

E aqui está, a meu ver, o ponto mais importante: melhorar a comunicação profissional em nutrição não depende apenas de ensinar nutricionistas a “postar melhor”. Também exige discutir quais aspectos das diretrizes atuais podem ser flexibilizados sem ferir princípios éticos fundamentais. Afinal, se identificação pessoal, linguagem visual, clareza e conexão parassocial aumentam o engajamento, faz sentido perguntar até que ponto conselhos profissionais excessivamente rígidos acabam dificultando justamente a comunicação qualificada que pretendem proteger.

 

Comunicando com ética

Quero destacar dois trabalhos que ajudam a pensar alternativas à simples proibição. O primeiro é a “Proposta de revisão das regras sobre demonstração de resultados e publicidade profissional no âmbito da Resolução CFN nº 599/2018”, que discute como nutricionistas poderiam divulgar resultados de forma ética, sem promessas enganosas ou exposição indevida de pacientes. O segundo é o estudo “Informing online professional dietetics practice: The development and pilot testing of the Social Media Evaluation Checklist”, que desenvolveu e testou uma ferramenta para avaliar a qualidade, a credibilidade e a adequação ética de postagens profissionais nas redes sociais.

Começando pelo primeiro, a proposta sugere que, em vez de uma proibição ampla, o Conselho poderia adotar uma fiscalização mais criteriosa, com regras claras para a divulgação de imagens corporais, valores antropométricos, exames laboratoriais, gráficos e materiais semelhantes. Entre elas, estariam: exigir consentimento livre, informado e específico; assegurar, sempre que possível, anonimização ou preservação da identidade; informar que os resultados variam conforme características individuais; vedar promessas de resultado garantido ou permanente; proibir manipulações de imagem com fins enganosos; e coibir associações com discursos de humilhação corporal.

Esses parâmetros parecem mais razoáveis porque tentam equilibrar duas preocupações legítimas: proteger a dignidade do paciente e permitir que o nutricionista apresente, de forma responsável, o impacto de seu trabalho.

Em outras palavras, não se trata apenas da generalização feita por muitos nas redes sociais — como se uma flexibilização no código transformasse o paciente em mera mercadoria —, mas de discutir se toda demonstração de resultado precisa ser tratada como publicidade enganosa ou se poderia existir uma maneira responsável de educar seguidores a partir de um caso real e anonimizado.

Contudo, e sendo muito sincero, tenho minhas dúvidas quanto a isso. A discussão, no Brasil e fora dele, é mais complexa do que a simples autorização para publicar materiais de “antes e depois”. O motivo é simples: por mais correta que pareça a abordagem dietética apresentada, ela continua sendo uma experiência anedótica, com o mesmo peso de evidência de uma estratégia idiossincrática — para não dizer esdrúxula — que também tenha produzido algum efeito “positivo” na vida do paciente.

É aqui que o segundo estudo se torna útil. O Social Media Evaluation Checklist foi desenvolvido para avaliar se determinadas postagens cumpriam critérios fundamentais da literatura científica e profissional, como transparência, informação baseada em evidências, profissionalismo, privacidade, confidencialidade, declaração de conflitos de interesse e sustentabilidade das alegações.

A ferramenta foi testada nas cinco postagens mais recentes de 25 perfis de dietistas e 25 perfis de estudantes de nutrição. Dois avaliadores pontuaram os critérios do checklist e observaram concordância em campos como tipo de postagem, informação baseada em evidências, transparência, privacidade/confidencialidade e profissionalismo. No entanto, houve discordância em pontos mais sensíveis, como identificação de patrocínio, divulgação financeira e sustentabilidade.

Esse ponto é importante porque mostra que nem mesmo uma ferramenta estruturada elimina a subjetividade. Em uma postagem culinária, por exemplo, a simples presença de uma marca de azeite pode ser interpretada por um avaliador como publicidade não declarada e, por outro, como caso incerto. Mesmo com critérios mais objetivos, ainda há zonas cinzentas.

Ainda assim, o checklist trouxe achados relevantes. A maioria das postagens a que se poderiam aplicar os critérios de consciência cultural, transparência e profissionalismo cumpria os padrões esperados. Mas menos de 15% das postagens relevantes atendiam aos critérios de publicidade e conflito de interesses. Entre as publicações que forneciam informações que exigiam respaldo, 46% das postagens de dietistas e 36% das postagens de estudantes referenciavam as fontes utilizadas.

Outro dado interessante é que, entre as postagens em que era cabível o critério de sustentabilidade — isto é, aquelas que deveriam apresentar informações equilibradas, precisas e capazes de indicar riscos e benefícios associados a um produto, serviço, comportamento ou tratamento —, os dietistas tiveram desempenho superior ao dos estudantes: 91% contra 65%. Isso sugere que formação e experiência profissional podem melhorar a qualidade da comunicação.

O ponto mais útil do estudo, portanto, não é sugerir que um checklist resolveria magicamente a comunicação em saúde nas redes sociais. Não resolveria. Mas mostra que é possível transformar princípios aparentemente abstratos em critérios mais observáveis. Isso poderia ajudar tanto os profissionais, que teriam regras mais claras para se orientar, quanto os órgãos fiscalizadores, que poderiam avaliar condutas com menos dependência de impressões subjetivas.

Apesar da limitação geográfica — afinal, não é possível assumir que os resultados observados na amostra australiana se repetiriam no Brasil —, o estudo sugere um caminho interessante: em vez de depender apenas de proibições amplas, seria possível desenvolver instrumentos mais objetivos para avaliar postagens, identificar quais critérios éticos foram violados e distinguir erro culposo de doloso.

Se queremos melhorar de fato a comunicação profissional em nutrição, especialmente diante de dispositivos como o artigo 43, que podem inibir críticas públicas bem fundamentadas a condutas sem respaldo científico, o ponto central talvez esteja antes: na formação. Metodologia científica, pensamento crítico e comunicação pública deveriam ocupar um espaço maior na graduação, pois são a base mínima para que qualquer profissional da saúde consiga se posicionar nas redes.

Claro, isso não resolveria tudo. Ainda haverá quem publique estultices sobre alimentação, emagrecimento e saúde. Para esses casos, caberia ao Conselho agir de forma mais ativa, tanto por meios legais quanto por campanhas públicas conduzidas com profissionais sérios e capazes de se comunicar bem online. Afinal, se o ambiente digital é um dos principais locais onde a desinformação prospera, não basta restringir a atuação dos profissionais fiscalizados; é preciso disputar esse espaço com informação qualificada.

Isso acontecerá? Sinceramente, tenho minhas dúvidas. Mas a mobilização recente da categoria e o recuo momentâneo do CFN mostram que essa discussão não é inútil, e nem tudo está perdido.

Mauro Proença é nutricionista

 

REFERÊNCIAS

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SQUIRES, K. et al. Informing online professional dietetics practice: The development and pilot testing of the Social Media Evaluation Checklist. Nutrition & Dietetics. Vol 80, Issue 4. PP. 351-361. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/1747-0080.12794.

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