
Ao longo dos anos, observei com um misto de fascínio e inquietação como certas ideias conseguem resistir ao crivo da razão. Na psicologia é fácil ver o apelo quase hipnótico que algumas teorias imprecisas exercem. Seu apelo está na capacidade de englobar todos os fenômenos, explicando-os engenhosamente ao mesmo tempo em que se mantém o mistério. Psicólogos confundem isso com profundidade. É como uma densa névoa: oculta mais do que revela, mas passa a impressão de profundidade. Sua força está justamente na ausência de contornos; sua ruína, na capacidade de esconder o real. E essa névoa está longe de seduzir apenas a psicologia.
Imposturas intelectuais
A sedução intelectual da aparência de profundidade foi denunciada no fim dos anos 1990 de forma exemplar, quando os físicos Alan Sokal e Jean Bricmont publicaram o provocativo Imposturas Intelectuais. O livro nasceu de um experimento inusitado: Sokal submeteu à revista acadêmica Social Text um artigo intencionalmente repleto de jargões vazios e absurdos, disfarçado de análise pós-moderna sobre física quântica. O título do artigo, Transgressing the Boundaries: Toward a Transformative Hermeneutics of Quantum Gravity, soa complexo, mas era uma paródia. Ao longo do texto a coisa só piorava com frases como “A realidade física, por definição, é uma construção social" ou "Um critério simples para que uma teoria científica seja considerada pós-moderna é que ela esteja livre de qualquer dependência em relação ao conceito de verdade objetiva”.
Curiosamente, o que naquela época foi escrito como hoax hoje pode ser ouvido em muitos círculos intelectualizados, dentro e fora da universidade, respeitáveis ou não. Leia você mesmo:
"Contudo, esses critérios, por mais admiráveis que sejam, são insuficientes para uma ciência pós-moderna verdadeiramente libertadora: eles libertam os seres humanos da tirania da 'verdade absoluta' e da 'realidade objetiva', mas não necessariamente da tirania de outros seres humanos. Nas palavras de Andrew Ross, precisamos de uma ciência 'que preste contas publicamente e que esteja a serviço de interesses progressistas'".
E não para por aí. No livro, Sokal e Bricmont fazem uma leitura detida de textos de autores como Lacan, Kristeva, Baudrillard, Deleuze e Guattari, mostrando como esses pensadores frequentemente empregam conceitos da matemática e da física de forma superficial, equivocada ou metafórica demais para manter qualquer precisão. O livro é um alerta sobre o uso indevido da autoridade científica para ornamentar discursos que escapam deliberadamente não só à verificabilidade, mas à razoabilidade. São formas bonitas de se falar sem dizer nada. Às vezes, confusão e obscurantismo acabam confundidos com profundidade.
O artigo foi aceito e publicado numa edição especial da Social Text sem qualquer revisão rigorosa. A revelação da fraude causou um escândalo internacional, mas também desconforto. Parte da comunidade acadêmica, em vez de admitir o erro de julgamento, tentou se defender alegando que o texto de Sokal era uma peça "poética", uma "provocação simbólica", ou mesmo uma "intervenção metateórica". Outros chegaram a afirmar que não importava se o artigo era coerente ou sincero: o que valia era seu efeito performativo.
Essa reação acabou reforçando o argumento central da dupla: que certas tradições intelectuais confundem profundidade com obscurantismo, que desistir de perseguir a verdade era uma porta de entrada para drogas epistemológicas mais pesadas. Apelar para a performance e para leituras sobre a realidade que não são verdadeiras nem falsas é conveniente: afinal, essa é uma salvaguarda para falar qualquer coisa sem o risco de estar errado.
Mas no que consiste esses mecanismos de defesa contra críticas? É disso que fala um artigo que li recentemente, intitulado Estratégias de Imunização e Mecanismos de Defesa Epistêmicos, escrito pelos filósofos Maarten Boudry e Johan Braeckman. Nesse artigo, eles criam uma verdadeira taxonomia das besteiras pseudoprofundas.
Alvos móveis, múltiplos finais
Imagine que você vai numa cartomante tirar a sua sorte. As cartas dizem para essa mulher com dons especiais que você terá uma longa vida, mas que ela pode ser abreviada se você seguir determinado caminho; que você terá pessoas sinceras ao seu redor, mas poderá ser traído por uma delas.
Quais as chances de ela errar? Nenhuma, porque ela simplesmente usou uma descrição genérica capaz de se encaixar em qualquer cenário. A cartomante sempre tem razão, e isso não é um elogio.
A mesma coisa acontece na astrologia. Eu sei, astrologia não é horóscopo de jornal. O astrólogo usa muita matemática, faz cálculos e mapeia os céus. Mas no final das contas os astros dirão algo como “você tende a ser muito aberto a encontros e novas amizades, mas sabe o momento de ficar recluso para recarregar as energias”. De novo, é impossível estar errado, porque a previsão simplesmente equilibra dois cenários opostos (nesse caso, a extroversão e a introversão).
Essa linguagem elástica se manifesta nos múltiplos finais possíveis previstos por profecias famosas. Algumas delas até fundam religiões. No século 19, grupos milenaristas, como os Milleritas, anunciaram com convicção o fim do mundo para o ano de 1844. Quando a data passou sem incidentes, não houve abandono da crença, mas reinvenção: o evento, disseram, de fato ocorrera — mas num plano espiritual, invisível aos olhos comuns.
Surgia ali um padrão: quanto mais distante a realização física, mais profunda a explicação simbólica ou espiritual. Quanto mais "desconfirmada" pelos fatos, mais a confirmação é jogada para uma esfera de verificação acessível apenas a iniciados, apenas àqueles que têm olhos para ver. A crença, encurralada pelos fatos, respondia com elasticidade teológica. Foi assim que nasceu a Igreja Adventista, não apesar do fracasso da profecia, mas moldada por ele.
E é desse mecanismo de plástica doutrinária que emergem formas ainda mais sofisticadas de blindagem simbólica. E algumas dessas formas são conhecidas na academia, consideradas academicamente respeitáveis.
A arte de diluir a verdade
A imprecisão, como vimos, é um caminho comum de blindagem teórica. Mas há outros que aparentam ainda mais profundidade, em vez de falha. Estou falando de um dos caminhos de sobrevivência: o amortecimento. Em vez de ser abandonada, a teoria é reconfigurada, assumindo em uma versão mais branda, mais evasiva, menos vulnerável. O gesto não é necessariamente malicioso; muitas vezes, é uma resposta quase instintiva a uma perda de plausibilidade. É um gesto que muitas vezes, para o teórico, não passa de correção, daquelas que até Isaac Newton fez em suas teorias. A teoria enfraquece suas pretensões, mas preserva seu estatuto simbólico.
Nesse aspecto, poucas áreas acadêmicas exemplificam melhor essa estratégia do que a psicanálise.
Considere a teoria da histeria em Freud. No início, ele propôs uma hipótese ousada: sintomas histéricos derivariam de traumas sexuais reais, vividos na infância. Era uma teoria de risco, empiricamente rastreável. Mas diante da incredulidade da comunidade médica e da ausência de confirmação, Freud recuou. Ele reformulou a tese: os traumas não precisavam ter ocorrido de fato — bastava que tivessem sido fantasiados.
A teoria, assim, se protegeu. Abdicou do seu lastro na realidade. A dor psíquica passou a ser atribuída à lembrança simbólica, não à experiência concreta. O movimento é sutil, mas decisivo: ao perder ancoragem empírica, a teoria ganhou elasticidade interpretativa — e com ela, imunidade.
A teoria se tornou menos falseável, mas não estou falando de filosofia da ciência popperiana aqui, mas de razoabilidade básica: qual teoria é mais fácil de cruzar com a realidade para ver se é verdade, a do trauma literal ou a do trauma simbólico? Como se verificar se alguém foi de fato abusado simbolicamente, só em suas fantasias? Adentramos aí no terreno da sugestão, da indução, da interpretação. Em suma, incertezas ainda maiores.
Essa elasticidade permite avançar para a teoria mais técnica e precisa, mas recuar para a posição mais vaga quando convém.
Como diz André Kukla em Construtivismo social e a filosofia da ciência:
"Você apresenta uma versão forte da hipótese e, quando ela se complica, recua para uma versão mais fraca, fingindo que era a tese mais fraca que você tinha em mente o tempo todo. Trocas e trocas reversas podem ser realizadas em conjunto, e o ciclo pode ser repetido ad infinitum. Uma aplicação criteriosa dessa estratégia permite manter uma posição indefensável para sempre".
O criacionismo é outro exemplo dessa tática. Muitos criacionistas criticam a teoria da evolução usando o conceito de Complexidade Irredutível. O conceito se refere a um sistema que, para funcionar, precisa de todas as suas partes constitutivas. Se você muda ou retira uma delas, o sistema colapsa. Um exemplo disso é a ratoeira: se você retirar uma de suas peças a arapuca para de funcionar. Para seus adeptos, isso é suficiente para descartar a Teoria da Evolução.
Acontece que esse argumento não se sustenta. O motivo dessa falha é que ele cria um espantalho da Teoria da Evolução. A seleção natural funciona por rotas indiretas, incluindo o recrutamento de estruturas antigas para desempenhar funções novas.
Quando pressionados sobre esse ponto, os criacionistas deflacionam a complexidade do que estão querendo dizer. Eles passam a resumir toda sua tese contrária à afirmação de que alguns sistemas biológicos cessam de funcionar quando um ou mais componentes são removidos. Essa é uma posição até defensável, mas trivial. Quando confrontados sobre isso, voltam a usar a complexidade irredutível como se ela representasse um grande problema para a teoria evolucionista.
Isso é feito comumente em debates sobre psicanálise. Seus defensores dizem que ela não é uma ciência, portanto não faz sentido usar critérios científicos para avaliar seus méritos. Mas assim que é publicado um artigo com evidências otimistas em relação à psicanálise, esses mesmos psicanalistas recorrem à ciência: “tá vendo? existem provas científicas de que a psicanálise está certa”.
Tudo faz sentido
Uma vez discuti amigavelmente em sala de aula com uma aluna que era uma defensora incansável da homeopatia. Ela aceitava que a homeopatia não se mostrava eficaz como tratamento, mas em momento nenhum questionava os mecanismos invisíveis de memória da água e outros que sustentam essa prática. Seu insucesso como intervenção era sempre explicado pela imperícia do médico, nunca pela homeopatia em si.
Ao longo do tempo comecei a perceber que essa estratégia é usada em muitos campos, acadêmicos ou não. Psicanálise, marxismo, cristais, chakras, magia. Os mecanismos ocultos por trás são sempre protegidos. Qualquer problema é um atestado de erro de execução.
A antropóloga Evans-Pritchard, que estudou rituais mágicos, explica que resultados esperados são considerados confirmações da magia, mas falhas são descartadas como “algo deve ter dado errado”. Exatamente! Algo sempre dá errado! Falhas nunca mostram que a teoria está errada.
James Randi foi um célebre mágico e cético profissional, especialista em descobrir os fios invisíveis por trás de paranormais fajutos. Numa matéria da Skeptical Inquirer de 1981, ele narra o impressionante caso de um adivinho que, ao ser confrontado sobre a omissão de seus insucessos em uma série de experimentos, retrucou: "É óbvio que, quando eu falho, os poderes não estão em ação naquele instante e, afinal, estou computando percentagens nos acertos, não quando estou só tentando!".
Isso gera um ciclo de feedback confirmatório. A eficácia de um feitiço para afastar maus espíritos é julgada pela melhora do paciente. No entanto, a verdadeira libertação do paciente de tais espíritos é definida pela "autenticidade" do feitiço, que por sua vez pode ser influenciada pelas condições do exorcismo ou pela reputação do curador.
Aliás, a própria questão da eficácia e ineficácia é frequentemente nublada. É comum que os próprios efeitos terapêuticos sejam difíceis de mensurar objetivamente. Por exemplo, como quantificar os resultados visíveis de "níveis de energia restaurados" ou "chakras liberados", termos frequentemente utilizados por terapeutas alternativos? Devido a esses mecanismos de defesa, as inferências causais se reforçam mutuamente, blindando o sistema de crenças contra qualquer refutação.
Dessa forma, os próprios princípios causais gerais permanecem imunes à desconfirmação.
Conclusão
No fim, o perigo das crenças infalsificáveis não está em sua falsidade, mas em sua estrutura. Elas não vivem por estar certas — vivem por não poderem estar erradas. São ideias que se retroalimentam, que explicam a crítica como sintoma, o erro como exceção, a dúvida como confirmação. O maior problema da pseudociência, da má teoria e do dogma não é serem irracionais, mas serem irracionalizáveis. Ao contrário da boa ciência — que erra, se corrige e progride —, essas crenças criam um espaço onde errar não é possível. E onde não se pode errar, também não se pode aprender.
Felipe Novaes é psicólogo e professor da PUC-Rio. Divulga o melhor da psicologia científica no Garagem Psi. Atua no cruzamento entre ciência, filosofia e cultura, onde dados e mitos se estranham com frequência. Interessa-se por psicologia evolucionista, história das ideias e pela tensão entre razão e pertencimento em tempos de algoritmo
