Nos EUA, "Big Wellness" supera influência da "Big Pharma"

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21 jul 2025
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pessoa em posição de lótus

 

A caminho de um evento do Ultimate Fighting Championship, o secretário de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., parou na casa do podcaster Gary Brecka. Os dois passaram um tempo em uma câmara hiperbárica, usaram alguns drips nutricionais intravenosos que Brecka, um autoproclamado promotor de longevidade e bem-estar, vende e anuncia em seu programa, “The Ultimate Human”.

Então a gravação do podcast começou, e Kennedy — que também estava ao microfone — mirou na influência da Big Pharma sobre a política federal americana de saúde.

“Temos um sistema de assistência à doença em nosso país, e a etiologia, em última análise, de toda essa doença é a corrupção”, disse Kennedy antes que o programa cortasse para um anúncio de pastilhas de vitamina. “É a captura dessas agências pelas indústrias que deveriam regular”.

Enquanto Kennedy critica as agências federais que, segundo ele, são excessivamente influenciadas pela indústria farmacêutica, ele e algumas outras figuras do movimento "Make America Healthy Again", ou MAHA - como os irmãos Calley e Casey Means, Robert Malone e Peter McCullough - têm seus próprios laços financeiros com uma vasta e amplamente desregulamentada indústria global de bem-estar de US$ 6,3 trilhões que apoiam e promovem.

Kennedy e esses quatro consultores — três dos quais foram selecionados para cargos oficiais no governo — ganharam pelo menos US$ 3,2 milhões em honorários e salários por seu trabalho na oposição à Big Pharma e na promoção da indústria de bem-estar em 2022 e 2023, de acordo com uma revisão de documentos oficiais e material publicado na mídia feita pela KFF Health News.

O total não inclui receita de cachês por palestras, venda de produtos de bem-estar ou outras fontes de renda para as quais os dados não estão disponíveis publicamente.

Os irmãos Means lançaram empresas de bem-estar que arrecadaram mais de US$ 99 milhões de investidores, de acordo com comunicados de imprensa , bem como informações da Clay, uma empresa de dados de pesquisa de clientes, e da Tracxn, uma empresa de tecnologia da informação que fornece acesso a um banco de dados de empresas, rodadas de financiamento e informações do investidor.

“O secretário Kennedy e todos os funcionários do HHS cumprem integralmente todas as leis de ética e divulgação financeira”, disse a porta-voz da agência Emily Hilliard em um e-mail. “Qualquer tentativa de sugerir impropriedade é imprudente e politicamente motivada”.

Alguns líderes de saúde pública e especialistas em ética dizem que os laços financeiros levantam sinais de alerta, com o potencial de interesses financeiros pessoais acabarem moldando decisões nos mais altos escalões das agências federais de saúde.

“A corrupção está tomando conta”, disse Arthur Caplan, chefe fundador da divisão de ética médica da Grossman School of Medicine da Universidade de Nova York. “Você não deveria ter interesses cruzados para fazer recomendações sobre bem-estar, suplementos ou saúde. Isso abre a porta para todo tipo de aventura. A ‘Big Wellness’ não é diferente da Big Pharma. Eles são uma força política bem organizada”.

Diferentemente de qualquer outro governo anterior, a administração do presidente Donald Trump elevou os líderes antivacinas e de bem-estar a posições no HHS a partir das quais eles podem orientar a política federal. Os seguidores do movimento MAHA dizem que já passou da hora de mudar, argumentando que as administrações anteriores não dedicaram atenção suficiente aos possíveis danos das abordagens médicas tradicionais.

Críticos, incluindo especialistas em políticas de saúde e médicos, dizem temer que o novo HHS e suas agências estejam agora prejudicando a saúde pública. Por exemplo, apontam para uma recente decisão de Kennedy de remover e substituir todos os membros de um grupo consultivo de vacinas, um movimento criticado pela Associação Médica Americana por falta de transparência. Dois dos recém-nomeados membros do painel de Kennedy — Malone e Martin Kulldorff — anteriormente ganhavam dinheiro como especialistas pagos em ações judiciais de vacinas contra a Merck, conforme relatado pela primeira vez pela Reuters e pela agência de notícias de ciências da vida BioSpace.

Calley Means, que criticou o cronograma de vacinas recomendado pelos EUA para jovens e não tem treinamento médico, é um funcionário especial do governo e um dos principais conselheiros de saúde de Kennedy. Ele também foi cofundador da empresa de bem-estar Truemed.

A empresa permite que as pessoas obtenham vantagens fiscais ao pagar por produtos de bem-estar, alimentos saudáveis aulas da SoulCycle. O site da Truemed diz que pode fornecer aos clientes uma “Carta de Necessidade Médica” para justificar a aquisição dos itens.

A Receita Federal alertou os consumidores sobre empresas que deturpam itens de bem-estar, como alimentos, como elegíveis para abatimentos quando, na verdade, não são despesas médicas reconhecidas.

A Receita Federal não respondeu a perguntas sobre o status dessa política sob o governo Trump.

Em 2024, quando Kennedy estava concorrendo à Presidência como independente, promoveu a empresa de Means em seu próprio podcast. Means também promoveu sua estreita conexão com Kennedy no ano passado em podcasts e no Instagram, ao mesmo tempo em que usava as mídias sociais para promover a Truemed. Enquanto trabalhava como funcionário público desde março, Means usou mídias sociais para promover podcasters que ganham dinheiro vendendo produtos de bem-estar, para criticar medicamentos farmacêuticos específicos e para divulgar o livro de bem-estar que co-escreveu, "Good Energy", de acordo com uma revisão da KFF Health News de postagens e podcasts de mídia social.

Means também usou podcasts e mídias sociais para se opor a novas drogas injetáveis para perda de peso. O governo Trump decidiu, em abril, não finalizar uma regra que permitiria que os serviços públicos Medicaid e Medicare cobrissem os medicamentos injetáveis, colocando-os fora do alcance de milhões de usuários em potencial.

Hilliard, o porta-voz do HHS, não respondeu a perguntas sobre se Means, como conselheiro de Kennedy, declarou-se impedido de opinar em decisões que poderiam afetar seus negócios. Nem o HHS nem a Casa Branca responderam aos pedidos para falar com ele.

Sua irmã, Casey Means, é a escolha de Trump para cirurgiã-geral e também foi conselheira de Kennedy durante sua corrida presidencial de 2024. Ela cofundou a Levels, uma empresa avaliada em US$ 300 milhões em 2022, que promove o monitoramento de glicose para indivíduos não diabéticos e saudáveis. Os consumidores pagam US$ 199 por um suprimento de um mês de monitores contínuos de glicose.

Ela usou as mídias sociais para pedir uma política pública que incentivasse o monitoramento do açúcar no sangue para indivíduos saudáveis, dizendo que “dicas para estabilizar a glicose devem estar em todos os outdoors na América”. Pesquisa científica encontrou poucas evidências de que tal monitoramento traz benefícios à saúde de pessoas sem diabetes.

Sua empresa se beneficiará sob a administração Trump. Kennedy disse, em abril, que estava considerando uma estrutura regulatória para a cobertura dos programas federais de saúde de medicamentos injetáveis para perda de peso que, primeiro, exigiriam que os pacientes tentassem o monitoramento de glicose ou outras opções.

“E se eles não funcionarem, então você teria direito à droga”, disse ele à CBS News.

Casey Means não tem uma licença ativa para praticar Medicina, de acordo com registros do Oregon Medical Board. E, como influenciadora online, ela “falhou em divulgar que poderia lucrar” com as vendas dos produtos que recomenda, de acordo com a Associated Press.

A porta-voz do HHS, Hilliard, não respondeu a perguntas sobre se Casey Means se recusaria a trabalhar em qualquer coisa que beneficiasse diretamente sua empresa, ou por que ela não revelou que poderia lucrar com as vendas dos produtos que recomenda. O HHS não respondeu a perguntas sobre os laços de Means com Kennedy ou o apoio da agência para o monitoramento da glicose, nem a agência respondeu a um pedido para falar diretamente com a cirurgiã-geral de Trump.

Consultores Externos

McCullough, um ex-médico cardiologista que tem laços financeiros com a indústria do bem-estar, faz parte do círculo de conselheiros informais de Kennedy, de acordo com pessoas próximas ao secretário. Ele também tem influência suficiente sobre alguns legisladores do Partido Republicano para ser convidado a testemunhar perante o Congresso. Em maio, disse a um subcomitê do Senado que as vacinas mRNA para Covid-19 podem ter causado mortes que foram subnotificadas. Mas a FDA diz que as vacinas contra Covid são seguras, com menos de 1 em cada 200.000 indivíduos vacinados passando por uma reação alérgica grave ou problemas cardíacos, como miocardite ou pericardite.

Ele lucra com essa mensagem. McCullough criou um protocolo que, ele diz, ajuda as pessoas a se desintoxicar das injeções de mRNA, vendendo os produtos através da The Wellness Co. McCullough é o diretor científico da empresa, recebe um salário parcial e detém participação acionária.

Por US$ 89,99, os consumidores podem comprar suplementos Ultimate Spike Detox contendo uma enzima de soja fermentada. Um suprimento de dois meses de suplementos Spike Support é vendido na Amazon por cerca de US$ 62. Mais de 900 garrafas foram vendidas no mês passado.

McCullough não respondeu a um e-mail pedindo comentários. O HHS também não respondeu a perguntas sobre o relacionamento com Kennedy.

Alguns médicos e especialistas em políticas de saúde dizem que as conexões financeiras que os funcionários e consultores federais de saúde têm com a indústria de bem-estar levantam preocupações.

“É exatamente o problema que RFK diz que a FDA tem, quando afirma que está muito atrelada à indústria farmacêutica”, disse Pieter Cohen, professor associado de Medicina da Universidade de Harvard.

“Quando você está em conluio com fabricantes de suplementos, você está criando os mesmos tipos de conflitos de interesse, quer você tenha ou não lucro direto”, disse ele. “Você deve defender a saúde pública de forma independente, não ser animador de torcida para qualquer indústria em particular”.

O setor de bem-estar inclui cuidados pessoais, perda de peso, saúde, nutrição e turismo de bem-estar.

Sua influência de lobby é marcadamente menor do que o alcance de lobby das empresas farmacêuticas, de acordo com a OpenSecrets, uma organização de pesquisa que rastreia dinheiro na política dos EUA. A indústria de suplementos nutricionais e dietéticos gastou cerca de US$ 3,7 milhões em lobby em 2024, por exemplo, em comparação com os US$ 387 milhões que a indústria farmacêutica gastou no mesmo ano.

Também recebe muito menos escrutínio. A indústria é uma força política crescente com seus próprios lobistas, celebridades e grupos de apoio, e pesquisas mostram que o interesse público pelo bem-estar cresceu desde a pandemia. Oitenta e quatro por cento dos consumidores dos EUA dizem que o bem-estar é uma prioridade "principal" ou "importante", de acordo com uma pesquisa divulgada este ano pela McKinsey & Co.

Ao contrário da Big Pharma, há escassa regulamentação sobre o setor. As empresas podem vender suplementos e outros produtos sem notificar a FDA, e há pouca supervisão da Comissão Federal de Comércio sobre as alegações feitas nos rótulos e bulas dos produtos.

“A indústria do bem-estar lucra ao criar desconfiança na ciência e nos produtos regulamentados”, disse Andrea Love, uma imunologista e microbiologista que fundou a ImmunoLogic, uma organização de educação científica e em saúde. “Eles estão enviando mensagens de que o governo e a Big Pharma estão escondendo informações e tratamentos ou curas para nos manter fracos e vulneráveis”.

Ética e transparência

Pessoas de ambos os lados da questão dizem que a indústria encontrou seu capitão em Kennedy, um ativista antivacina com laços profundos com o MAHA e os movimentos de bem-estar.

Ele ganhou dinheiro encaminhando pessoas para escritórios de advocacia que abriram processos sobre supostos danos causados por vacinas. Por exemplo, recebe honorários por encaminhar clientes em potencial para uma empresa de danos pessoais de Los Angeles, de acordo com declaração de janeiro ao HHS e seus dados financeiros. Um de seus filhos adultos trabalha no escritório de advocacia de danos pessoais.

Quando sua nomeação para o cargo de secretário do HHS estava em análise, Kennedy indicou que pretendia continuar lucrando com ações judiciais sobre Gardasil, uma vacina da Merck que protege contra o HPV. Depois que os democratas levantaram preocupações com o relacionamento financeiro, ele disse ao Congresso que alienaria seu interesse e transferiria a participação financeira para um de seus filhos adultos.

As regras de ética federais impedem os funcionários do governo de participar de questões em que eles, cônjuges ou filhos menores tenham participação financeira. Não inclui filhos adultos.

“Há muitas brechas, e essa é uma delas”, disse Cynthia Brown, conselheira sênior de ética do Citizens for Responsibility and Ethics em Washington, uma organização de vigilância focada na ética e responsabilidade do governo dos EUA. “Certamente, é um problema de percepção pública. Mesmo que não seja uma violação técnica, é um problema ético”.

Alguns legisladores e especialistas em ética pública não foram convencidos pela alienação planejada de Kennedy. A senadora Elizabeth Warren (D-Mass.) pediu a Kennedy que concordasse com uma quarentena de quatro anos antes de aceitar qualquer compensação por ações judiciais envolvendo qualquer entidade regulamentada pelo HHS.

“Seria insuficiente para RFK Jr. apenas desinvestir seu interesse no caso Gardasil, deixando a janela aberta para lucrar com outros processos antivax, incluindo casos futuros que ele poderia abrir depois de deixar o cargo”, disse ela em um comunicado.

Kennedy também ganhou dinheiro com o nome MAHA, solicitando seu registro como marca registrada. Ele transferiu a propriedade da marca para uma empresa liderada pelo amigo e aliado da MAHA Del Bigtree, depois de faturar cerca de US$ 100.000 com a frase.

Hilliard, do HHS, não respondeu a perguntas sobre se Kennedy havia transferido seu honorário por indicação se serviços legais para o filho, o dinheiro que ganhou ao registrar a MAHA como marca registrada ou se concordou com o pedido de Warren para uma quarentena de quatro anos.

Bigtree é diretor executivo da Rede de Ação de Consentimento Informado, ou ICAN, um grupo antivacinação. Ele foi diretor de comunicações da campanha presidencial fracassada de Kennedy e, como conselheiro informal do secretário, ajudou a avaliar candidatos a empregos no HHS. O salário de Bigtree na organização sem fins lucrativos foi de US$ 234.000 para o ano fiscal de 2023, de acordo com documentos arquivados na Receita Federal. A ICAN pagou US$ 6 milhões em honorários advocatícios à Siri & Glimstad em 2023. O sócio-gerente da empresa, Aaron Siri, se especializa em danos atribuídos a vacinas. Ele foi advogado e conselheiro pessoal de Kennedy, e também ajudou na triagem de candidatos a emprego no HHS.

Brown, um conselheiro de ética, disse que o negócio com a marca registrada e o relacionamento consultivo contínuo podem levantar questões sobre quem está influenciando Kennedy. Bigtree, em um evento do portal de notícias Politico, em fevereiro, pediu a Kennedy que recrutasse cientistas para o HHS que acreditam que as vacinas causam autismo. Uma das primeiras ações de Kennedy no HHS foi o lançamento de um estudo sobre as causas do autismo.

A ICAN não respondeu a um e-mail solicitando comentários. O HHS também não respondeu às perguntas sobre a transferência da marca registrada da MAHA por Kennedy para a Bigtree.

“Este é o tipo de esquema que levanta questões sobre integridade no governo”, disse Brown. “Se foi uma marca registrada antes de ele se tornar um funcionário público, pode não haver violação da lei. Mas ao transferi-la para alguém que conhece, ilustra o constante fluxo de influência entre aqueles no poder”.

Administrações anteriores enfrentaram críticas semelhantes sobre os laços dos reguladores de saúde com a Big Pharma. Alex Azar, que liderou o HHS durante a administração anterior de Trump, trabalhou para a fabricante de medicamentos Eli Lilly antes de assumir o cargo público. Robert Califf, comissário da FDA durante a administração Biden, foi consultor de empresas farmacêuticas.

Scott Gottlieb, que foi comissário da FDA de 2017 a 2019 e conselheiro da campanha presidencial de Trump, renunciou para se juntar ao conselho da fabricante de medicamentos Pfizer.

“A Big Pharma é muito rica. Mas, em geral, os conflitos financeiros não dependem de quanto as organizações gastam”, disse Zeke Emanuel, um bioeticista que atuou em um conselho consultivo de Covid sob o presidente Joe Biden. “A questão é: é razoável supor que considerações financeiras, ou outras, estejam afetando decisões de funcionários públicos?”

Stephanie Armour é jornalista. A KFF Health News é uma redação nacional que produz jornalismo aprofundado sobre questões de saúde e é um dos principais programas operacionais da KFF - uma fonte independente de pesquisas e jornalismo sobre políticas de saúde. Saiba mais sobre a KFF. O texto original em inglês pode ser acessado aqui.

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