Os demônios de Varginha

Artigo
11 ago 2025
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Placa de trânsito indicando extraterrestre

Férias, finalmente! E durante esse breve, mas precioso, mês poderei me dedicar a algumas coisas agradáveis. É tempo de se fazer o que se gosta, ou pelo menos é isso que tento me convencer de que farei. De fato, estou utilizando esse tempo para reparar algumas de minhas falhas como leitor (ou ser humano). Até recentemente, nunca havia lido sequer uma linha de J. R. R. Tolkien. Agora, já li O Hobbit e A Sociedade do Anel, e já estou com a leitura de As Duas Torres encaminhada. Porém, há outra leitura que também tem recebido minha atenção.

Publicado em 2001, o livro O Caso Varginha, de autoria de Ubirajara Franco Rodrigues, é quase uma leitura obrigatória para aqueles que se enveredam pelos pântanos da ufologia. Então estou cumprindo esse pré-requisito. E você pode se perguntar, com razão: por que diabos eu estaria perdendo meu precioso tempo de férias com isso? Justo, mas há duas razões principais. Primeiro, porque gosto do assunto, simples assim. Segundo, penso que podemos aprender muito sobre pseudociência e, portanto, sobre ciência ao investigarmos esses relatos e a discussão em torno deles.

Mas não se aborreça: eu não vou escrever uma resenha sobre o livro. Ainda não terminei. Na verdade, quero trazer para sua consideração algo que só aprendi muito recentemente sobre o Caso Varginha, algo que compromete seriamente a hipótese extraterrestre como explicação do caso.

Thomas Henry Huxley, o cientista vitoriano que ficou conhecido como “o buldogue de Darwin” por sua defesa da evolução nos debates do século 19, certa vez escreveu que "a grande tragédia da ciência é a morte de uma bela hipótese por um fato feio". Teorias ou hipóteses científicas bem elaboradas e elegantes podem ser derrubadas pela descoberta de um fato que as contradiz. Embora essa afirmação seja, é claro, um exagero — não é exatamente assim que as coisas funcionam —, é bem verdade que um fato inconveniente pode causar muitos problemas para uma bela teoria. Seja ela científica ou não. E existe um “fato feio” sobre o Caso Varginha.

Quando alguém quer muito acreditar em algo, ou quer muito que você acredite, o que é comum acontecer? Existem algumas opções: 1) mentir sobre os fatos; 2) interpretá-los de forma a corroborar uma ideia prévia; 3) omitir fatos importantes. Omitir “fatos feios” que derrubam uma narrativa é um vício humano, eu diria. O Caso Varginha, por exemplo, está repleto disso. Sobre mentiras, não quero falar, mas sobre viés de confirmação e omissão de fatos, sim.

Acompanho a cena ufológica já há algum tempo, como você já deve ter notado se lê com frequência a minha coluna. Não obstante, só muito recentemente fiquei sabendo de um fato que é muito importante para interpretar o que aconteceu em Varginha como fenômeno real, especialmente o avistamento das criaturas. Mas, antes de prosseguir, permita-me gastar um parágrafo explicando resumidamente o caso e suas principais testemunhas.

O Caso Varginha, um dos relatos ufológicos mais famosos do Brasil, teve como ponto central o depoimento de três meninas (Liliane, Valquíria e Kátia) que afirmaram ter visto uma criatura estranha em um terreno baldio no bairro Jardim Andere, em Varginha (MG), em 20 de janeiro de 1996. As jovens descreveram o ser como sendo humanoide, de pele marrom e oleosa, olhos grandes e vermelhos, cabeça desproporcional ao corpo e veias salientes. A forte reação emocional das meninas, que correram apavoradas para casa, deu peso ao relato e impulsionou a atenção da imprensa e dos ufólogos, que logo associaram o episódio à queda de um suposto objeto voador não identificado na região.

Muitos dos relatos sobre o Caso Varginha contêm, além de possíveis exageros e interpretações enviesadas, uma significativa omissão: as antigas lendas urbanas sobre um tal de Zé Gomes, proprietário de um terreno no Jardim Andere, que faz a circunvizinhança com o lote onde as meninas alegam ter visto a criatura. Durante décadas, circulavam boatos em Varginha de que Zé Gomes praticava rituais de magia negra. Dizia-se que ele tinha “pacto com o diabo”, que invocava entidades demoníacas e que até teria “engarrafado um demoninho”. Essas histórias faziam parte do imaginário local muito antes do famoso episódio de 1996.

Fiquei sabendo disso graças a um áudio disponibilizado pelo canal João Marcelo no YouTube, no qual Ubirajara Rodrigues (hoje muito cético quanto a uma visão estritamente extraterrestre da casuística ufológica, mas que foi um dos principais investigadores do caso à época) narra, além da lenda de Zé Gomes, uma história sobre como um esotérico local teria afirmado ter aberto um “portal” em determinado lugar da cidade, de onde teriam saído criaturas humanoides magras, com olhos vermelhos e chifres, descrição que coincide, em algum grau, com os relatos das meninas, anos depois. Isso sugere que o avistamento pode ter sido influenciado, ao menos em parte, por esse caldo cultural pré-existente.

Não se trata de dizer que elas mentiram, mas de reconhecer que testemunhos são construídos dentro de um contexto psicológico e cultural. Mesmo Ubirajara, um dos principais investigadores do caso, admite que, no início, sua própria expectativa por contato com alienígenas o fez ignorar essas lendas locais. Ele também cogita outra hipótese plausível: as meninas, já assustadas por boatos sobre alguém atacando pessoas na região, podem ter se deparado com alguém ou algo agachado perto de um muro e, em pânico, interpretado a cena à luz de suas crenças e medos, como sendo um “demônio”.

A confusão, reforçada pelo pânico social e pela forma como os relatos se propagam, teria construído a narrativa fantástica que conhecemos.

Sim, estou ciente de que até hoje as “três meninas” sustentam o relato e são categóricas em afirmar que não viram uma pessoa ali. Não quero afirmar que nada viram. Porém, deve-se considerar que elas eram católicas e, inicialmente pelo menos, acreditavam ter visto um demônio, não um extraterrestre. Curiosamente, justamente no terreno que pertencia a Zé Gomes. Existe ainda o contexto cultural mais amplo de Varginha e região. Em seu livro de 2001, Ubirajara expõe bem esse pano de fundo cultural. Sobre a cidade, ele escreve que ela está:

“... situada à média de uma hora de viagem, por todos os lados, de cenários extravagantes: na direção de São Paulo, a cidade de Pouso Alegre abriga um alegado paranormal mundialmente conhecido. No extremo oposto, está a controvertida São Thomé das Letras, foco do modismo místico. A sudeste, morava a falecida clarividente Neila Alkmin, em Conceição do Rio Verde. Por São Lourenço, Carmo de Minas e Aiuruoca radicou-se a Sociedade Brasileira de Eubiose (SBE). No sentido Belo Horizonte, Carmo da Cachoeira está quase toda tomada pelos adeptos de alguém que diz receber conhecimentos de extraterrestres, que a cada dia adquirem propriedades e vivem numa comunidade rural. E dizem que outros projetos continuam chegando na região. Tudo mais ou menos a uma hora de viagem”.  

Aliás, especificamente falando de Varginha, a cidade já convivia há algumas décadas com temas ufológicos. Na edição de 29 de novembro de 1970 do jornal Tribuna Varginhense, uma matéria relata um suposto avistamento de disco voador sobre a cidade. Um dos locais onde ocorreu um dos avistamentos? O bairro Jardim Andere, onde, em 1996, o “ET de Varginha” foi visto. No Arquivo Nacional você pode até mesmo encontrar um informe de 1971, do Ministério da Aeronáutica, sobre o caso em questão (talvez seja necessário fazer login no sistema GOV, se desejar acessá-lo). O editor-chefe da RQC, Carlos Orsi, já escreveu sobre o Caso Varginha e o caldeirão cultural no qual ele foi cozido. Confira aqui.

Diante disso tudo, o mais simples talvez seja mesmo o mais plausível. É razoável supor que elas viram algo e interpretaram de forma equivocada, algo que a ciência do comportamento e da percepção conhece bem.

No entanto, o que incomoda é que, em vez de lidar com essas explicações mais prosaicas, parte da ufologia contemporânea responde dobrando a aposta: propõe-se agora que o caso não envolvia alienígenas, mas sim seres extradimensionais vindos por portais mágicos, numa tentativa desesperada de salvar o caso às custas de outra hipótese ainda menos plausível. Por mais fascinante que seja imaginar visitantes de outros planetas ou realidades, a ausência de evidências concretas precisa pesar mais do que o desejo de crer.

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente Doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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