O "Efeito Gollum" na ciência

Artigo
8 set 2025
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o Um Anel

 

Um dos mais icônicos personagens da saga O Senhor dos Anéis (de J. R. R. Tolkien) é a criatura Gollum, um ser retorcido, de corpo magro e ossudo, marcado pelo longo tempo que passou em escuridão e isolamento. Sua personalidade é perversa, fragmentada e contraditória. Dentro dele convivem duas faces em conflito: Sméagol, uma parte frágil e quase inocente, que busca afeto e aceitação de seu mestre, e Gollum, a persona deformada pela obsessão pelo Um Anel, traiçoeira, desconfiada e dominada pelo desejo de posse. Gollum vive consumido pela solidão e pela obsessão com o seu “precioso”, que o corrompeu a ponto de dissolver quase toda a sua “humanidade” (ou palavra que o valha).

Mas quem dera a obsessão e sentimento de posse por uma determinada coisa ou assunto fizesse parte apenas do mundo da alta fantasia. Inspirado no personagem de Senhor dos Anéis, os pesquisadores John Gould e Jose W. Valdez cunharam em publicação na Frontiers in Ecology and Evolution o termo “Efeito Gollum” para descrever um comportamento presente em diferentes áreas do meio acadêmico (e fiquei maravilhado e triste pela perfeita aplicação do termo à situação da paleontologia): a apropriação possessiva de recursos, espécies, sítios de pesquisa ou mesmo campos inteiros de investigação por parte de cientistas que passam a se ver como donos exclusivos desses temas. Meu orientador, Felipe Pinheiro, pensa que na paleontologia existe ainda o “Efeito Smaug”, que discutimos aqui.

Temas inteiros, dados, e recursos tornam-se propriedade, “preciosos anéis” de poder na mão de cientistas que, tal como Gollum, que escondia o Um Anel nas profundezas da montanha, agem como guardiões de territórios de pesquisa, restringindo o acesso a oportunidades que deveriam ser coletivas, colaborativas e, acima de tudo, servir ao avanço do conhecimento. Todos nós, cientistas, sabemos da prevalência desse fenômeno, que embora ainda pouco discutido de forma aberta, tem consequências sérias para a qualidade da ciência e para a vida dos cientistas, sobretudo aqueles em início de carreira.

 

Impacto na qualidade

O primeiro grande problema do Efeito Gollum é que é, por natureza, contrário ao progresso científico. Quando pesquisadores estabelecidos desencorajam, intimidam ou mesmo proíbem outros de trabalhar em determinadas espécies, áreas geográficas ou tópicos, projetos deixam de ser realizados e perguntas importantes permanecem sem resposta; ou a qualidade dos projetos fica comprometida, pela ausência de dados importantes. A ciência perde a oportunidade de multiplicar perspectivas e abordagens, e isso compromete a robustez dos resultados. Um efeito trágico e, repito, anticientífico. Acredite: sim, isso acontece. E muito.

Outro impacto, relacionado ao anterior, é a concentração de poder. Se apenas um grupo ou indivíduo controla determinada área de investigação, cria-se uma espécie de monopólio acadêmico. Isso não só gera distorções sobre quais questões de pesquisa são consideradas relevantes, como também limita o espaço para visões alternativas, o que empobrece o debate científico. Em casos extremos, um campo inteiro pode se tornar refém de um pequeno círculo de especialistas, incapaz de se renovar ou incorporar novas ideias.

O Efeito Gollum também atinge a integridade da revisão por pares, considerada por muitos um dos pilares do método científico moderno, pelo menos no que diz respeito à qualidade e robustez das publicações. Pesquisadores em posição de poder podem rejeitar (e rejeitam) artigos não por critérios metodológicos ou de qualidade, mas porque os resultados ameaçam suas próprias linhas de pesquisa ou prestígio. Apesar de infantil, acontece. E quase todo cientista que já submeteu alguns artigos para revisão sabe disso. A distorção mina a confiança no sistema de publicação científica e perpetua desigualdades.

Há ainda impactos indiretos, que afetam a ciência como um todo. Áreas de estudo negligenciadas pela ação dos “golluns” podem sofrer com a crise de replicação: sem diversidade de grupos trabalhando em paralelo, falta verificação independente de hipóteses e lacunas críticas de dados. A ciência produzida se torna menos confiável, menos aberta e menos capaz de se autocorrigir. Replicação e autocorreção são parte inerente ao empreendimento científico. O vilipêndio delas é a ruína da ciência.

 

Efeitos na ciência

Embora qualquer pesquisador possa ser alvo do Efeito Gollum, é claro que os mais afetados são cientistas em início de carreira: estudantes de mestrado e doutorado, pós-doutorandos e jovens professores. Esses grupos enfrentam assimetrias de poder marcantes, pois dependem de orientadores, cartas de recomendação, acesso a laboratórios e até de redes de contatos para conseguir financiamento ou publicar. E na academia, vale a máxima: publique ou pereça. Nessa posição vulnerável, um conflito com um pesquisador mais sênior pode significar uma janela que se fecha; é o fim de uma linha de pesquisa ou até da própria carreira.

Mas nem só de publicações vivem os cientistas. Afinal, ainda somos humanos. Os efeitos psicológicos também são graves. Muitos relatam sentir isolamento, insegurança e falta de controle sobre sua própria pesquisa (o que só é amplificado em minorias). O medo de represálias (críticas públicas, boatos em conferências ou dificuldades em publicar) leva jovens cientistas a abandonar projetos promissores, ou continuá-los sob um estresse desnecessário. Em alguns casos, isso resulta na mudança forçada de área ou mesmo no abandono da carreira. Cada vez que isso acontece, perde-se não apenas um pesquisador, mas também suas ideias originais e perspectivas únicas.

É importante ressaltar que o Efeito Gollum não afeta todos de forma igual. Intensidade e prevalência variam de acordo com os grupos. Mulheres, pessoas negras, estrangeiros e grupos historicamente subrepresentados na ciência (e.g., LGBTQIP+) tendem a ser mais afetados. Como já enfrentam preconceitos e barreiras institucionais, tornam-se alvos preferenciais de intimidação.

Apesar de conhecido e reconhecido, superar o Efeito Gollum exige mudanças que vão além de atitudes individuais. É preciso respostas institucionais e culturais. As instituições podem, por exemplo, adotar políticas claras contra o assédio acadêmico e a apropriação indevida de recursos de pesquisa, com canais seguros de denúncia, investigação independente e punições proporcionais.

As sociedades científicas poderiam criar códigos de conduta, oferecer treinamentos sobre ética colaborativa e barrar pesquisadores reincidentes de ocupar cargos de liderança ou receber prêmios. Já os periódicos e revistas, por sua vez, deveriam atuar para reforçar a transparência em critérios de autoria, criar registros de revisores problemáticos e proteger autores de conflitos de interesse durante o processo de avaliação. Muitas vezes essas proteções existem, mas só no mundo das ideias.

A você, meu caro cientista sênior que pode estar reclamando do meu “mimimi”, faço um pedido. Deixei que minha geração lute suas lutas, ou sejam aliados ativos. O que pode fazer? Recuse-se a tolerar práticas possessivas e abra espaço para a independência de jovens pesquisadores.

O Efeito Gollum na academia não é apenas um problema interpessoal: é um entrave estrutural que ameaça a vitalidade e força da ciência. Reduz a diversidade de ideias, perpetua desigualdades e cria um ambiente hostil para todos. Combatê-lo exige coragem individual, certamente, mas também o apoio comunitário e sobretudo políticas institucionais que protejam os mais vulneráveis. Assim como no universo de J. R. R. Tolkien, o apego doentio ao “precioso” não leva à prosperidade, mas à ruína. Se apenas o “Gollum” fosse atirado nas Fendas da Perdição... Seria tudo mais fácil. Atualmente, iniciar uma carreira na ciência é como iniciar uma jornada para a sombria terra de Mordor. Até quando?

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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