
Em 16 de setembro, a Câmara dos Deputados realizou audiência pública para discutir ufologia e a Lei de Acesso à Informação. O evento foi convocado pelo deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) e, como era de se esperar, causou controvérsia. Afinal, o Brasil enfrenta inúmeros problemas urgentes e, para muitos, pode parecer (com razão, eu diria) um desperdício de tempo e recursos dedicar espaço legislativo a relatos de discos voadores, ou à suposta conspiração mundial para esconder o “fato” de que estamos sendo visitados por seres de outros planetas.
A audiência foi, em geral, morna. Não trouxe (e eu não esperava que trouxesse) novas evidências relevantes e, em vários momentos, flertou com o delírio. Numa discussão que pretende ser democrática, julgo que faltou equilíbrio: a mesa foi composta majoritariamente por pessoas simpáticas à hipótese extraterrestre, sem um contraponto cético robusto. O único momento em que apareceu um olhar mais crítico sério (isto é, não sob a forma de chacota) foi na forma de um vídeo gravado, e mesmo assim, a reação da mesa foi defensiva, não dialógica.
Entre os participantes esteve Thiago Ticchetti, editor da Revista UFO, que apresentou vídeos e casos clássicos, incluindo o famoso “tic-tac” e o mais recente vídeo do Iêmen, que mostra um míssil aparentemente atravessando um objeto voador. Esses vídeos, porém, já foram analisados por diversos investigadores independentes, alguns deles pilotos ou especialistas em imagens, e explicados como fenômenos comuns ou tecnologia humana (veja aqui um exemplo). Aliás, no que diz respeito ao "tic-tac", um rumor recente diz que se trata de tecnologia secreta desenvolvida pela Lockheed Martin. Recorrer a eles como evidência extraordinária é ignorar refutações bem documentadas.
Thiago também mencionou um caso de 1967, em que ogivas nucleares teriam sido desativadas por um UFO. O problema é que investigações posteriores, inclusive do governo dos EUA (discutimos aqui na RQC), indicaram que se tratava de testes de interferência eletromagnética conduzidos pelos próprios militares. O episódio ilustra um ponto recorrente: mesmo quando há explicações naturais ou convencionais, elas são sistematicamente rejeitadas por quem já está convencido da natureza alienígena dos eventos.
O veterano Vitório Pacaccini, um dos principais investigadores do Caso Varginha, também foi convidado. Seu relato segue a linha conspiratória tradicional: militares teriam capturado uma criatura extraterrestre e conduzido operações secretas de transporte. Para ele, as investigações do Exército não passam de cortina de fumaça. Mas, até hoje, nenhuma evidência documental ou física foi apresentada que sustente essas alegações. Pacaccini afirma ter visto vídeos da criatura, mas sem divulgação pública ou possibilidade de verificação, essas afirmações permanecem no campo do anedótico.
Outro ponto levantado foi o suposto “acobertamento mundial” do fenômeno UFO. Essa hipótese não resiste a um exame lógico: vivemos em um mundo com centenas de países, culturas, governos e interesses conflitantes. A ideia de que todos esses atores colaborariam para manter a maior descoberta da história humana em segredo é implausível. A ausência de evidências sólidas é mais bem explicada pela hipótese nula: talvez não haja nada de extraordinário para ser revelado.
Houve ainda intervenções que beiraram o absurdo. Uma das participantes afirmou que “a física quântica está explicando o comportamento dos UFOs”. Declarações assim evidenciam o caráter pseudocientífico de grande parte do discurso ufológico. “Física quântica” virou uma espécie de mantra esotérico usado para justificar qualquer coisa, o que só reforça o distanciamento da ufologia em relação ao método científico.
Vale destacar, no entanto, que a audiência não foi um “circo”, como sugeriu um dos presentes, de forma deselegante e desnecessária. As pessoas que participaram o fizeram de maneira respeitosa, às próprias custas, e acreditam sinceramente no que defendem. Nesse sentido, a iniciativa tem mérito: milhões de brasileiros se interessam por ufologia, e o Congresso tem o dever de ouvir a sociedade.
A polêmica maior veio de fora da audiência: o divulgador científico Sérgio Sacani comentou o episódio dizendo que “o Brasil odeia ciência”. Essa é uma afirmação forte e, a meu ver, exagerada. Realizar uma audiência sobre ufologia não significa que o país seja hostil à ciência. Pesquisas de opinião mostram que boa parte da população se interessa por temas científicos. A questão é: o que essas pessoas entendem por “ciência”? Será que incluem astrologia, criacionismo ou ufologia nessa categoria? Se sim, esse interesse é mais rótulo do que compreensão.
Dito de outro modo, o Brasil não odeia ciência, mas tampouco a entende. Ciência é admirada enquanto não confronta crenças prévias. Quando o faz, passa a ser vista como incômoda ou “arrogante”. Essa ambivalência ajuda a explicar por que pseudociências prosperam, pois oferecem respostas simples, reforçam convicções e raramente exigem revisão crítica.
No fim das contas, a audiência não trouxe nada de novo. Continuamos sem evidências verificáveis do Caso Varginha ou de qualquer visitação extraterrestre. O pedido de abertura de documentos via Lei de Acesso à Informação é legítimo e deve ser atendido. Mas é preciso encarar a possibilidade de que os documentos simplesmente não existam. E, se for esse o caso, aceitar que ausência de evidência não é, por si só, evidência de acobertamento.
Darei um exemplo de como muitas pessoas da ufologia não estão dispostas a aceitar algo que contrarie sua narrativa. Como lembra o Pirulla, muitos negadores da ciência dizem, na verdade, aceitá-la, mas no regime “a ciência só está certa quando concorda comigo”. Para muitos da ufologia, um depoimento ou declaração militar só está certo se concorda com a tese defendida. Alega-se que o NORAD (Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte) teria avisado autoridades brasileiras sobre a presença de UFOs no sul de Minas em 1996, próximo da data de início dos supostos acontecimentos em Varginha.
Resolvi questionar o NORAD sobre seu envolvimento. Por e-mail, fiz as seguintes perguntas:
O NORAD pode confirmar ou negar qualquer envolvimento em atividades relacionadas ao Incidente de Varginha ou a eventos semelhantes no Brasil durante o período em questão?
Em 1996, o NORAD tinha capacidade tecnológica para realizar as ações que lhe são atribuídas nesse contexto, como rastrear objetos anômalos por meio de sistemas de satélite e radar em colaboração com parceiros internacionais?
A resposta que obtive foi a seguinte:
CLASSIFICAÇÃO: NÃO CLASSIFICADO
João,
Segue abaixo nossa resposta oficial.
O NORAD não pode confirmar qualquer envolvimento em atividades relacionadas ao Incidente de Varginha ou a eventos semelhantes no Brasil durante o período de 1996. Não existem registros oficiais ou documentação operacional que sustentem alegações de colaboração com a Força Aérea Brasileira (FAB) sobre rastreamento de objetos aéreos anômalos naquela região.
Embora o NORAD possuísse capacidades de satélite e radar em 1996, mecanismos formais para compartilhamento de dados de Consciência Situacional Espacial (SSA) com entidades não americanas só foram estabelecidos em 2009, sob o USSTRATCOM — atualmente USSPACECOM. Portanto, qualquer informação de 1996 não teria sido compartilhada dentro desse framework. O compartilhamento operacional na época é considerado improvável, embora não possa ser completamente descartado.
Respeitosamente,
Rebecca Garand
Capitã
Quando tornei isso público, qual foi a resposta de uma parte da comunidade ufológica que defende a veracidade do Caso Varginha? Disseram que os militares jamais revelariam a verdade, que era muito ingênuo da minha parte perguntar isso diretamente. Ou seja, como os fatos não confirmam a narrativa, então não devem ser verdade. Não deveria tal atitude ser considerada hipocrisia? Claro, pode ser ingenuidade minha, mas o fato é: de um lado, uma declaração oficial do NORAD negando o envolvimento; do outro, um boato de que há envolvimento. Considerando o caso como um todo, para mim fica claro qual a alternativa mais plausível.
Discutir ufologia no Congresso pode parecer perda de tempo, mas também é um retrato do interesse público. Cabe aos céticos e cientistas aproveitarem essas oportunidades para levar informação de qualidade ao debate. Nessa oportunidade, infelizmente, foi pouco possível, já que os céticos foram quase que sumariamente excluídos, a priori. Houve uma participação em vídeo previamente gravado de Douglas Rodrigues, do site Universo Racionalista, mas que não durou mais que três minutos. Quem sabe, numa próxima oportunidade, a balança esteja mais bem equilibrada.
João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade
