O mundo assombrado pelos alienígenas

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13 out 2025
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Montagem com cadeia de DNA e cartaz de filme

 

A chama da vela escorre. Seu pequeno lago de luz tremula. A escuridão se voluma. Os demônios começam a se agitar.

O Mundo Assombrado pelos Demônios — Carl Sagan

E como estão agitados! Recentemente, o Daily Mail publicou matéria que provocou furor ao sugerir que "DNA alienígena" poderia estar escondido no genoma humano, com base em um estudo preliminar de Max Myakishev-Rempel, geneticista e fundador da DNA Resonance Research Foundation. Segundo o tabloide, Rempel alega que encontrou sequências genéticas "não parentais" (ausentes nos pais) em 11 famílias dentre algumas centenas, sugerindo que extraterrestres poderiam ter inserido genes em humanos, talvez explicando condições como autismo, TDAH ou até supostas "habilidades telepáticas". Pois é...

A história, amplificada por diversos veículos da mídia, inclusive no Brasil, evoca imagens de ficção científica, mas, sob escrutínio, revela-se mais um caso de pseudociência sensacionalista do que uma descoberta revolucionária. Vamos analisar por que essa alegação é, em termos científicos, insustentável.

 

O estudo e suas alegações

Remple diz ter analisado dados genéticos públicos do 1000 Genomes Project (581 famílias) e resultados de testes comerciais da 23andMe de indivíduos que se identificaram como "abduzidos por alienígenas". Segundo o pesquisador, foram encontradas 348 variantes genéticas em 11 famílias que não correspondiam ao DNA dos pais. Ou seja, elas têm que ter surgido de alguma forma, que não pela herança genética direta. Como essas pessoas nasceram antes de 1990, antes da tecnologia CRISPR de edição genética, Rempel especula que as variantes poderiam ser evidência de intervenção extraterrestre.

Ele sugere ainda, sem base em dados concretos, que tais sequências poderiam estar ligadas a características como neurodivergência ou mesmo habilidades paranormais, como telepatia, e defende mais estudos para identificar possíveis "híbridos" humano-alienígenas.

Parece absurdo. E é mesmo!

 

Os muitos problemas

O primeiro obstáculo é que o estudo não passou pelo crivo da revisão por pares, um processo essencial para validar descobertas científicas. O trabalho de Rempel é um pré-print, ou seja, um estudo não publicado em revista científica e não revisado por pares. Literalmente qualquer um pode escrever um artigo e fazer upload num site que abrigue pré-prints. Posso escrever um amanhã alegando que fui visitado por uma hoste de ETs. Isso significa que é verdade? Claro que não.

O próprio Rempel reconhece limitações fundamentais. Ele admite que os dados genéticos usados, especialmente os de testes comerciais como o 23andMe, são baseados em genotipagem por microarranjos, uma técnica de baixa resolução que analisa apenas uma fração do genoma e é propensa a erros. Ou seja, as diferenças observadas podem ser resultado de erros no próprio processo de produção dos dados, não diferenças genuínas. Para resultados confiáveis, seriam necessários dados e métodos melhores.

Ele também alerta que dados de células cultivadas em laboratório, comuns em bancos como o 1000 Genomes Project, podem conter alterações genômicas artificiais, o que compromete a interpretação dos resultados. Os dados simplesmente não são bons o suficiente para confirmar qualquer coisa. Assim, a base do estudo é frágil, e suas conclusões são, na melhor das hipóteses, especulativas.

A “descoberta” central de Rempel, sequências genéticas que não correspondem aos pais, não é, por si só, extraordinária. O genoma humano é dinâmico e sujeito a variações naturais. Quase toda a composição do genoma de uma pessoa é herdada dos pais, mas uma pequena fração pode incluir novas mutações (cada um de nós, em média, pode ter 152 mutações novas, isto é, ausentes em nossos pais), erros de sequenciamento, entre outras fontes de divergência. Em um estudo com 581 famílias, encontrar variantes em 11 delas (cerca de 2%) não chega a ser espantoso. E tem mais um detalhe, dentro do próprio estudo, o autor coloca apenas quatro como “híbridos definitivos”, enquanto as demais não apenas “possíveis híbridos”. Vale enfatizar, ainda, que apenas 2,5% do genoma foi foco da análise.

A inclusão de dados de "abduzidos por alienígenas" é outro ponto fraco; muito fraco. Essas pessoas se autoidentificaram com base em experiências subjetivas, frequentemente associadas a fenômenos psicológicos como paralisia do sono ou sugestibilidade, conforme mostram estudos em psicologia, sem qualquer confirmação independente dos supostos eventos relatados. O número de famílias abduzidas era baixíssimo, apenas duas. Rempel relata que numa família foi encontrada evidência de manipulação, mas na outra, não. Bom, eu posso jogar uma moeda e concluir a mesma coisa. Segundo ele, esse resultado se deve ao fato de ele ter usado a versão antiga de sua metodologia.

Além disso, a fundação de Rempel promove conceitos pseudocientíficos, como "ressonância de DNA", uma ideia sem base empírica que sugere que genes emitem "campos de energia". Esse histórico levanta dúvidas sobre a atenção dada a preceitos básicos da boa ciência.

As especulações de Rempel sobre ligações com autismo, TDAH ou telepatia são particularmente problemáticas. Neurodivergência tem causas genéticas e ambientais bastante concretas, apesar de multifatoriais, e associá-la a intervenções alienígenas não apenas carece de evidências, mas também é potencialmente prejudicial, estigmatizando condições reais.

Quanto vale um clique?

Tudo o que temos acompanhado nos últimos anos me faz refletir para onde estamos rumando. As mídias sociais na internet se tornaram uma arena darwinista de cliques: o único objetivo é conseguir cliques e mais cliques e, assim, sobreviver em meio a um mundo cada vez mais competitivo, que faz de tudo para prender um milésimo de segundo da atenção dos internautas, na esperança de faturar algo com isso. E tem funcionado, surpreendentemente. Devo estar sendo muito otimista quando penso que no passado não era assim. Mas, sei lá, tenho a impressão de que piorou. E muito. Ainda vivemos assombrados pelos demônios. E pelos alienígenas, aparentemente.

 

João Lucas da Silva é mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa, e atualmente doutorando em Ciências Biológicas na mesma universidade

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